Rendida a ele 167
Capítulo 7 — O Sussurro do Perigo e a Dúvida no Olhar
por Valentina Oliveira
Capítulo 7 — O Sussurro do Perigo e a Dúvida no Olhar
A manhã nasceu cinzenta e melancólica, o céu ainda carregado de nuvens que pareciam prenunciar mais chuva. A tempestade da noite se acalmara, mas deixara para trás um rastro de inquietação e uma atmosfera pesada. Clara acordou sentindo o peso da noite anterior ainda sobre seus ombros, a memória vívida do confronto e das palavras de Mateus ecoando em sua mente.
Ela desceu as escadas rangentes do casarão com cautela, o coração ainda um pouco acelerado ao lembrar-se dos vultos que tentaram invadir seu santuário. A presença de Mateus no dia anterior, sua força e sua promessa de proteção, trouxeram um certo alívio, mas a menção de seu passado sombrio e de seus inimigos pairava como uma ameaça latente.
Mateus já estava na sala de estar, impecavelmente vestido, mas com uma expressão de profunda preocupação gravada em seu rosto. Ele a observava quando ela entrou, um misto de alívio e uma inquietação que não diminuíra com o nascer do sol.
“Bom dia”, ele disse, a voz mais contida do que na noite anterior, como se um véu de reserva tivesse retornado.
“Bom dia”, Clara respondeu, sentindo a familiar tensão entre eles. A intimidade forjada pela crise da noite anterior parecia ter se dissipado com a luz do dia.
“Você dormiu bem?”, ele perguntou, e a pergunta, embora rotineira, continha uma nota de incerteza.
“Sim, eu dormi. E você?”, ela retrucou, desviando o olhar para a janela, onde as gotas de chuva insistiam em cair.
“Não muito”, ele admitiu, e a honestidade em sua voz a surpreendeu. “Eu fiquei vigiando.”
Clara sentiu um arrepio. Ele realmente a levava a sério. Ele a protegia. Mas a pergunta que não saía de sua cabeça era: por quê? Por que ele se importava tanto com ela, uma desconhecida até poucas semanas atrás? E quem eram essas pessoas que o perseguiam e agora pareciam ter descoberto seu paradeiro?
“Você… você sabe quem eram aqueles homens?”, Clara perguntou, reunindo coragem para confrontar o que a afligia.
Mateus hesitou. Seus olhos escuros a encontraram, e por um instante, ela viu uma batalha interna refletida neles. “Sim. E eu sei que eles voltarão.”
A frieza em sua voz era cortante. Clara sentiu um aperto no peito. A imagem dos vultos tentando invadir sua casa voltou com força total. Ela não estava segura. E a proteção de Mateus, embora reconfortante, também a ligava a um mundo de perigos que ela não compreendia.
“Mas por que eles viriam atrás de mim?”, ela insistiu, a voz embargada. “Eu sou apenas uma artista, Mateus. Eu não tenho nada a ver com o seu passado.”
Ele deu um passo em direção a ela, a expressão suavizando um pouco. “Eles não vêm atrás de você, Clara. Eles vêm atrás de mim. Você é… um meio para chegar até mim. Uma maneira de me atingir onde dói mais.”
A confissão era cruel, mas a forma como ele a disse, com a dor transparecendo em cada palavra, quebrava um pouco a imagem de homem frio e calculista que ela às vezes construía. Ele se sentia culpado.
“E o que eu devo fazer?”, Clara perguntou, a voz quase um sussurro. A ideia de ser usada como isca, mesmo que sem saber, a deixava enjoada.
“Ficar perto de mim. Não se afastar. Eu não vou deixar que ninguém te machuque”, ele disse, e havia uma promessa inabalável em sua voz. Ele estendeu a mão, não para tocá-la, mas como um gesto de convite, de força.
Clara observou a mão dele. Parecia forte, capaz de enfrentar qualquer coisa. Mas também parecia marcada por batalhas, por um sofrimento que ela mal podia imaginar. A dúvida começou a se instalar em seu olhar. Ela confiava em sua proteção, sim, mas o que ela sabia sobre ele realmente? O que ele escondia em seu passado? E se essa proteção fosse apenas uma forma de controlar a situação, de mantê-la perto para seus próprios fins?
“Mateus… eu preciso entender. Eu preciso saber quem você é. O que você fez”, ela disse, a voz firme, apesar do medo.
Ele desviou o olhar, um gesto que ela já havia visto antes, indicando que ele estava se fechando. “Não é algo que você precise saber agora, Clara.”
“Mas é algo que me afeta diretamente!”, ela exclamou, a frustração tomando conta. “Eu estou em perigo por sua causa. E eu não posso viver com medo constante, sem saber de nada.”
Um suspiro pesado escapou de seus lábios. Ele a encarou novamente, e a intensidade em seus olhos era quase insuportável. “Eu era… diferente, Clara. Eu cometi erros. Erros graves. E as pessoas que eu prejudiquei… elas não esqueceram. Elas estão voltando para se vingar.”
A confissão era curta, direta, mas carregada de um peso imenso. Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela nunca imaginara que a profundidade do passado dele fosse tão sombria. Ele era um homem com um passado violento, com inimigos que o caçavam.
“E você acha que se esconder aqui, comigo, vai te proteger?”, ela perguntou, o tom defensivo.
“Não se trata de me proteger, Clara”, ele respondeu, a voz firme. “Trata-se de proteger você. E de enfrentar o que está vindo.” Ele se aproximou um passo, o olhar fixo no dela. “Eu não vou deixar que meu passado destrua o seu futuro.”
As palavras dele eram um bálsamo e um veneno ao mesmo tempo. A sinceridade em seu olhar, a dor em sua voz, a promessa de proteção… tudo isso a atraía. Mas a dúvida persistia. Seria ele capaz de protegê-la? Ou seria ele o próprio perigo, com o qual ela estava, inadvertidamente, se envolvendo?
Ela deu um passo para trás, sentindo a necessidade de respirar, de processar tudo aquilo. “Eu preciso de um tempo para pensar, Mateus.”
Ele assentiu lentamente, a expressão tensa. “Eu entendo. Mas não demore. Eles não vão esperar.”
Clara se afastou, sentindo o peso da responsabilidade e do medo. A imagem de Mateus, o homem misterioso e protetor, agora estava tingida pelas sombras de seu passado. Ela estava se sentindo rendida a ele, não apenas pelo que ele representava em termos de proteção, mas pela complexidade de sua alma, pela dor que ele carregava. No entanto, essa rendição vinha acompanhada de uma incerteza assustadora. Estaria ela se entregando a um herói, ou a um perigo disfarçado de salvador? A chuva continuava a cair lá fora, como um prenúncio de um destino incerto.