Rendida a ele 167
Capítulo 22 — O Espelho Quebrado do Passado
por Valentina Oliveira
Capítulo 22 — O Espelho Quebrado do Passado
O cheiro de café fresco e pão torrado pairava no ar da cozinha, um consolo familiar que contrastava com a agitação dentro de Helena. Dona Aurora, imperturbável em sua rotina matinal, preparava o desjejum com a precisão de quem há anos domina a arte de nutrir corpos e almas. Mas hoje, a presença de Helena parecia pesar no ar, um silêncio carregado que Dona Aurora sentia em cada fibra do seu ser.
“Você vai sair hoje, Helena?”, perguntou Dona Aurora, enquanto colocava uma xícara de café fumegante na frente da neta.
Helena assentiu, os olhos fixos na superfície espelhada do líquido escuro. “Preciso resolver algumas coisas. Coisas… importantes.”
“Com ele?”, a pergunta de Dona Aurora foi suave, mas direta. Ela não precisava de mais pistas. A tensão de Helena, a aura de mistério que a envolvia desde a noite anterior, apontavam inequivocamente para Gael.
Helena hesitou, engolindo em seco. A ideia de confrontar Gael a assustava e, ao mesmo tempo, a impulsionava. Ela se sentia como um animal encurralado, com poucas opções. “Sim, tia. Com ele.”
Dona Aurora suspirou, um som quase inaudível. Ela observou a expressão de Helena, a mistura de medo e uma determinação recém-descoberta que começava a despontar. Sabia que o caminho à frente seria árduo, repleto de armadilhas emocionais e verdades dolorosas. Gael era um enigma, um homem com um passado sombrio e um presente complicado. E Helena, com seu coração ferido, estava se arriscando em território perigoso.
“Helena, minha querida”, começou Dona Aurora, a voz embargada pela preocupação. “Eu confio em você. Sempre confiei. Mas lembre-se de quem você é. Não se deixe consumir pelas sombras dele. Seu coração é forte, mas também é sensível. Não o sacrifique em um jogo que você não entende totalmente.”
Helena ergueu os olhos, encontrando o olhar sincero de sua tia. As palavras de Dona Aurora eram um lembrete gentil, um farol de sabedoria em meio à sua confusão. “Eu sei, tia. Mas… eu preciso entender. Preciso saber por quê. Por que ele… por que tudo isso.”
O café da manhã foi consumido em um silêncio pontuado por olhares preocupados e palavras cautelosas. Helena sentia-se dividida. Parte dela queria fugir, se esconder, esquecer a noite que se tornara um furacão em sua vida. Outra parte, movida por uma força desconhecida, a empurrava para frente, para a verdade, para a confrontação.
Após o café, Helena se arrumou com cuidado. Escolheu um vestido simples, mas elegante, que transmitia uma força discreta. Precisava parecer confiante, mesmo que por dentro estivesse tremendo. O espelho refletiu uma imagem que ela mal reconhecia: uma mulher marcada pela paixão, mas com um brilho de determinação nos olhos.
Ao sair de casa, o sol da manhã a atingiu com força, como um lembrete de que o mundo continuava a girar, indiferente à sua crise pessoal. O caminho até o escritório de Gael parecia uma eternidade. Cada rua percorrida era um passo a mais em direção ao desconhecido. Ela revivia mentalmente cada momento da noite anterior, tentando decifrar os olhares de Gael, as nuances em sua voz, a intensidade de seu toque.
Ao chegar ao imponente edifício onde Gael administrava seu império, sentiu um frio na espinha. A recepcionista a olhou com surpresa, mas anunciara sua chegada com profissionalismo. Em poucos minutos, Helena estava em frente à porta do escritório dele, o coração batendo descompassado contra as costelas.
Respirou fundo e bateu.
A porta se abriu, revelando Gael. Ele estava impecável em um terno escuro, a postura ereta, o olhar intenso. A surpresa em seus olhos era palpável, mas logo foi substituída por uma máscara de controle.
“Helena”, disse ele, a voz grave, desprovida de qualquer emoção aparente. “Não esperava vê-la aqui tão cedo.”
Ela entrou no escritório, sentindo o peso do olhar dele sobre si. O ambiente era luxuoso, minimalista, refletindo a personalidade fria e calculista que ela sempre associava a ele. Mas agora, após a noite que passaram juntos, essa imagem parecia incompleta, uma fachada que escondia algo mais profundo.
