Rendida a ele 167
Capítulo 2 — As Sombras do Passado de Mateus
por Valentina Oliveira
Capítulo 2 — As Sombras do Passado de Mateus
O silêncio no escritório de Clara era quase palpável, apenas quebrado pelo suave murmurar da chuva que voltara a cair, mais branda agora, como se a tempestade de mais cedo tivesse servido apenas para limpar o ar e as almas. Clara ainda sentia o eco daquele beijo roubado, a lembrança do toque de Mateus, a intensidade do seu olhar azul. Ela se sentou em sua cadeira, os dedos percorrendo distraidamente as lombadas desgastadas dos livros que a cercavam. A reunião com o investidor fora um sucesso, um alívio imenso que a permitiu respirar, mas a imagem de Mateus pairava em sua mente, turvando a clareza de seus pensamentos.
Quem era ele? Um homem de mistérios, com um passado envolto em névoa, mas com uma presença que a dominava de uma forma que ela não experimentava há anos. Mateus Bastos. O nome ecoava em sua mente, trazendo consigo uma mistura de fascínio e uma apreensão sutil. Havia algo em seus olhos, uma profundidade que sugeria mais do que ele revelava, uma melancolia escondida sob a fachada de confiança.
Ela pegou o celular, as mãos tremendo levemente. Deveria ligar? Mandar uma mensagem? A impulsividade do beijo a deixara sem chão, sem saber qual seria o próximo passo. Ela decidiu esperar. A intuição, aquela mesma que a guiou para aceitar a carona dele, dizia que ele voltaria.
Enquanto isso, Clara tentava se concentrar nos livros, em seu trabalho. Mas cada página, cada capa, parecia evocar a imagem de Mateus. Ela se lembrava de sua voz grave, da força em suas mãos, da forma como ele a olhou com uma intensidade que a fez se sentir a única mulher no mundo. Era perigoso se deixar levar por aquela atração, ela sabia. Mateus era um desconhecido, um homem com um aura de poder e segredo que a intimidava e a seduzia na mesma medida.
De repente, o som de passos firmes na calçada do lado de fora chamou sua atenção. E então, a batida suave na porta de vidro. Clara ergueu o olhar, o coração acelerado. A silhueta alta e imponente de Mateus pairava ali, envolto na luz fraca do entardecer. Ele usava a mesma jaqueta de couro, que agora parecia ainda mais imponente, e seus olhos azuis, sob a chuva fina, brilhavam com uma intensidade que a desarmava.
"Posso entrar?", ele perguntou, sua voz um convite irresistível.
Clara levantou-se, um sorriso nervoso brincando em seus lábios. "Claro. Entre."
Mateus entrou, fechando a porta atrás de si. O pequeno escritório pareceu encolher com a sua presença. Ele observou o ambiente, seus olhos passando pelas estantes repletas de livros antigos, pelos papéis espalhados sobre a mesa.
"Um santuário para histórias", ele comentou, seu olhar pousando em Clara com uma intensidade renovada.
"É o meu refúgio", Clara respondeu, sentindo-se subitamente corada sob seu olhar. "E a minha luta."
Ele se aproximou dela, o espaço entre eles diminuindo. Clara sentiu o cheiro de chuva e algo mais, um perfume amadeirado que a envolvia.
"Você parecia agitada quando nos encontramos", Mateus disse, sua voz um sussurro. "O que aconteceu depois?"
Clara hesitou por um momento, mas a sinceridade em seus olhos a impeliu a ser honesta. "A reunião foi um sucesso. O investidor acreditou no meu projeto. Graças a você, eu cheguei a tempo."
Um sorriso genuíno iluminou o rosto de Mateus. Ele ergueu a mão e gentilmente afastou uma mecha de cabelo que caíra sobre o rosto de Clara. O toque foi leve, mas eletrizante.
"Eu sabia que você conseguiria", ele disse, seu olhar fixo no dela. "Sempre soube que você era uma mulher de garra."
