O Amor que Perdi 164
O Amor que Perdi 164
por Isabela Santos
O Amor que Perdi 164
Autor: Isabela Santos
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Capítulo 6 — O Sussurro das Mágoas Ocultas
O sol, um disco dourado preguiçosamente se arrastando pelo céu de Lapa, banhava a cidade com uma luz que prometia calor, mas que para Helena era apenas um lembrete pálido da própria apatia. Sentada à varanda da casa antiga, a brisa leve trazia consigo o perfume adocicado das flores de jasmim, um aroma que antes lhe trazia paz, mas que agora parecia carregar o peso de anos de silêncio e dor. A xícara de café esfriava em suas mãos, o vapor dissipando-se no ar como as esperanças que outrora fervilhavam em seu peito.
Desde o retorno de Bruno, a atmosfera na casa dos Vasconcelos pairava densa, carregada de expectativas não ditas e de um passado que se recusava a ser enterrado. Helena se sentia como um fantasma em sua própria existência, vagando pelos corredores repletos de memórias, cada objeto, cada móvel, um eco de um tempo em que a vida pulsava com mais força, com mais cor. Ela sabia que Bruno a observava, sentia o peso do olhar dele em suas costas, um olhar que ela tentava desesperadamente evitar. Havia uma mistura de culpa, saudade e um anseio contido que a desarmava.
Na noite anterior, o jantar havia sido um espetáculo de falsas gentilezas. Dona Aurora, com seu sorriso impecável e voz melíflua, tentava disfarçar o nervosismo que a assaltava sempre que Bruno estava por perto. Seu filho, por sua vez, mantinha um comportamento polido, quase distante, mas Helena percebia os lampejos de intensidade em seus olhos quando eles se cruzavam. Eram olhares que falavam de tudo o que não podia ser dito em voz alta, de um amor que, apesar de tudo, ainda ardia.
"Você parece distante hoje, minha filha", Dona Aurora comentou, sua voz ecoando na quietude da manhã. Ela se aproximou, seus dedos finos acariciando o ombro de Helena.
Helena tentou um sorriso, mas ele não alcançou seus olhos. "Apenas um pouco cansada, mãe. A viagem de volta de São Paulo foi longa." Era uma meia verdade. A viagem havia sido fisicamente cansativa, mas o verdadeiro peso era o emocional. Ver Bruno de volta àquela casa, onde tantas promessas foram feitas e quebradas, revirava seu mundo.
Bruno entrou na sala de estar, vestindo uma camisa de linho clara, que realçava o bronzeado de sua pele. Ele trazia consigo uma aura de maturidade, um ar de quem havia enfrentado tempestades e sobrevivido. Seus olhos azuis, antes cheios de uma jovialidade despreocupada, agora guardavam uma profundidade que Helena não reconhecia completamente. Ele parou à porta, observando-as por um instante, antes de se dirigir a Helena.
"Bom dia, Helena. Dormiu bem?" A voz dele era um barítono suave, que soava familiar e estranho ao mesmo tempo.
Helena engoliu em seco. "Bom dia, Bruno. Sim, dormi." A formalidade entre eles era quase dolorosa.
Dona Aurora sorriu, um sorriso tenso. "Bruno, querido, o café está pronto. Se quiser um pouco mais."
"Obrigado, mãe. Já me servi mais cedo." Ele caminhou até a poltrona de couro, sentando-se com uma elegância que sempre a encantou. O silêncio se instalou novamente, pesado, prenhe de significados.
Helena se levantou, decidida a quebrar a tensão. "Preciso ir à cidade. Tenho algumas compras para fazer na farmácia." Era uma desculpa esfarrapada, ela sabia, mas era melhor do que ficar ali, se afogando em pensamentos.
"Posso acompanhá-la, se desejar", Bruno ofereceu, seus olhos fixos em seu rosto.
O coração de Helena deu um salto. A ideia de passar mais tempo com ele, a sós, era ao mesmo tempo tentadora e assustadora. Ela imaginou os caminhos sinuosos da cidade, as conversas que poderiam surgir, as lembranças que seriam evocadas. Ela não estava preparada para isso.
"Não, obrigada. Eu vou e volto rápido", ela respondeu, sua voz um pouco mais firme do que pretendia. Ela pegou sua bolsa e saiu apressadamente, sentindo o olhar de Bruno em suas costas até que a porta se fechou.
