Amores que Doem 168
Capítulo 2 — A Sombra do Passado e a Proposta Inesperada
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 2 — A Sombra do Passado e a Proposta Inesperada
O café "Cantinho do Poeta" parecia ter se tornado um palco para a redenção e o tormento. Isabella e Lucas, imersos em um turbilhão de emoções há muito contidas, compartilhavam um silêncio carregado de significados. A mão dele ainda repousava sobre a dela, um elo tênue que os reconectava após anos de separação e dor.
Isabella lutava para controlar o tremor que a percorria. A presença de Lucas era uma faca de dois gumes, um lembrete agridoce de tudo o que fora perdido. Cada detalhe dele, desde o jeito que seus olhos escuros a fitavam com uma mistura de arrependimento e desejo, até o leve odor de café e maresia que exalava dele, a transportava de volta a um tempo em que a felicidade parecia uma promessa eterna.
"Eu não esperava te encontrar aqui, Lucas", ela disse, finalmente conseguindo desviar o olhar para a xícara de cappuccino, agora fria. A coragem que a impulsionou a vir para o Rio parecia ter sido sugada pela energia avassaladora daquele reencontro.
Lucas apertou suavemente a mão dela. "Eu também não esperava. Estava apenas… passando. Procurando um lugar para me abrigar da chuva. Mas acho que o destino tem um senso de humor peculiar, não é?" Ele soltou um suspiro longo e melancólico. "Eu soube o que aconteceu com seus pais, Isabella. Fiquei… eu fiquei devastado. Sinto muito por não ter estado lá para você."
As palavras dele atingiram Isabella em cheio. Ela nunca imaginou que ele soubesse, muito menos que se importasse. A perda dos pais havia sido um golpe devastador, e a solidão que a acompanhava desde então era quase insuportável. Ouvir Lucas expressar sua dor era como ter uma porta se abrindo em um muro que ela mesma havia construído.
"Eu… eu agradeço, Lucas", ela murmurou, a voz embargada. "Foi… foi o pior momento da minha vida." As lágrimas ameaçavam cair novamente, mas ela lutava para contê-las. Não queria parecer fraca diante dele.
Lucas afastou a mão dela com delicadeza, tocando o pulso dela em um gesto de conforto. "Eu sei. E eu me culpei por não ter sido o seu porto seguro. Por ter deixado que as nossas brigas nos afastassem em um momento em que deveríamos ter estado unidos." Ele olhou para o lado, para a multidão que começava a se formar no café, como se temesse ser ouvido. "A vida nos testou de formas cruéis, Isabella. Eu perdi meus pais há dois anos, você sabe. E desde então… a vida perdeu um pouco da sua cor."
A revelação de Lucas a pegou de surpresa. Ela não sabia que ele também havia enfrentado uma perda tão profunda. Isso, de alguma forma, a fez sentir menos sozinha em sua própria dor. Era como se ambos estivessem navegando em mares tempestuosos, cada um em seu próprio barco, mas compartilhando a mesma angústia.
"Eu… eu não sabia, Lucas", ela disse, a voz repleta de compaixão. "Sinto muito."
Ele forçou um sorriso fraco. "É a vida, não é? Um ciclo de alegrias e tristezas. Eu me mudei para o Rio logo depois. Precisava de um lugar novo. Um lugar onde pudesse tentar juntar os cacos." Ele a encarou intensamente. "E agora, parece que o destino nos trouxe de volta, um para o outro."
Um silêncio desconfortável pairou entre eles. Isabella se perguntava o que aquilo significava. Era apenas uma coincidência infeliz? Ou algo mais? A atração entre eles ainda era palpável, um fio invisível que se esticava com a força de anos de saudade reprimida.
"Eu… eu não sei o que pensar, Lucas", ela admitiu, a sinceridade em sua voz. "Tanta coisa aconteceu. Eu ainda… ainda estou tentando entender tudo."
