A Esposa Rebelde 165
Capítulo 5 — O Jogo de Sombras de Leonardo
por Camila Costa
Capítulo 5 — O Jogo de Sombras de Leonardo
A manhã seguinte ao jantar de gala amanheceu cinzenta, um reflexo fiel do estado de espírito de Isabella. A euforia do reencontro com Daniel e a excitação do beijo proibido haviam dado lugar a uma profunda inquietação. A imagem de Leonardo com Sofia, a intimidade que emanava deles, martelava em sua mente, alimentando uma suspeita incômoda. O homem que a repreendia por um olhar prolongado para outro homem parecia ter uma moral flexível.
Ela preparou o café da manhã em silêncio, cada movimento mecânico. Leonardo entrou na cozinha com o mesmo ar de quem comanda o mundo, vestindo seu terno impecável, mas com um brilho diferente nos olhos. Um brilho de quem havia passado uma noite agradável, talvez.
“Bom dia, meu amor”, ele disse, com um sorriso que não alcançou seus olhos. Ele se sentou à mesa, pegando um jornal. “Dormiu bem?”
“Sim, como sempre”, Isabella respondeu, sua voz fria e distante. Ela serviu o café, a xícara tremendo levemente em suas mãos.
Leonardo folheou o jornal, mas Isabella sentiu seu olhar fixo nela. “Você parece um pouco pálida. O jantar de ontem a deixou exausta?”
“Um pouco”, ela admitiu, evitando seu olhar. “Você parecia muito entretido com a Sofia Mendes.” A acusação saiu de seus lábios antes que ela pudesse detê-la, um reflexo da raiva e da desconfiança que a consumiam.
Leonardo baixou o jornal lentamente, um leve sorriso de canto de boca. “Sofia é uma profissional talentosa. E uma boa companhia. Não sabia que você se importava tanto com minhas conversas de negócios.”
A ironia em sua voz era clara. Ele estava debochando dela. Isabella sentiu o sangue ferver. “Talvez eu me importe quando vejo minha reputação sendo usada como moeda de troca.”
Leonardo deu uma risada curta e seca. “Não seja ridícula, Isabella. Você é minha esposa. Minha imagem é o que mais me importa. E você é a joia da coroa.”
Aquelas palavras, que antes a fariam sentir-se valorizada, agora soavam como uma fria declaração de posse. Ela era um troféu, um objeto. A ideia de Daniel, que a via como artista, como alma, como mulher, inundou sua mente.
“Uma joia que pode se desgastar, Leonardo”, ela disse, sua voz ganhando força. “E eu não estou mais disposta a ser polida para agradar aos seus desejos.”
Leonardo a encarou, um brilho perigoso em seus olhos azuis. Ele não estava acostumado a ser desafiado, muito menos por Isabella. “O que quer dizer com isso, Isabella?”
“Quero dizer que estou cansada de ser a esposa perfeita, a dona de casa impecável, a anfitriã elegante. Eu quero… eu quero viver. E se você não me der essa chance, eu mesma a tomarei.”
Ela se levantou da mesa, o coração batendo forte. A ousadia de suas próprias palavras a surpreendeu. Ela estava cruzando uma linha, entrando em um território desconhecido e perigoso.
“Você está falando sério?”, Leonardo perguntou, sua voz baixa e ameaçadora. “Você sabe o que está arriscando?”
“Sei”, Isabella respondeu, firmemente. “E estou disposta a arriscar.”
Ela saiu da cozinha, deixando Leonardo sozinho à mesa, o jornal esquecido e um olhar de fúria contida em seu rosto. Isabella sabia que havia acendido um pavio. Leonardo não era homem de perdoar traições, reais ou imaginárias. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que estava no controle de sua própria vida.
O resto do dia foi preenchido por uma ansiedade crescente. Isabella se dedicou a tarefas domésticas, mas sua mente estava em outro lugar. Ela esperava por uma ligação de Daniel, por um sinal de que o encontro deles não havia sido um delírio passageiro. E então, no final da tarde, o telefone tocou.
“Alô?”, ela atendeu, o coração disparado.
“Isabella”, a voz de Daniel era suave e reconfortante. “Pensei em você o dia todo. Você está bem?”
“Daniel”, ela suspirou, sentindo uma onda de alívio. “Sim, estou bem. Mas as coisas… ficaram um pouco complicadas.” Ela contou a ele sobre a conversa com Leonardo, sobre a desconfiança que a consumia.
Daniel ouviu atentamente. “Eu sabia que ele era um homem difícil. Mas você tomou a decisão certa, Isabella. Não se deixe abater por ele. Ele não te merece.”
“Eu sei”, ela disse, com mais convicção do que antes. “E eu não vou mais me permitir ser controlada. Daniel, eu quero… eu quero te ver de novo. Preciso conversar.”
“Claro. Quando e onde?”, ele perguntou, a voz cheia de esperança.
Eles combinaram de se encontrar em uma cafeteria discreta no dia seguinte, longe dos olhares curiosos da elite paulistana. Desligaram o telefone, mas a sensação de cumplicidade permaneceu. Isabella sentiu uma força nova dentro de si, uma determinação inabalável.
Naquela noite, Leonardo voltou para casa com um ar de superioridade ainda maior. Ele a tratou com a cordialidade fria de sempre, mas Isabella percebeu um quê de observação em seus olhares. Ele sabia que algo havia mudado.
“Sofia me contou que você saiu cedo do jantar ontem”, ele disse casualmente, enquanto jantavam. “Estava procurando por você quando decidimos ir embora.”
Isabella sentiu um arrepio. Sofia. Ela estava monitorando seus movimentos. O jogo de sombras de Leonardo estava em andamento.
“Fui dar uma volta no jardim, como te disse”, ela respondeu, mantendo a calma. “Precisei de um momento para mim.”
Leonardo a encarou, um sorriso enigmático nos lábios. “Cuidado, Isabella. Em um mundo como o nosso, um momento para si mesma pode ser interpretado de muitas maneiras.”
Ele estava a alertando. Ou a ameaçando. Isabella sentiu um nó na garganta, mas não deixou transparecer seu medo. Ela levantou a taça de vinho, um gesto desafiador. “E eu estou começando a gostar de ser mal interpretada, Leonardo.”
Leonardo a olhou por um longo instante, o brilho em seus olhos azuis se intensificando. Ele sabia que a batalha havia começado. E Isabella, a esposa rebelde, estava pronta para lutar. A guerra pela sua alma, pelo seu futuro, estava apenas começando.