Rendida a ele 167
Capítulo 9 — As Cicatrizes do Passado e a Revelação Dolorosa
por Valentina Oliveira
Capítulo 9 — As Cicatrizes do Passado e a Revelação Dolorosa
O ar no casarão estava pesado, carregado pela descoberta de Clara. A imagem daquela sombra parada na janela, observando-a com uma intenção sinistra, a assombrava. Ela sabia que não poderia mais ignorar o perigo, nem a complexidade do homem que a protegia. Mateus retornou horas depois, sua chegada silenciosa, mas seu semblante denotava um cansaço profundo, como se tivesse travado uma batalha invisível.
Ele a encontrou na sala de estar, sentada em um canto, as mãos entrelaçadas, o olhar perdido em algum ponto distante. A tensão em seu corpo era palpável.
“Clara?”, ele chamou suavemente, e ela se assustou com o som de sua voz.
Ela ergueu o olhar para ele, e a expressão em seu rosto não deixou espaço para disfarces. “Eu vi alguém, Mateus. Na janela. Alguém estava me observando.”
Os olhos de Mateus se arregalaram por um instante, um reflexo de preocupação genuína que não passou despercebido por Clara. Ele se aproximou, seus movimentos rápidos e decididos.
“Você tem certeza?”, ele perguntou, a voz baixa, mas firme.
“Sim. Não foi um vulto desta vez. Foi uma figura. Parada. Me olhando.” As palavras saíram com dificuldade, cada sílaba carregada de medo.
Mateus fechou os olhos por um momento, um suspiro pesado escapando de seus lábios. Ele parecia estar revivendo algo doloroso. “Eles estão ficando mais ousados. Estão nos testando.” Ele abriu os olhos, e a frieza que ela tantas vezes vira neles retornou, misturada a uma determinação sombria. “Precisamos sair daqui. Agora.”
A urgência em sua voz a pegou desprevenida. “Sair? Para onde?”
“Para um lugar seguro. Um lugar onde eles não nos encontrarão tão facilmente.” Ele estendeu a mão para ela, um gesto de comando, mas também de convite. “Confie em mim, Clara. Eu não vou deixar que nada aconteça com você.”
Clara hesitou. A ideia de deixar o casarão, seu refúgio, a assustava. Mas a imagem daquela sombra, a confirmação de que ela estava sendo caçada, a fez tremer. Ela sabia que não estava segura ali. E, de alguma forma, a ideia de ir com Mateus, por mais perigosa que fosse, parecia a única opção. Ela se levantou e colocou sua mão na dele. O contato foi firme, seguro, e por um instante, ela sentiu uma estranha sensação de proteção.
Eles saíram do casarão em silêncio, a noite já avançada, o céu escuro sem a presença de estrelas. Mateus dirigia com precisão, seus olhos escaneando constantemente os retrovisores e os arredores. Clara o observava, tentando absorver cada detalhe, cada nuance de seu comportamento. A tensão entre eles era palpável, mas agora havia algo mais, uma cumplicidade forjada pelo perigo compartilhado.
Após uma hora de viagem por estradas desertas, eles chegaram a um pequeno apartamento, discreto e sem ostentação. Era um lugar simples, mas limpo e funcional. Mateus a conduziu para dentro, fechando a porta com um clique seguro.
“Este é um dos meus esconderijos”, ele explicou, a voz ainda tensa. “É seguro. Por enquanto.”
Clara olhou ao redor, absorvendo o ambiente. Era um lugar diferente de tudo que ela conhecia, um reflexo da vida clandestina que Mateus levava. Ela se sentou em um sofá surrado, sentindo o peso da exaustão.
“Mateus… quem são eles?”, ela perguntou, a voz fraca. “Por que eles te odeiam tanto?”
Ele a observou por um longo momento, seus olhos escuros percorrendo o rosto dela, como se estivesse medindo seu nível de fragilidade. Finalmente, ele se sentou em frente a ela, o corpo relaxando um pouco, mas a vigilância permanecendo.
“Eu era… diferente, Clara. Há muito tempo. Eu estava envolvido com pessoas perigosas. Eu era um deles.” A confissão saiu em um sussurro quase inaudível, mas carregada de um peso esmagador.
Clara o encarou, chocada. O homem que a protegia com tanta ferocidade, que demonstrava uma preocupação tão genuína, tinha um passado sombrio?
“Você… você era um criminoso?”, ela perguntou, a voz trêmula.
Mateus assentiu lentamente, a dor em seus olhos mais intensa do que nunca. “Eu cometi erros graves. Erros que me marcaram para sempre. Eu estava no lugar errado, fazendo as coisas erradas. E, um dia, eu percebi que precisava sair. Precisava de uma nova vida.”
“E eles não te deixaram ir?”, ela sussurrou.
“Eles não perdoam. Eles não esquecem. Eu sou um traidor aos olhos deles. E eles estão atrás de mim há anos, tentando me punir. Tentando me fazer pagar.” Ele fechou os olhos, como se revivesse as memórias dolorosas. “Eu tentei me esconder, mudar de vida. Mas eles são persistentes. E agora… agora eles descobriram sobre você.”
O estômago de Clara se apertou. Ela era a isca. Ela era o ponto fraco. A ideia a deixou enjoada. “Então… você me trouxe para cá para me proteger deles?”
“Sim. E para me proteger de mim mesmo”, ele acrescentou, a voz ainda mais baixa. “Eu não posso deixar que meu passado destrua você, Clara. Você é… diferente. Você me fez lembrar que ainda existe algo bom no mundo.”
As palavras dele a tocaram profundamente, mas a dúvida ainda estava presente. Ela estava se entregando a um homem com um passado tão sombrio. Poderia realmente confiar nele?
“Você… você já machucou alguém?”, ela perguntou, a voz carregada de medo.
Mateus desviou o olhar, uma nuvem escura passando por seus olhos. “No passado… sim. Eu fiz coisas que me assombram até hoje. Mas eu mudei, Clara. Eu juro. Eu me arrependo de tudo. E é por isso que eu vou te proteger. Eu não posso mais ser aquele homem.”
As cicatrizes do passado dele eram visíveis, não apenas em sua postura tensa, mas em sua alma. Clara percebeu que ele carregava um fardo imenso, um peso de culpa que o corroía. Ela sentiu pena dele, mas também um medo profundo.
“Eu não sei se consigo lidar com isso, Mateus”, ela confessou, a voz embargada. “Eu sou apenas uma artista. Eu quero uma vida simples.”
Ele a encarou, seus olhos escuros fixos nos dela. “Eu sei. E eu farei de tudo para que você tenha essa vida. Mas, por enquanto, precisamos ser fortes. Precisamos ser inteligentes.” Ele estendeu a mão, e desta vez, a tocou suavemente no rosto. “Você me deu uma nova razão para lutar, Clara. Não desista de mim. Não desista de nós.”
Naquele momento, olhando em seus olhos, Clara viu a sinceridade, a dor, a esperança. Ela viu um homem que estava lutando contra seus próprios demônios, e que a via como um raio de luz em meio à escuridão. Ela ainda tinha medo, mas uma parte dela começava a ceder. A rendição, antes hesitante, começava a se tornar mais profunda. Ela estava se rendendo não apenas à proteção dele, mas à complexidade de sua alma, às cicatrizes que contavam a história de sua luta.