“Precisamos conversar, Gael”, disse Helena, sua voz surpreendentemente firme.
Gael fechou a porta, o som ecoando no silêncio tenso. Ele a observou por um momento, os olhos percorrendo cada detalhe de seu semblante. Havia uma curiosidade ali, uma tensão contida que ela também sentia.
“Conversar sobre o quê, Helena?”, ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro, mas carregada de um significado que ela não conseguia decifrar. “Sobre a noite passada?”
Ela assentiu, incapaz de desviar o olhar. “Sim. Sobre a noite passada. E sobre o que ela significa.”
Gael se aproximou lentamente, cada passo carregado de uma eletricidade palpável. Ele parou a poucos metros dela, o olhar fixo no dela. “Significa… o que você acha que significa, Helena.”
A ambiguidade em sua resposta a frustrou. “Eu não sei o que pensar, Gael! Você me beija, você… você me quer de um jeito que me deixa sem fôlego, e depois desaparece! Como você espera que eu reaja?”
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Gael, um sorriso que não alcançou seus olhos. “Eu não sou homem de meias palavras, Helena. E você sabe disso. A noite passada… foi intensa. Foi… real.”
“Real? O que é real para você, Gael? Você me atormenta há meses, me manipula, me faz acreditar que você é meu inimigo, e então… age como se nada tivesse acontecido?” A voz de Helena começou a tremer, a máscara de firmeza cedendo à emoção.
Gael deu um passo à frente, o espaço entre eles diminuindo. “Você acha que eu te atormentei? Você acha que eu te manipulei?” Ele a encarou, e pela primeira vez, Helena viu algo além do controle em seus olhos. Era dor. Uma dor profunda e antiga. “Você não faz ideia do que você significa para mim, Helena. Do quanto eu lutei contra isso.”
“Lutou? Você lutou contra o quê, Gael? Contra um sentimento que você nem sequer me permitiu expressar?”
“Eu lutei contra o meu passado!”, a voz de Gael subiu de tom, carregada de uma angústia reprimida. “Eu lutei contra a possibilidade de te machucar. De te perder. Eu te afastei porque eu… eu tenho fantasmas, Helena. Fantasmas que me assombram e que eu temi que pudessem te alcançar.”
Helena o encarou, chocada pela vulnerabilidade repentina dele. “Fantasmas? Que fantasmas?”
Gael desviou o olhar, o semblante endurecendo novamente. “Não importa. O que importa é o que aconteceu entre nós. E o que pode acontecer.” Ele deu mais um passo, agora tão perto que ela podia sentir o calor que emanava dele. “Você se rendeu, Helena. E eu… eu não sou um homem que pede desculpas por tomar o que deseja.”
O tom dele era possessivo, perigoso. Mas havia também uma sinceridade crua em suas palavras que a desarmava. Ela se sentiu presa entre o medo e a atração, entre a razão e o desejo. A imagem do espelho quebrado do passado de Gael, cheio de dor e segredos, começou a se formar em sua mente.
“E se eu não quiser ser tomada, Gael?”, ela sussurrou, a voz trêmula.
Gael a segurou pelos braços, a força em seus dedos firme, mas não dolorosa. Seus olhos escuros a perfuravam, buscando algo em sua alma. “Você já se rendeu, Helena. Ontem à noite, você se rendeu a mim. E eu… eu não vou te deixar ir.”
O toque dele era um choque elétrico, reacendendo a chama que ele mesmo acendera. Helena sentiu seu corpo responder, um arrepio percorrendo sua espinha. Ela estava presa, não apenas por suas mãos, mas pelo turbilhão de emoções que ele despertava nela.
“Você não pode me prender, Gael”, ela disse, tentando soar mais forte do que se sentia.
“Eu não quero te prender, Helena”, ele respondeu, a voz rouca. “Eu quero te amar. Mas se for preciso te segurar para que você não fuja de mim… eu o farei.”
A intensidade em seu olhar era avassaladora. Helena se viu perdida em seus olhos, sentindo a força da atração que os unia. O espelho quebrado do passado de Gael se refletia em seu próprio coração, e ela percebeu que, talvez, a batalha dele não fosse apenas contra seus fantasmas, mas contra um amor que ele não se permitia sentir. E ela, a borboleta ferida, agora se via atraída pela chama, arriscando-se a se queimar, mas incapaz de se afastar.