A Esposa Rebelde 165

Capítulo 17 — O Passado em Chamas

por Camila Costa

Capítulo 17 — O Passado em Chamas

O retorno para a mansão foi silencioso, mas carregado de uma nova intensidade. O beijo na chuva havia quebrado uma barreira, mas também criara uma nova, um abismo de incertezas entre Clara e Leonardo. Ela se sentia desnorteada, confusa com os próprios sentimentos. A admiração que começava a nutrir por ele, misturada com o medo e a raiva, era um coquetel perigoso. E o beijo, aquele beijo inesperado, revelara uma vulnerabilidade nele que ela nunca imaginara existir.

Leonardo, por sua vez, estava inquieto. Aquele momento de entrega física, a resposta de Clara, o haviam desestabilizado profundamente. Ele se sentia em conflito consigo mesmo. A ideia de manter Clara sob seu controle, de usá-la para seus propósitos, começava a parecer cada vez mais sombria e cruel. Ele sabia que não podia continuar com aquele jogo por muito tempo. Algo precisava mudar, e essa mudança o assustava.

Ao chegarem à mansão, encontraram Dona Aurora tensa, esperando-os na sala de estar, o semblante sombrio. Ao ver Clara, seus olhos brilharam com um alívio fugaz, mas logo voltaram a um tom de preocupação.

"Graças a Deus vocês estão bem", disse ela, a voz trêmula. "O Leonardo me ligou. Fiquei tão aflita com a notícia do sequestro."

Clara percebeu que Leonardo havia criado uma versão cuidadosamente editada dos eventos. O "sequestro" era uma distração, uma forma de evitar questionamentos sobre a emboscada real. Ela se sentiu um pouco culpada por ser cúmplice daquela mentira, mas sabia que a verdade seria ainda mais devastadora.

"Foi um susto, Dona Aurora", Clara respondeu, tentando parecer calma. "Mas Leonardo nos protegeu."

Dona Aurora lançou um olhar desconfiado para o filho, mas decidiu não pressionar. Ela sabia que Leonardo guardava muitos segredos, e a relação dele com Clara era um deles. Apenas um observador atento poderia notar a tensão não resolvida entre eles, a forma como seus olhares se evitavam, mas não conseguiam se desviar completamente.

Na manhã seguinte, enquanto Clara tomava café na varanda, a brisa fresca da serra acariciando seu rosto, o som de um carro estacionando na entrada da mansão a fez se sobressaltar. Era o pai de Leonardo, o Dr. Armando, um homem imponente e de poucas palavras, conhecido por sua frieza e ambição desmedida. A presença dele raramente trazia boas notícias.

Armando entrou na sala de estar, onde Leonardo o esperava. A saudação foi formal, desprovida de afeto.

"Leonardo", Armando começou, a voz grave. "Ouvi dizer que houve um incidente desagradável nas montanhas. Espero que não tenha comprometido os nossos planos."

Leonardo o encarou, a frieza retornando ao seu olhar. "Os planos estão em andamento, pai. A única complicação foi a necessidade de lidar com alguns imprevistos."

"Imprevistos que podem custar caro. Você sabe a importância deste acordo. Não podemos nos dar ao luxo de falhas. Especialmente agora." Armando fez uma pausa, seu olhar varrendo o hall de entrada, como se procurasse algo. "Onde está a Clara?"

Leonardo hesitou por um instante. Ele sabia que a presença de Clara era um ponto sensível para seu pai, uma complicação em seus planos de reerguer a empresa da família. "Ela está bem. Não se preocupe com ela."

"Não me preocupo com ela. Me preocupo com o que ela representa. Ela é a chave para desatar alguns nós antigos, Leonardo. Nós que você parece relutante em desatar."

A conversa entre pai e filho era tensa, carregada de subentendidos. Armando sabia dos desentendimentos entre Leonardo e Clara, mas também sabia do potencial do casamento deles para os negócios. Ele queria ter certeza de que Leonardo estava mantendo o controle.

"Eu estou cuidando de tudo, pai", Leonardo respondeu, a voz firme. "Clara não será um problema."

Mas enquanto falava, Leonardo sentiu um peso em seu peito. A ideia de Clara como uma mera peça em um jogo o incomodava cada vez mais. Ele se lembrava do beijo na chuva, da doçura em seus olhos, da força que ela demonstrava. Ele não queria mais machucá-la.

Mais tarde naquele dia, Clara decidiu explorar os jardins da mansão, buscando um pouco de paz. Ela caminhava entre as roseiras perfumadas, a mente divagando, quando ouviu vozes vindas de um recanto isolado, perto de um lago. Curiosa, ela se aproximou cautelosamente. Escondida atrás de uma sebe florida, viu Armando e Dona Aurora conversando, a voz dela embargada.

"Armando, eu não aguento mais viver com essa mentira!", Dona Aurora dizia, as lágrimas escorrendo pelo rosto. "O que você fez… foi cruel. Você destruiu a família do meu irmão por causa de dinheiro!"

Armando a repreendeu em voz baixa. "Tenha cuidado com o que diz, Aurora. O passado deve permanecer enterrado. E o que eu fiz foi necessário para garantir o futuro desta família. O dinheiro é o que nos mantém de pé."

"Dinheiro não vale mais que a felicidade!", ela soluçou. "Você tirou tudo de Clara, Armando! Você tirou os pais dela, a empresa deles… e agora a força a se casar com o seu filho para cobrir seus próprios rastros!"

Clara ouviu as palavras de Dona Aurora com o coração disparado. As peças começaram a se encaixar de forma aterrorizante. A emboscada, o casamento forçado, o interesse de Armando em seu controle… tudo parecia ter uma origem sombria. Ela percebeu que o homem que a obrigara a se casar com Leonardo, o homem que a ameaçara, era o mesmo homem que destruíra a família de sua mãe. O passado, que ela acreditava esquecido, estava ali, queimando em chamas diante dela. Clara sentiu um misto de raiva e desespero. Ela não era apenas uma noiva relutante, era uma vítima de uma vingança antiga, de um crime que a afetava diretamente. E Leonardo, o homem que ela beijara na chuva, era filho do homem que a havia destruído.

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