Na rua, o sol parecia mais intenso. Helena respirou fundo, tentando clarear a mente. A farmácia ficava a poucas quadras. Enquanto caminhava, observava a arquitetura colonial de Lapa, as casas coloridas, as praças arborizadas. Era a sua cidade, o palco de sua juventude, onde cada pedra guardava um fragmento de sua história com Bruno.
Ao chegar à farmácia, encontrou o lugar quase vazio. O cheiro de antisséptico e de cosméticos era familiar e reconfortante. Ela pegou os itens que precisava, tentando manter a compostura. Foi então que, no reflexo do espelho da prateleira de medicamentos, ela o viu. Bruno estava parado na entrada, observando-a com uma intensidade que a fez gelar. Ele não a havia seguido, ela pensou. Talvez fosse apenas uma coincidência.
Ele se aproximou lentamente, seus passos ecoando no chão de cerâmica. "Eu disse que não a acompanharia. Mas aqui estou eu."
Helena sentiu o rosto corar. "Bruno, o que está fazendo aqui?"
"Estava andando pela cidade. Precisava pensar um pouco", ele respondeu, seus olhos azuis fixos nos dela. Havia uma vulnerabilidade em seu olhar que a tocou profundamente. "Eu não queria assustá-la. Só… eu sinto sua falta, Helena."
As palavras dele a atingiram como uma onda. A confissão, tão direta, tão honesta, desarmou as barreiras que ela havia erguido com tanto esforço. Ela sentiu uma pontada de algo que se assemelhava a esperança, mas também a medo. Medo de se deixar levar novamente, de se machucar mais uma vez.
"Bruno, nós… já passamos por muita coisa", ela murmurou, lutando para manter a voz firme.
"Eu sei. E eu carrego a culpa por muitos desses "muita coisa" que passaram. Mas eu também me lembro de tudo o que tivemos, Helena. Do amor que… que nos unia." Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O espaço agora parecia eletrizado. "Eu cometi erros. Erros terríveis. Mas o meu amor por você nunca foi um erro."
As lágrimas ameaçaram transbordar. Ela olhou para ele, para o homem que havia sido o centro de seu universo, e viu a dor em seus olhos, a mesma dor que ela sentia. Era como olhar para um espelho de sua própria alma.
"Por que agora, Bruno? Por que você voltou agora?" A pergunta escapou de seus lábios antes que ela pudesse contê-la.
Ele suspirou, um som que carregava o peso de anos de arrependimento. "Porque eu não aguentava mais. Não aguentava mais viver longe de você, longe de tudo o que importava. A doença da minha mãe… ela me fez repensar tudo. A vida é curta demais, Helena. E eu não quero mais desperdiçar um segundo sequer longe de você."
A menção à doença de Dona Aurora a pegou de surpresa. Helena sabia que a saúde de sua sogra não era das melhores, mas não imaginava a gravidade.
"Eu sinto muito pela sua mãe, Bruno. Não sabia que estava tão ruim."
"Ela está… lutando. E essa luta me fez perceber o quanto eu quero lutar também. Lutar por nós, Helena. Se você me der uma chance." Ele estendeu a mão, os dedos hesitantes pairando no ar entre eles.
Helena olhou para aquela mão, para o toque que um dia lhe trouxe tanto conforto e paixão. Sua mente gritava para que ela fugisse, para que se protegesse da dor que certamente viria. Mas seu coração, aquele órgão teimoso e teimosamente apaixonado, sussurrava outra coisa. Sussurrava sobre a possibilidade de cura, sobre a promessa de um novo amanhecer.
Ela hesitou por um longo momento, o silêncio da farmácia amplificando o som de seu próprio coração batendo descompassado. As mágoas do passado eram profundas, cicatrizes que pareciam impossíveis de apagar. Mas o amor… o amor de Bruno, mesmo ferido, parecia ter uma força inabalável.
Com um suspiro trêmulo, Helena estendeu sua própria mão e tocou os dedos de Bruno. Um arrepio percorreu seu corpo. O toque era elétrico, familiar, carregado de promessas e de perigos.
"Eu não sei se consigo, Bruno", ela disse, sua voz embargada. "Eu sofri tanto."
"Eu sei que sim. E eu assumo toda a responsabilidade por essa dor. Mas me deixe mostrar que eu mudei. Me deixe provar que o meu amor é real, Helena. Que ele vale a pena ser redescoberto."
Naquele instante, sob a luz fria da farmácia, com o cheiro de remédios no ar, algo em Helena começou a ceder. O muro de mágoas, construído com tanta dedicação, começou a rachar. O amor que ela julgava morto, adormecido, parecia estar despertando.