Lucas hesitou, como se estivesse reunindo coragem. "Eu sei que você me odeia. E eu te entendo. Eu fui um idiota. Fui cego pelo orgulho. As palavras que eu disse naquele dia… elas me assombram até hoje. Eu nunca quis te machucar, Isabella. Eu te amava mais do que a minha própria vida."
O "eu te amava" dito em tom de passado fez o coração de Isabella apertar. Era a confirmação de que o que tiveram era apenas uma lembrança, um sonho que se desfez. Mas, ao mesmo tempo, a confissão de seu amor, mesmo que no passado, era um bálsamo para sua alma ferida.
"Eu também te amei, Lucas", ela sussurrou, sentindo as lágrimas rolarem livremente agora. "E eu te perdi. E me perdi junto."
Lucas estendeu a mão novamente, desta vez acariciando o rosto dela com um toque suave, secando as lágrimas com o polegar. "Não, você não se perdeu, Isabella. Você é a pessoa mais forte que eu conheço. E eu… eu sei que pedi desculpas. Mas eu quero que você saiba que estou disposto a provar que mudei. Que eu aprendi com os meus erros."
Ele fez uma pausa, respirando fundo. "Eu… eu tenho um trabalho novo aqui no Rio. Sou arquiteto. E estou envolvido em um projeto grande, no centro da cidade. Uma revitalização de um antigo prédio histórico. E a minha equipe está crescendo. Precisamos de alguém com… com visão. Com paixão. E eu pensei em você."
Isabella o olhou confusa. "Eu? Mas eu sou designer de interiores, Lucas. E nem sei se estou pronta para voltar ao mercado de trabalho."
"Você é mais do que isso, Isabella. Você tem um talento incrível. E eu sei que você se sente deslocada, sem rumo. Precisamos de alguém com o seu olhar artístico, com a sua sensibilidade. Eu quero te oferecer um cargo na minha equipe. Um recomeço. Aqui no Rio. Juntos." Ele a olhou com intensidade, a esperança brilhando em seus olhos. "O que você me diz, Isabella? Me dá uma chance de te mostrar que podemos construir algo novo. Juntos."
A proposta o atingiu como um raio. Trabalhar com Lucas? Em um projeto dele? Era tentador e aterrador ao mesmo tempo. A ideia de estar perto dele todos os dias, de reviver a dinâmica que um dia os uniu, era ao mesmo tempo excitante e perigosa. Ela ainda não sabia se conseguiria lidar com a intensidade dos sentimentos que ele despertava nela, especialmente depois de tanto tempo.
"Lucas, eu… eu não sei", ela gaguejou. "É tudo tão repentino. Eu preciso pensar."
"Eu entendo", ele disse, a decepção velada em sua voz. "Mas pensa bem, Isabella. É uma oportunidade de recomeçar. De deixar o passado para trás. E de… de talvez, quem sabe, nos redescobrirmos."
Ele pegou um cartão de visitas do bolso interno do paletó e o colocou sobre a mesa, deslizando-o até ela. "Meu número. Meu e-mail. E o endereço do escritório. Quando você decidir, me ligue. Ou apareça. Eu estarei te esperando."
Ele se levantou, e Isabella o acompanhou com o olhar. A chuva lá fora havia parado, e um raio de sol tímido começava a romper as nuvens, como um presságio de algo novo.
"Eu preciso ir agora, Isabella", ele disse, um misto de tristeza e esperança no olhar. "Mas foi bom te ver. De verdade."
"Também foi bom te ver, Lucas", ela respondeu, a voz embargada.
Ele sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto. "Até breve, quem sabe."
E com um último olhar que prometia um futuro incerto, Lucas se virou e saiu do café, deixando Isabella sozinha com seus pensamentos, o cartão de visitas em sua mão trêmula e o coração batendo em um ritmo descompassado. A sombra do passado ainda pairava, mas uma nova proposta, inesperada e desafiadora, havia surgido, lançando uma luz tênue sobre o caminho à frente.