Amores que Doem 168
Amores que Doem 168
por Ana Clara Ferreira
Amores que Doem 168
Autor: Ana Clara Ferreira
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Capítulo 11 — O Perfume da Saudade e o Sabor Amargo do Segredo
A noite caía sobre o Rio de Janeiro como um véu de veludo escuro, pontuado por milhares de estrelas tímidas e o brilho incessante das luzes da cidade. No terraço do luxuoso apartamento de Eduardo, o vento trazia o aroma salgado do mar, misturado ao perfume inebriante das flores que adornavam os vasos. Mas para Sofia, o ar parecia denso, pesado com as palavras não ditas e os sentimentos que teimavam em borbulhar em seu peito.
Ela observava a silhueta imponente de Eduardo, que a poucos metros de distância contemplava a paisagem urbana, um copo de uísque na mão. A forma como a luz artificial realçava os contornos do seu rosto, a linha firme da mandíbula, o jeito que o cabelo escuro caía sobre a testa… tudo nela despertava uma admiração que beirava a adoração. E era essa admiração, somada à culpa que a consumia, que tornava cada instante ao lado dele uma tortura doce.
“Está quieta hoje, Sofia”, a voz grave de Eduardo quebrou o silêncio. Ele se virou, um leve sorriso nos lábios, mas os olhos carregavam uma profundidade que ela não conseguia decifrar. “Algo a incomoda?”
Sofia engoliu em seco, buscando as palavras certas. Como explicar que o incomodava a própria presença dele? Que o fato de estar ali, em seus braços na noite anterior, havia sido um dos momentos mais intensos e, ao mesmo tempo, mais errados de sua vida?
“Não é nada, Eduardo”, mentiu, o coração batendo descompassado. “Apenas… pensando.”
Ele se aproximou, o copo de uísque girando lentamente entre os dedos. O olhar dele pousou nela, penetrante, como se pudesse ler os pensamentos mais ocultos. Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A proximidade dele era um convite perigoso, uma tentação que ela jurava estar resistindo.
“Pensando em quê?”, insistiu ele, a voz agora mais suave, quase um sussurro. Ele parou a uma distância respeitosa, mas a tensão no ar era palpável. “Em nós? Em… ontem à noite?”
O rubor subiu pelas bochechas de Sofia. Ontem à noite. A lembrança a assaltou com a força de um vendaval. A forma como ele a havia beijado, a paixão crua que a envolveu, a entrega que a fez esquecer de tudo e de todos. Fora um momento de pura entrega, de abandono voluntário ao desejo que os consumia. Mas a manhã seguinte havia trazido a clareza dolorosa da realidade.
“Eduardo, eu…”, ela começou, a voz embargada. “Não podemos continuar assim.”
O sorriso dele desapareceu, substituído por uma expressão de surpresa, seguida por uma sombra de decepção. “Continuar como, Sofia? Ontem à noite foi… especial. Pelo menos para mim.”
A franqueza dele a atingiu como um golpe. Ele não sentia a mesma culpa que a corroía. Para ele, fora apenas uma noite de paixão intensa, um prenúncio de algo mais. Mas para ela, era um abismo que se abria entre ela e a verdade.
“Eu não posso, Eduardo”, repetiu, com mais firmeza, embora o nó na garganta a impedisse de soar convincente. “Eu sou noiva. Eu… eu amo o Ricardo.”
A menção de Ricardo pareceu atingir Eduardo como um raio. A fachada de serenidade desmoronou, revelando uma raiva contida, um ressentimento que ele lutava para disfarçar.
“Ricardo”, ele repetiu, a voz fria. “Você ama aquele homem que te trata como um troféu? Aquele que te dá tudo, menos o que você realmente precisa: amor de verdade?”
As palavras dele feriram, mas também continham uma verdade incômoda. Sofia sabia que o relacionamento com Ricardo era baseado mais em conveniência e status do que em paixão genuína. Mas era a vida que ela conhecia, a segurança que ela buscava.
“Você não sabe nada sobre mim ou sobre o meu relacionamento”, retrucou, a voz trêmula, mas com um tom de desafio.
Eduardo deu um passo à frente, os olhos fixos nos dela. “Eu sei o que eu vi, Sofia. Eu vi o brilho nos seus olhos quando você falava sobre seus sonhos, sobre a arte que você ama. E eu vejo a sombra que o seu noivado lançou sobre você. Você está apagada, Sofia. E eu… eu odeio ver isso.”
Ele estendeu a mão, hesitante, e tocou o rosto dela com a ponta dos dedos. O toque era leve, mas transmitia uma eletricidade que a fez prender a respiração.
“Não me diga que você não sente nada por mim, Sofia”, sussurrou ele, a voz rouca de emoção. “Eu vi em seus olhos. Eu senti em seus lábios. Não minta para mim, e, o mais importante, não minta para si mesma.”
Sofia fechou os olhos, lutando contra as lágrimas que ameaçavam cair. A confissão dele era o espelho do que ela sentia, a verdade que ela se recusava a encarar. Ela sentia algo por Eduardo. Algo avassalador, perigoso e completamente inadequado.
“Isso… isso é um erro, Eduardo”, conseguiu dizer, afastando-se dele, o coração apertado. “Um erro terrível.”
“Erros podem ser corrigidos”, ele respondeu, a voz novamente firme, um toque de determinação nela. “Mas oportunidades perdidas… essas sim, doem para sempre.”
Ele se virou e caminhou em direção à porta de vidro que levava para dentro do apartamento, deixando Sofia sozinha no terraço, com o perfume da saudade e o sabor amargo do segredo que a consumia. O Rio de Janeiro, antes um cenário romântico, agora parecia um palco de desilusões, de amores que doíam. Ela sabia que a decisão que tomaria em breve mudaria o curso de sua vida, e o peso dessa escolha era quase insuportável. O que ela faria agora? Abraçaria a paixão proibida ou se afogaria na segurança de uma vida que não a preenchia? A noite, que prometia ser de cumplicidade, se transformava em um campo de batalha para sua alma.