Aquelas palavras, ditas com tanta convicção, a atingiram em cheio. Ninguém, há muito tempo, a via dessa forma. Clara sentiu uma onda de emoção percorrer seu corpo, uma mistura de gratidão e um desejo profundo.
"Mateus...", ela murmurou, a voz embargada.
Ele se inclinou novamente, e desta vez, não houve hesitação. Seus lábios se encontraram em um beijo que era ao mesmo tempo suave e avassalador. A chuva lá fora parecia uma melodia distante, enquanto o mundo de Clara se resumia àquele momento, àquele toque, àquele homem. O beijo se aprofundou, carregado de uma paixão reprimida, de uma urgência que surpreendeu a ambos. As mãos de Mateus envolveram o rosto de Clara, enquanto os dedos dela se enroscavam em sua jaqueta de couro. Era um beijo que falava de desejos ocultos, de uma conexão que transcendia o encontro casual.
Quando eles se separaram, Clara estava ofegante, seu corpo tremendo. Mateus a segurava pelos ombros, seus olhos azuis brilhando com uma intensidade que a deixava sem fôlego.
"Clara...", ele sussurrou, a voz rouca. "Eu não deveria ter feito isso. Mas eu não pude evitar."
"Eu também não", Clara respondeu, sua voz um fio. "Não queria que parasse."
Mateus a olhou por um longo momento, como se estivesse buscando algo em seus olhos. Então, com um suspiro profundo, ele afastou-se um pouco.
"Há algo que você precisa saber sobre mim, Clara", ele disse, sua voz adquirindo um tom mais sério. "Eu não sou um homem fácil. Meu passado... é complicado."
Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele mistério que a atraía tanto, agora parecia tingido de perigo. "O que você quer dizer?"
"Eu tenho inimigos. Pessoas que me querem ver longe. E o mundo em que eu vivo é perigoso." Ele fez uma pausa, seu olhar distante, como se estivesse revivendo memórias dolorosas. "Eu não quero te envolver nisso. Não quero que você se machuque."
Clara o observou, a sinceridade em seu rosto era inegável. Havia dor em seus olhos, uma melancolia que ela não conseguia ignorar. Ela sentiu uma compaixão profunda por ele, mas também um medo crescente.
"Mas eu já estou envolvida, Mateus", ela disse suavemente. "Desde o momento em que você abriu o capô do meu carro. Desde o momento em que você me olhou daquela forma."
Mateus a olhou, surpreso pela sua franqueza. Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, seu polegar acariciando sua bochecha.
"Você é uma mulher forte, Clara", ele disse, a voz embargada. "Uma luz em um mundo muitas vezes sombrio. Eu não quero ser a sombra que te apaga."
"Você não é uma sombra, Mateus", Clara respondeu, sua voz firme, apesar do tremor em seu corpo. "Você é... uma tempestade. E eu estou disposta a me deixar levar."
Mateus a olhou por um longo momento, seus olhos azuis buscando os dela, como se estivesse pesando cada palavra. Então, um sorriso melancólico brincou em seus lábios.
"Você é corajosa", ele disse. "Mais corajosa do que eu imaginava."
Ele se afastou novamente, o peso da conversa pairando entre eles. Clara sentiu o momento de intimidade se dissipar, substituído pela incerteza.
"Preciso ir", Mateus disse, sua voz soando distante. "Mas eu voltarei, Clara. Se você me permitir."
Clara assentiu, incapaz de falar. Ele se virou e caminhou até a porta. Antes de sair, ele parou e olhou para trás, um olhar de intensidade que a fez prender a respiração.
"Não se esqueça do que eu disse", ele advertiu, sua voz um aviso. "Meu mundo não é o seu."
E então, ele saiu, deixando Clara sozinha em seu santuário de livros, o cheiro de chuva e de mistério impregnando o ar. Ela sentiu uma mistura de euforia e apreensão. Aquele homem era perigoso, sim. Mas ele também era real, intenso, e a fazia sentir coisas que ela pensava ter esquecido para sempre. As sombras do passado de Mateus pairavam sobre eles, mas Clara estava disposta a desvendar cada uma delas.
