Rendida a ele 167
Rendida a Ele
por Valentina Oliveira
Rendida a Ele
Por Valentina Oliveira
Capítulo 1 — O Encontro Inesperado sob a Chuva
O céu de Salvador estava em prantos. Não era uma chuva fina, melancólica, que acariciava a pele e trazia um perfume de terra molhada. Era um dilúvio, furioso, que lavava as ruas de paralelepípedos e transformava a Cidade Baixa em um espelho d'água agitado. No meio daquele turbilhão, o velho Opala Diplomata de Clara relinchava, teimoso, recusando-se a dar a partida. Ela suspirou, a frustração pintando em seu rosto delicado uma expressão de puro desespero. O encontro de negócios era crucial, a oportunidade que ela esperava há anos para tirar a pequena editora de livros raros da beira do abismo. E agora, o destino decidia fazer uma piada cruel, aprisionando-a naquela tempestade apocalíptica.
"Vamos lá, meu velho amigo", murmurou Clara, batendo com a mão no painel. O couro envelhecido cedeu levemente, mas o motor permaneceu mudo. As gotas grossas e frias escorriam pelo vidro embaçado, distorcendo as luzes neon dos prédios ao redor em borrões coloridos e fantasmagóricos. Ela podia sentir o suor frio começando a brotar em sua testa, misturando-se à umidade que já impregnava suas roupas. O tic-tac do relógio em seu pulso parecia acelerar, cada segundo uma facada em sua esperança.
De repente, um vulto surgiu na neblina aquática, aproximando-se rapidamente. Era um homem. Alto, robusto, com ombros largos que pareciam desafiar a força da chuva. Ele usava uma jaqueta de couro preta, que o protegia, mas não o suficiente para evitar que a água escorresse por seu rosto. Mesmo na penumbra e sob a chuva torrencial, Clara pôde distinguir a beleza rústica e imponente de seus traços. Um queixo marcado, um nariz reto e lábios que, mesmo contraídos pela preocupação, exalavam uma sensualidade latente.
Ele parou ao lado do Opala, inclinando-se ligeiramente para olhar para dentro. Um par de olhos intensos, de um azul profundo como o oceano em dias de tempestade, encontraram os de Clara. Havia uma mistura de curiosidade e preocupação naquele olhar, um reconhecimento silencioso da situação precária em que ela se encontrava.
"Problemas?", a voz dele era grave, um timbre que ressoava em meio ao barulho da chuva, como um trovão distante. Era uma voz que prometia força, mas também um certo mistério.
Clara engoliu em seco, sentindo-se subitamente exposta sob aquele olhar penetrante. "O carro... ele simplesmente parou de funcionar. E eu preciso urgentemente chegar ao centro."
O homem assentiu, observando o painel do carro com um olhar experiente. Ele não disse nada por um momento, apenas analisou a situação com uma calma que contrastava com a agitação de Clara. Então, com um gesto decidido, ele abriu a porta do motorista.
"Saia. Vou dar uma olhada."
Clara hesitou. Um estranho. Em uma rua deserta, sob aquela chuva implacável. Mas havia algo na postura dele, na confiança com que agiu, que a fez ceder. Ela abriu a porta e, sentindo o vento gelado e a água invadirem o carro, saiu para a chuva. O homem se abaixou, abrindo o capô do Opala com uma facilidade surpreendente.
O cheiro de metal quente, óleo e chuva se misturou no ar. Clara observava-o trabalhar, a forma como seus músculos se moviam sob a jaqueta, a precisão de seus gestos enquanto ele mexia nas entranhas do carro. Ele parecia pertencer àquele caos, àquela força da natureza.
"Parece que o distribuidor molhou", ele disse, sem tirar os olhos do motor. "É comum em dias assim. Me dê um momento."
Ele tirou algo de um pequeno compartimento na lateral do carro, um pano que ele usou para secar algumas peças. Clara observava, fascinada. Não apenas pela habilidade dele, mas pela aura que o cercava. Era um homem de poucas palavras, mas sua presença era avassaladora.
"Quem é você?", Clara perguntou, a voz quase inaudível sob o barulho da chuva.
Ele se virou, um pequeno sorriso brincando em seus lábios. "Mateus. Mateus Bastos." Ele estendeu a mão, ainda suja de graxa, e Clara, sem hesitar, apertou-a. A mão dele era forte, quente, e um choque elétrico percorreu seu braço.
"Clara. Clara Mendes."
"Prazer, Clara Mendes", Mateus respondeu, seus olhos fixos nos dela por um instante que pareceu se estender para além do tempo. Havia uma intensidade ali, uma atração magnética que a deixou sem fôlego.
Ele voltou ao trabalho, e alguns minutos depois, com um ruído familiar e reconfortante, o motor do Opala ganhou vida. Clara suspirou de alívio, um sorriso genuíno finalmente iluminando seu rosto.
"Você conseguiu! Muito obrigada, Mateus. Você salvou o meu dia. E talvez o meu negócio."
