Rendida a ele 167
Capítulo 24 — Os Sussurros da Dúvida
por Valentina Oliveira
Capítulo 24 — Os Sussurros da Dúvida
O dia seguinte amanheceu com uma beleza traiçoeira, pintando o céu de tons pastel que pareciam zombar da turbulência interna de Helena. O café da manhã com Dona Aurora foi marcado por um silêncio diferente, não mais carregado de tensão, mas de uma expectativa contida. Helena sorria mais, a leveza em seus olhos contrastando com a preocupação silenciosa da tia.
“Ele te ligou?”, Dona Aurora perguntou, enquanto servia o café.
Helena assentiu, um rubor subindo por suas bochechas. “Sim, tia. Ontem à noite. E hoje de manhã. Ele… ele quer me ver de novo.”
Dona Aurora observou a neta com um olhar perspicaz. Via a felicidade em seus olhos, mas também uma incerteza velada. “E você quer vê-lo?”
“Eu… eu não sei, tia. É tudo tão… rápido. E confuso. Eu o amo, tia. Eu acho que o amo.” A confissão saiu em um sussurro, como se ela temesse que as palavras pudessem se dissipar no ar. “Mas ele tem tantas feridas. E eu tenho as minhas. Será que podemos realmente construir algo juntos?”
Dona Aurora se aproximou, pousando uma mão em seu ombro. “O amor é corajoso, Helena. E forte. Mas também precisa de tempo, de paciência e de muita honestidade. Não se apresse. Ouça seu coração, mas também ouça a sua razão. E lembre-se de que você merece ser feliz.”
As palavras da tia foram um bálsamo, mas a semente da dúvida já havia sido plantada. A intensidade do romance com Gael era inegável, avassaladora. Mas, por trás da paixão ardente, escondiam-se as sombras de um passado que poderia ser perigoso.
Mais tarde naquele dia, o telefone tocou. Era Gael. Sua voz, agora familiar e reconfortante, a convidou para jantar naquela noite. Um jantar a dois, longe dos olhares curiosos, um momento para se conectarem ainda mais. Helena aceitou, sentindo uma mistura de ansiedade e excitação.
Enquanto se arrumava para o encontro, Helena se viu olhando no espelho, questionando suas próprias decisões. Seria ela forte o suficiente para lidar com os fantasmas de Gael? E ele, seria ele capaz de superar o legado sombrio de seu pai e realmente amá-la?
O restaurante escolhido por Gael era elegante e discreto, um lugar onde a privacidade era garantida. Ele já a esperava na mesa, impecável como sempre, mas com um sorriso mais genuíno no rosto.
“Você está linda, Helena”, ele disse, levantando-se para recebê-la.
Helena sentiu um arrepio agradável. “Obrigada, Gael. Você também.”
O jantar começou com conversas leves, mas logo a profundidade de seus sentimentos tomou conta. Gael falou sobre seu desejo de construir um futuro com ela, de um futuro onde o amor não fosse visto como fraqueza, mas como a maior força. Helena, por sua vez, expressou suas preocupações, a incerteza que a consumia.
“Gael, eu tenho medo”, ela confessou. “Medo de me entregar completamente e descobrir que você ainda está preso ao passado. Medo de que a sombra do seu pai te impeça de realmente me amar.”
Ele a encarou, os olhos escuros cheios de uma sinceridade que a acalmou. “Helena, eu sei que tenho meus demônios. E sei que meu pai me deixou cicatrizes profundas. Mas você… você é a luz que tem me ajudado a vencê-los. Eu nunca senti algo assim por ninguém. E não vou deixar que o passado me roube isso.”
Ele estendeu a mão sobre a mesa, e Helena a segurou. O toque era firme, reconfortante. Mas, mesmo ali, naquele momento de aparente paz, uma sombra começou a se formar nos pensamentos de Helena. Uma lembrança fugaz, um detalhe que ela havia ignorado na noite em que se renderam. Uma conversa rápida com um dos funcionários de Gael, algo sobre um acordo, um investimento… Detalhes que, na época, não pareceram importantes.
“Gael”, ela começou, hesitando. “Aquela noite… quando você me beijou pela primeira vez… você mencionou algo sobre um acordo. Algo sobre… investimento?”
O sorriso de Gael vacilou por um instante. Seus olhos, antes cheios de ternura, agora pareciam guardar um segredo. “Era uma conversa de negócios, Helena. Nada que te diga respeito.”
A resposta dele foi evasiva, fria. Um alarme soou na mente de Helena. Era a mesma frieza que ela conhecia, a mesma armadura que ela pensou ter transpassado.
“Mas você estava me beijando naquele momento”, Helena insistiu, a voz embargada pela desconfiança que começava a surgir. “Você estava me dizendo coisas… coisas que pareciam tão reais.”
Gael desviou o olhar. “Helena, eu te amo. E isso é a única coisa que importa agora.”
Mas as palavras dele soaram vazias. A dúvida, como uma serpente, começou a se enrolar em torno de seu coração. Ela se lembrou das palavras de sua tia: “Ouça sua razão.” E a razão agora gritava que algo estava errado.
“Gael, por favor, olhe para mim”, Helena implorou. “Você me disse que lutou contra seus sentimentos por mim. Que se afastou por medo de me machucar. Mas se você me amava tanto, por que fez um acordo logo depois de… de tudo?”
Ele suspirou, o olhar perdido. “Helena, a vida é complicada. Nem tudo é preto no branco. Eu te amo. Isso é a verdade. Mas eu também tenho responsabilidades. Negócios que precisam ser feitos.”
“Negócios que envolvem… o quê, Gael? Você se aproximou de mim por causa de um acordo? Você usou seus sentimentos por mim para fechar um negócio?” A voz de Helena tremia de raiva e mágoa.
Os olhos de Gael se arregalaram, a surpresa misturada com uma ponta de pânico. “Não! Helena, nunca! O acordo foi antes. Eu estava… eu estava tentando me afastar de tudo que me prendia a um passado que eu não queria. E então você apareceu.”
“Você está mentindo, Gael”, ela disse, a voz embargada pelas lágrimas. “Você ainda está escondendo algo. Eu me rendi a você, Gael. Eu me abri para você. E agora você me diz que tudo isso pode ter sido parte de um plano?”
Ela se levantou abruptamente, a cadeira arrastando ruidosamente no chão. As pessoas nas mesas vizinhas se viraram para olhá-la.
“Helena, espere!”, Gael chamou, levantando-se também.
“Não!”, ela gritou, a voz falhando. “Eu não quero mais ouvir suas mentiras. Eu pensei que você fosse diferente. Pensei que o que tínhamos era real. Mas agora… agora eu não sei mais em que acreditar.”
Ela saiu do restaurante apressadamente, as lágrimas correndo livremente pelo rosto. O brilho do futuro que ela vislumbrara com Gael havia se apagado, substituído pela escuridão da dúvida. Ela se sentia traída, enganada, novamente como a borboleta ferida, agora com as asas rasgadas pela desconfiança.
Enquanto corria pela rua, ignorando os chamados de Gael, Helena se perguntava se ela havia sido tola em acreditar que ele poderia mudar. Seus fantasmas, afinal, eram mais fortes do que ela imaginava. E agora, ela estava sozinha novamente, com o coração partido e a alma em pedaços, questionando se o amor que sentia por Gael era real ou apenas mais uma ilusão perigosa. Os sussurros da dúvida haviam se tornado um grito ensurdecedor, e Helena sabia que, se Gael não lhe desse respostas convincentes, ela teria que encontrar o caminho de volta para si mesma, sozinha.