Rendida a ele 167
Capítulo 3 — A Intrusão no Santuário de Clara
por Valentina Oliveira
Capítulo 3 — A Intrusão no Santuário de Clara
O sol da manhã banhava Salvador em tons dourados, mas para Clara, o dia começou com um pressentimento sombrio. O ar na sua livraria, o seu santuário, parecia mais denso, carregado de uma tensão invisível. Ela tentava se concentrar nos livros que chegavam, nas encomendas, mas a imagem de Mateus, a conversa sobre o perigo que o cercava, pairava como uma nuvem escura em sua mente. Ela se sentia dividida entre a atração avassaladora que sentia por ele e o medo prudente que o aviso dele instigara.
De repente, o sino da porta tilintou, um som familiar que, naquele dia, soou estridente. Clara ergueu o olhar, esperando ver um cliente em busca de um tesouro literário. Mas a figura que entrou não trazia a serenidade de um leitor. Dois homens, ambos corpulentos e com olhares duros, adentraram a loja. Vestiam roupas escuras, e a forma como se moviam, com uma arrogância silenciosa, denunciou que não eram ali para discutir literatura.
O coração de Clara disparou. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Um dos homens se aproximou do balcão, seus olhos escaneando o ambiente com uma frieza calculista. Ele não parecia interessado nos livros, mas em algo mais.
"Procuramos por Mateus Bastos", o homem disse, sua voz grave e sem emoção, quebrando o silêncio reverente da livraria.
Clara engoliu em seco, tentando manter a compostura. O nome de Mateus, dito por aquelas pessoas, soava como uma ameaça. "Eu... eu não conheço ninguém com esse nome."
O homem sorriu, um sorriso sem alegria, que não alcançou seus olhos. "Não minta para nós, senhorita. Sabemos que ele esteve aqui. Vimos o carro dele."
Clara sentiu o pânico subir em sua garganta. Eles sabiam. Eles estavam ali por causa de Mateus. A advertência dele se tornara realidade, e mais rápido do que ela imaginava.
"Eu... eu sou apenas a dona desta livraria", ela gaguejou, sentindo-se exposta e vulnerável. "Eu não tenho nada a ver com o que quer que vocês estejam procurando."
O outro homem se aproximou, seus passos pesados no assoalho de madeira. Ele olhou para as estantes, para os livros, como se fossem meros objetos sem valor.
"Mateus está envolvido em negócios sujos", ele disse, sua voz baixa e ameaçadora. "E quem se associa a ele, se suja também."
Clara apertou as mãos em punhos, a adrenalina começando a substituir o medo. Ela não era uma vítima indefesa. Ela era uma lutadora, e aquele era o seu espaço.
"Eu não me associo a ninguém", ela respondeu, sua voz ganhando firmeza. "Eu vendo livros. Essa é a minha vida. E eu exijo que vocês saiam da minha loja."
O primeiro homem riu, um som desagradável. Ele se inclinou sobre o balcão, seus olhos fixos nos dela. "Não estamos aqui para pedir licença, senhorita. Estamos aqui para coletar o que nos é devido. E se Mateus não aparecer, talvez você possa nos dar uma garantia."
A insinuação era clara e aterradora. Clara sentiu o sangue gelar em suas veias. Aqueles homens não eram apenas capangas; eles eram perigosos, e estavam dispostos a tudo.
"Eu não tenho nada para dar a vocês", Clara disse, tentando manter a voz firme. "E eu vou chamar a polícia."
O segundo homem deu um passo à frente, o olhar duro. "Tente. Você acha que a polícia se importa com o que acontece com pessoas como nós? Ou com você?"
Eles começaram a revirar a loja, derrubando livros das prateleiras, abrindo gavetas com violência. Clara observava, impotente, seu santuário sendo profanado. As lágrimas brotaram em seus olhos, mas ela se recusou a chorar. Ela não daria a eles a satisfação de vê-la desmoronar.
"O que vocês estão fazendo?", ela gritou, a voz trêmula de raiva. "Parem com isso!"
O primeiro homem pegou um antigo exemplar de Machado de Assis, um livro que Clara amava. Ele o segurou pelo meio, como se fosse insignificante.
"Talvez você nos diga onde ele está se suas preciosidades começarem a desaparecer", ele disse, com um sorriso cruel.
Clara sentiu um nó na garganta. Ela não podia deixar que destruíssem seus livros. Aqueles livros eram sua vida, sua história. Em um impulso, ela pegou um pesado castiçal de bronze da mesa e avançou em direção ao homem.
"Saia da minha loja! Agora!"
O homem a olhou com surpresa, mas também com um certo divertimento. Ele largou o livro, que caiu no chão com um baque surdo.
"Calma, menina", ele disse, levantando as mãos em um gesto de falsa rendição. "Não queremos te machucar."
Mas Clara não acreditou nele. Ela sentiu a raiva consumir o medo. Ela estava defendendo seu espaço, sua paixão.
