O Amor que Perdi 164

Capítulo 12 — A Farsa da Generosidade

por Isabela Santos

Capítulo 12 — A Farsa da Generosidade

O sol da manhã banhava a fazenda dos Oliveira com uma luz dourada e suave, mas para Helena, parecia apenas mais um convite para a representação. O café da manhã foi um exercício de autocontrole. Miguel, alheio às tempestades internas de Helena, sorria e conversava com Dona Clara sobre os preparativos para a festa de aniversário de sua mãe, que se aproximava.

"Fico feliz que você esteja aqui para nos ajudar, Miguel", disse Dona Clara, com um sorriso que não alcançava seus olhos. Havia uma tensão sutil no ar, uma cortesia forçada que Helena não conseguia ignorar.

"É um prazer, Dona Clara", respondeu Miguel, o olhar pousando em Helena com a familiar intensidade que, até ontem, a derretia. Agora, ela sentia um calafrio. Ela o observava, tentando decifrar o homem por trás da máscara de carinho e preocupação. A imagem do pingente em sua mente se sobrepunha à sua face.

"Helena, querida, por que está tão quieta hoje?", perguntou Miguel, sua voz suave, mas com um toque de preocupação que parecia ensaiado. "Não gostou do café da manhã?"

Helena deu um pequeno sorriso, forçando a naturalidade. "Estou bem, Miguel. Apenas pensando em algumas coisas."

"Coisas da fábrica, talvez?", ele arriscou, e Helena sentiu um ardor de desconfiança. Era uma pergunta inocente ou uma provocação velada?

Ela decidiu jogar o jogo. "Sim, a expansão. Há tantos detalhes a serem considerados, não é mesmo?" Ela manteve o olhar fixo no dele, buscando qualquer sinal de incômodo, de hesitação. Miguel devolveu o olhar com firmeza, um leve inclinar de cabeça.

"Precisamos ter certeza de que tudo seja feito da maneira correta, Helena. Sem pressa, sem erros. A segurança e o bem-estar dos nossos funcionários são a prioridade." Ele falou com convicção, mas algo em seu tom soava como um mantra repetido.

Aurora entrou na sala de jantar naquele momento, com um vestido florido e um sorriso radiante, como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Ela parecia a personificação da inocência, uma imagem que contrastava brutalmente com o desespero que Helena sentia.

"Bom dia a todos!", disse Aurora, aproximando-se de Miguel e dando-lhe um beijo leve na bochecha. Helena sentiu uma pontada de ciúmes, uma emoção que ela lutou para reprimir. O gesto foi casual, um cumprimento entre primos, mas a proximidade dos dois, a cumplicidade que parecia pairar entre eles, era como um punhal em seu peito.

"Você dormiu bem, Miguel?", perguntou Aurora, sua voz doce.

"Como um anjo, querida", ele respondeu, o sorriso voltando ao seu rosto. "E você?"

"Um pouco agitada, confesso. Mas a beleza deste lugar sempre me acalma." Ela lançou um olhar significativo para Helena, que sentiu um arrepio.

Helena se levantou, incapaz de suportar mais aquela encenação. "Com licença, preciso verificar alguns documentos na biblioteca."

"Vou com você", disse Miguel, levantando-se rapidamente. "Precisamos discutir o projeto de expansão em detalhes."

No caminho para a biblioteca, Helena sentiu o peso do silêncio entre eles. A mão de Miguel roçou a dela, uma tentativa de reconexão. Ela se afastou sutilmente.

"Helena, o que está acontecendo?", ele perguntou, a voz mais baixa, com um tom de preocupação genuína. "Você parece distante."

"Estou apenas cansada, Miguel", ela mentiu. A verdade era um peso insuportável, e ela ainda não estava pronta para confrontá-lo. Ela não tinha todas as peças do quebra-cabeça.

Ao chegarem à biblioteca, Helena foi direto para a escrivaninha, pegando um maço de papéis. Miguel a seguiu, sentando-se na cadeira oposta. Ele pegou um dos papéis e começou a analisá-lo.

"Estes são os relatórios financeiros preliminares", disse ele. "Precisamos revisar os custos para garantir que o investimento seja sustentável."

Helena observou-o, cada movimento, cada expressão. "E a questão do terreno adjacente? Já conseguiram chegar a um acordo com os proprietários?"

Miguel hesitou por um instante, e Helena notou. "Estamos negociando. São questões complexas, mas confio que tudo se resolverá."

"Complexas como os negócios de seu pai no passado?", Helena disparou, as palavras saindo antes que ela pudesse contê-las.