Mateus fechou o capô, a água escorrendo por seu rosto em cascata. Ele ergueu a mão e limpou uma gota que ameaçava cair em seus olhos. "Não foi nada. Apenas um pouco de conhecimento de mecânica."
"Um pouco? Você foi um anjo. Por favor, me deixe te agradecer com um café, um jantar... qualquer coisa." Clara sentiu o calor subir em suas bochechas. Ela raramente era tão direta, mas a adrenalina do momento, a gratidão e aquela atração inegável a empurraram para isso.
Mateus a olhou novamente, um brilho diferente em seus olhos. Era um misto de surpresa e... interesse. Ele ponderou por um momento, o som da chuva diminuindo ligeiramente à medida que o carro voltava a funcionar.
"Sabe, Clara Mendes", ele disse, sua voz carregada de uma suavidade inesperada. "Eu adoraria aceitar seu convite. Mas hoje, parece que o destino nos reservou algo mais... espontâneo."
Ele se aproximou do carro, o olhar fixo no dela. A chuva, que antes parecia um obstáculo, agora criava uma atmosfera íntima, um véu que os separava do resto do mundo.
"Meu carro está ali", ele apontou para um luxuoso sedã preto estacionado a poucos metros. "E meu destino é na mesma direção que o seu. Se você não se importa de compartilhar a carona, posso te levar."
Clara sentiu seu coração disparar. Compartilhar a carona com aquele homem? A ideia era tentadora, perigosa e incrivelmente excitante. A intuição lhe dizia para confiar nele, mas uma pequena voz de cautela sussurrava em seu ouvido. No entanto, a urgência de chegar ao seu compromisso era maior. E, para ser honesta, ela não conseguia tirar os olhos dele.
"Eu adoraria", ela respondeu, a voz um pouco trêmula.
Mateus abriu a porta do passageiro para ela. Clara entrou, o interior do sedã exalando um aroma discreto de couro e algo mais, algo que ela não conseguia identificar, mas que a deixava intrigada. Ela olhou para trás, vendo Mateus fechar a porta do Opala e se dirigir ao seu próprio carro.
Quando ele entrou no sedã, o silêncio se instalou, quebrado apenas pelo ronco suave do motor e o som persistente da chuva. Ele ligou o rádio, uma música instrumental suave tomou conta do ambiente. Clara se sentiu mais à vontade agora, mas a tensão em seu corpo não diminuía.
"Você disse que precisava chegar a um compromisso importante", Mateus disse, voltando sua atenção para a estrada. "Me conte sobre ele."
Clara hesitou, mas a sinceridade no tom dele a encorajou. Ela explicou sobre a editora, a crise financeira, a reunião com o investidor que poderia salvar tudo. Mateus ouvia atentamente, sem interromper, com uma expressão pensativa no rosto.
"Entendo", ele disse ao final. "É uma luta árdua ser dono de um negócio próprio. Especialmente em um mercado tão competitivo."
"Especialmente quando se trata de preservar a cultura", Clara acrescentou, com paixão. "Livros raros, edições antigas... são fragmentos da história que precisam ser mantidos vivos."
Mateus assentiu, um lampejo de admiração em seus olhos. "Você tem paixão pelo que faz. Isso é admirável."
A conversa fluiu, surpreendentemente fácil. Eles falaram sobre Salvador, sobre a beleza da cidade, sobre os desafios da vida. Clara descobriu que Mateus era um empresário, mas relutava em entrar em detalhes, mantendo um ar de mistério que a deixava ainda mais curiosa. Ele era direto, mas nunca invasivo. Fazia perguntas perspicazes, mas sempre com um respeito que a fazia se sentir à vontade.
Quando o sedã parou em frente ao prédio onde seria seu encontro, Clara sentiu uma pontada de decepção. Aquele tempo, que começou com um contratempo, havia se tornado algo inesperado e agradável.
"Chegamos", Mateus disse, desligando o motor.
Clara se virou para ele, o coração acelerado. "Mateus, muito obrigada. De verdade. Você foi essencial hoje."
Ele sorriu, aquele sorriso que prometia muito. "O prazer foi meu, Clara Mendes. E quem sabe, talvez a chuva tenha sido um bom presságio para nós."
Ele estendeu a mão para ela novamente. Clara, sem hesitar, pegou-a. O contato foi elétrico, intenso. Ele a puxou suavemente para perto, seus olhos azuis fixos nos dela.
"Você tem um brilho nos olhos quando fala sobre seus livros", ele murmurou, a voz rouca. "Um brilho que me cativa."
O mundo ao redor deles pareceu desaparecer. A chuva, o trânsito, o compromisso iminente. Existiam apenas eles dois, naquele espaço confinado, sob o peso de uma atração que crescia a cada segundo. Mateus inclinou-se lentamente, seu rosto se aproximando do dela. Clara prendeu a respiração, o coração batendo descontroladamente em seu peito. Ela não sabia o que viria a seguir, mas sentia, com uma certeza avassaladora, que aquele encontro inesperado sob a chuva era apenas o começo de algo muito maior. E, pela primeira vez em muito tempo, Clara Mendes se sentiu genuinamente rendida.