De repente, a porta da loja se abriu com violência, e Mateus entrou, sua figura imponente preenchendo a entrada. Seus olhos azuis faiscaram de fúria ao ver Clara cercada pelos dois homens, os livros espalhados pelo chão.
"Vocês ousaram?", ele rosnou, sua voz um trovão prestes a desabar.
Os dois homens se viraram, surpresos com a chegada dele. O sorriso sumiu de seus rostos, substituído por uma tensão palpável.
"Mateus Bastos", o primeiro homem disse, sua voz agora mais contida. "Finalmente te encontramos."
"E você, moleque, vai pagar pelo que fez", o segundo homem acrescentou, dando um passo à frente.
Mateus se colocou na frente de Clara, protegendo-a com seu corpo. Ele olhou para os homens com um ódio frio e calculista.
"Vocês invadiram o santuário de uma mulher inocente", ele disse, sua voz baixa e perigosa. "Isso foi um erro grave."
"Nós sabemos o que queremos", o primeiro homem disse. "E sabemos que você tem. Entregue o que é nosso, e talvez a bibliotecária saia ilesa."
Mateus riu, um som seco e sem humor. "Vocês pensam que me assustam? Eu lido com gente como vocês todos os dias. Mas vocês cruzaram uma linha."
Ele olhou para Clara, que estava atrás dele, o rosto pálido, mas os olhos cheios de uma determinação feroz. Ele sentiu um misto de orgulho e preocupação por ela.
"Eu não vou deixar que toquem nela", Mateus disse, sua voz firme e inabalável.
A tensão no ar era palpável. Os dois homens avançaram, mas antes que pudessem chegar a Mateus, ele agiu com uma velocidade surpreendente. Em um movimento fluido, ele desarmou o primeiro homem, fazendo-o cair no chão com um gemido de dor. O segundo homem tentou atacá-lo, mas Mateus o interceptou, um soco certeiro atingindo seu maxilar, derrubando-o também.
Em poucos segundos, os dois homens estavam caídos no chão, derrotados. Mateus ofegava levemente, o corpo tenso, pronto para qualquer nova ameaça. Ele se virou para Clara, seus olhos azuis fixos nos dela.
"Você está bem?", ele perguntou, a voz ainda carregada de raiva.
Clara assentiu, ainda tremendo, mas com um brilho de admiração em seus olhos. Ela viu a força dele, a coragem em defendê-la.
"Eu... eu estou", ela respondeu, sua voz um sussurro. "Obrigada, Mateus."
Ele se aproximou dela, e desta vez, o abraço foi de alívio e proteção. Clara se aninhou em seu peito, sentindo o calor e a força dele. O cheiro de couro e de chuva a envolvia, e por um momento, ela se sentiu segura.
"Eu avisei que meu mundo era perigoso", Mateus sussurrou em seu ouvido, sua voz rouca de emoção. "Eu não queria que você se envolvesse nisso."
"Mas você veio", Clara disse, levantando a cabeça para olhá-lo. "Você me protegeu."
Mateus a olhou, a intensidade em seus olhos azuis a hipnotizando. Havia dor ali, sim, mas também um amor nascente, uma promessa silenciosa.
"Eu não podia permitir que eles te machucassem", ele disse, sua voz embargada. "Você é a única luz que entrou na minha vida em muito tempo."
Ele a beijou, um beijo profundo e apaixonado, que selava não apenas o desejo, mas também a proteção. Clara se rendeu a ele, sentindo a força e a segurança em seus braços.
Enquanto isso, os dois homens derrotados se levantavam com dificuldade. O primeiro, com o braço provavelmente quebrado, xingava baixinho. O segundo, com o rosto inchado, olhava para Mateus com ódio puro.
"Você vai se arrepender disso, Bastos", ele ameaçou, antes de se virar e sair mancando da livraria, seguido pelo seu comparsa.
Quando a porta se fechou, um silêncio pesado se instalou. Clara e Mateus se separaram, mas a conexão entre eles era mais forte do que nunca. A livraria estava em desordem, os livros espalhados, mas naquele momento, Clara não se importava. Ela tinha Mateus. E ele a tinha protegido.
"Eu preciso ir", Mateus disse, a voz tensa. "Eles sabem onde me encontrar. E agora, sabem onde te encontrar também."
Clara sentiu um aperto no peito. O perigo real havia invadido seu santuário. "Mas você não pode ir. E se eles voltarem?"
"Eu vou garantir que eles não voltem", Mateus disse, seus olhos azuis fixos nos dela com determinação. "Mas você precisa ser cuidadosa, Clara. Muito cuidadosa."
Ele a abraçou novamente, com força. "Eu não posso te levar para o meu mundo. Mas eu prometo que vou proteger você dele."
Clara assentiu, o coração apertado. Ela havia se rendido a Mateus, mas agora entendia o preço. As sombras do passado dele haviam se estendido até ela, e a batalha pela proteção de sua luz estava apenas começando. A livraria, seu santuário, agora era também um campo de batalha, e o amor que começava a florescer entre ela e Mateus estava destinado a enfrentar as mais sombrias adversidades.