O sorriso de Miguel vacilou. Seus olhos se estreitaram levemente. "Helena, você sabe que o passado de meu pai não tem nada a ver com o meu."

"Tem certeza?", ela insistiu, a voz embargada. "Porque eu ouvi coisas, Miguel. Coisas que me fazem questionar suas intenções."

A expressão de Miguel endureceu. "O que você ouviu?"

"Ouvi que você não é quem diz ser. Que seus planos para a fábrica escondem algo mais. Algo que pode prejudicar a todos nós."

Miguel se levantou, a frustração evidente em seu rosto. "Isso é ridículo! Quem disse tais coisas a você?"

Helena hesitou, pensando em Aurora. Mas não queria incriminá-la diretamente, ainda. "Pessoas que conhecem o seu passado. Pessoas que sabem como você age quando tem algo a esconder."

"E você acredita nelas? Você acredita que eu, que te amo, tentaria te enganar?" A dor em sua voz era palpável, mas Helena não sabia se era genuína ou mais uma atuação.

"Eu não sei mais o que acreditar, Miguel", ela sussurrou, as lágrimas começando a se formar em seus olhos. "Há tantas contradições, tantas perguntas sem resposta."

Miguel se aproximou dela, tentando segurar seu rosto entre as mãos. "Helena, por favor, olhe para mim. Eu sou o mesmo homem que você amou. Eu voltei por você, por nós. Não deixe que as mentiras de outras pessoas destruam isso."

"Mas e o pingente, Miguel?", Helena perguntou, sua voz embargada. "Por que você guardou o pingente da Aurora?"

O rosto de Miguel empalideceu. Ele retirou as mãos de perto dela como se tivesse levado um choque. "O que... o que você está falando?"

"Eu o encontrei na gaveta da sua escrivaninha. Uma caixinha preta. O pingente que você usava na foto com ela."

Miguel a encarou, seus olhos cheios de uma mistura de choque e algo que Helena não conseguia identificar. "Isso... isso é impossível. Eu não tenho mais aquele pingente."

"Então como ele foi parar na sua gaveta?", Helena o confrontou, a voz ganhando força. "Como ele foi parar na sua gaveta, Miguel?"

O silêncio se instalou entre eles, pesado e denso. Miguel desviou o olhar, incapaz de encarar a acusação nos olhos de Helena.

"Eu... eu não sei", ele gaguejou, a voz embargada. "Talvez... talvez tenha sido um engano."

"Um engano?", Helena repetiu, uma risada amarga escapando de seus lábios. "Miguel, suas desculpas estão começando a soar como a farsa que são. Você está me escondendo algo."

Naquele momento, Aurora apareceu na porta da biblioteca, um sorriso calculista brincando em seus lábios. "Desculpem interromper. Mas Miguel, sua mãe está te chamando. Algo sobre os preparativos finais para a festa."

Miguel olhou para Aurora, depois para Helena, uma expressão de desespero em seu rosto. Helena sentiu um aperto no peito. O olhar de Aurora, o momento em que ela apareceu... tudo parecia tão orquestrado.

"Eu preciso ir", disse Miguel, sua voz tensa. Ele lançou um último olhar para Helena, um olhar que ela não conseguia decifrar. Era de súplica? De raiva? De arrependimento?

Ele saiu apressado da biblioteca, deixando Helena e Aurora a sós. O silêncio se instalou, mais opressor do que antes. Helena olhou para Aurora, a máscara de inocência da prima agora parecia grotesca.

"Você sabia", Helena disse, sua voz fria e cortante. "Você sabia que ele tinha o pingente. Você plantou essa dúvida em mim."

Aurora deu um passo à frente, seu sorriso se alargando, mas sem calor. "Eu apenas te mostrei a verdade, Helena. A verdade que você se recusa a ver. Miguel é um homem de ambições. E o amor, para ele, muitas vezes é apenas uma ferramenta."

"Você está mentindo!", Helena exclamou, a voz tremendo de raiva.

"Estou?", Aurora riu, um som desagradável. "Pense bem, Helena. Por que ele estaria escondendo o pingente? Por que ele estaria tão relutante em falar sobre a expansão? A verdade está aí, na sua frente. E ela machuca, não é?"

Helena recuou, sentindo-se encurralada. O amor que ela acreditava ter encontrado estava se desfazendo em suas mãos, substituído pela amarga compreensão de que talvez tudo tivesse sido uma elaborada farsa. A generosidade de Miguel, sua devoção, tudo parecia agora uma mentira bem contada, e Aurora, com sua astúcia, era a única que parecia enxergar através dela, ou talvez, estivesse orquestrando o engano.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%