Enquanto Mateus se dirigia ao seu carro, o peso do passado parecia mais denso. Ele sabia que Clara era diferente. Havia nela uma pureza, uma força que o atraía de uma forma avassaladora. Mas ele também sabia que a envolver em sua vida seria colocá-la em perigo. Os acordos que ele fez, os inimigos que colecionou, eram um legado sombrio que ele não desejava compartilhar com ninguém, especialmente com alguém tão especial quanto Clara.
Ao entrar em seu sedã, ele ligou o motor, o ronco potente ecoando na rua agora silenciosa. Ele pegou o volante com firmeza, os nós dos dedos brancos. Ele não conseguia parar de pensar no beijo, na forma como Clara se entregou, na coragem em seus olhos. Ele havia avisado, sim. Mas agora, a dúvida o corroía. Teria ele cometido um erro ao se aproximar dela?
Mateus dirigiu pelas ruas de Salvador, a paisagem urbana passando por ele como borrões de luzes. Ele estava acostumado a lidar com o perigo, com a traição, com a escuridão. Mas Clara era um raio de sol em seu mundo sombrio. Ele sabia que precisava ser cauteloso, que precisava protegê-la.
Ele parou em um local isolado, com vista para a Baía de Todos os Santos. A lua cheia iluminava a água, criando um espetáculo de luzes prateadas. Mateus saiu do carro e caminhou até a beirada, sentindo a brisa salgada em seu rosto. Ele fechou os olhos, revivendo a conversa com Clara, a intimidade do beijo.
"Eu não quero te machucar, Clara", ele murmurou para si mesmo, a voz carregada de dor. "Mas a escuridão sempre encontra um caminho."
Ele sabia que precisava se afastar. Mas a ideia de deixar Clara para trás era insuportável. Ele estava preso em um dilema cruel, dividido entre o desejo de protegê-la e a atração irresistível que sentia por ela.
De repente, um barulho chamou sua atenção. Uma figura emergiu das sombras, aproximando-se dele com passos calculados. Era um homem, envolto em um casaco escuro, o rosto obscurecido pela penumbra.
"Mateus", a voz era fria, carregada de ameaças. "Você anda se distraindo demais."
Mateus se virou, a postura tensa. Ele reconheceu o homem, um de seus antigos associados, alguém que ele pensava ter deixado para trás.
"O que você quer, Marco?", Mateus perguntou, sua voz firme, apesar da tensão.
Marco riu, um som desagradável que quebrou o silêncio da noite. "Você sabe muito bem o que eu quero. E eu sei que você não vai me decepcionar."
Ele se aproximou, seus olhos fixos em Mateus, um brilho perigoso neles. "Eu sei sobre a moça. A bibliotecária. Ela é uma distração perigosa, Mateus. E nós não toleramos distrações."
Mateus sentiu um frio percorrer sua espinha. Marco sabia sobre Clara. Aquilo era mais sério do que ele imaginava.
"Ela não tem nada a ver com isso", Mateus disse, sua voz carregada de raiva contida.
"Oh, ela tem agora", Marco retrucou, um sorriso cruel em seu rosto. "Se você não fizer o que eu digo, a bibliotecária pode ter problemas. Problemas sérios."
Mateus cerrou os punhos, a fúria crescendo dentro dele. Ele sabia que estava em uma armadilha. A sombra de seu passado havia alcançado Clara.
"O que você quer?", ele perguntou, resignado.
Marco sorriu, satisfeito. "O que sempre quis. E você vai me entregar."
Mateus olhou para o horizonte, a cidade iluminada parecendo distante e indiferente. Ele sabia que precisava proteger Clara, custasse o que custasse. Mas a batalha estava apenas começando, e as sombras de seu passado ameaçavam engolir a luz que Clara havia trazido para sua vida. A rendição que ele sentiu ao beijá-la agora se transformava em uma determinação feroz de lutar. Mas a luta seria contra fantasmas antigos, contra um inimigo que usava Clara como moeda de troca.