Amores que Doem 168

Capítulo 23 — O Confronto e a Verdade Crua

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 23 — O Confronto e a Verdade Crua

O amanhecer na varanda da pousada trouxe consigo uma claridade que não aliviou a escuridão no coração de Isabela. O sol, agora forte e impiedoso, parecia zombar da sua fragilidade. A noite havia sido longa, cheia de inquietação e de um nó na garganta que se recusava a ceder. A revelação de João Miguel sobre o envolvimento de Armando Vasconcelos na fraude que abalava a construtora de sua família era um peso insuportável. Ela tentava processar a informação, encaixar as peças de um quebra-cabeça que parecia ter sido montado para destruí-la.

João Miguel, ao sair do quarto naquela manhã, encontrou Isabela sentada na cadeira de vime, o olhar fixo no mar, mas sem ver a beleza serena do nascer do sol. O rosto dela estava pálido, as olheiras profundas denunciando a noite em claro. Havia uma determinação fria em seus olhos, uma resolução que ele não ousava questionar.

“Isa…”, ele começou, a voz ainda rouca de sono e de preocupação.

Ela se virou para ele, um sorriso forçado brincando em seus lábios. “Não se preocupe, João Miguel. Eu entendi. Você tem uma família para proteger. Uma empresa para salvar. E… sua antiga paixão para se preocupar.” A última frase saiu com um tom de amargura que ele não pôde ignorar.

Ele se aproximou dela, ajoelhando-se diante de sua cadeira. Pegou suas mãos frias entre as dele, buscando reconectar-se a ela. “Isabela, você sabe que isso não é verdade. Sofia é apenas… uma complicação. Uma história antiga que não consigo simplesmente apagar. Mas você… você é o meu presente e o meu futuro.”

“O seu futuro que está tão preocupado em salvar que mal tem tempo de olhar para mim? Que está tão envolto em dívidas e traições que esqueceu como me amar?”, ela retrucou, a voz embargada pela emoção reprimida. A insegurança, que ela tentava disfarçar, agora transbordava.

Ele apertou suas mãos com mais força. “Por favor, Isa, não diga isso. Eu estou lutando. Luto por nós, por tudo que construímos. E essa situação com o Dr. Vasconcelos… é mais complexa do que parece. Meu pai… ele sempre teve um carinho especial por ele. Por ele e pela Sofia. E agora, com essa confusão toda, ele me pediu para… para tentar resolver as coisas com o mínimo de dano possível para a família deles.”

“Minímo de dano possível? E o dano que ele causou a você, à sua família, à sua empresa, isso não conta?”, Isabela não conseguia conter a revolta. A ideia de João Miguel ser complacente com o homem que o traiu, enquanto ela se sentia negligenciada, era demais.

“Ele não está sendo complacente, Isa. Ele está tentando evitar que a Sofia, que está passando por um momento difícil de saúde, seja mais abalada. Meu pai é um homem de honra. E ele se sente responsável por ter confiado em Armando.” João Miguel tentava explicar, mas sentia que as palavras não alcançavam a profundidade da dor de Isabela.

“Saúde de Sofia? E a minha saúde emocional, João Miguel? E o meu coração? Isso não importa? Você está me pedindo para aceitar que a mulher que sempre tentou me separar de você está envolvida em uma fraude, e você, por um pedido do seu pai, vai tentar protegê-la? Isso é demais para mim!” As lágrimas finalmente rolaram pelo rosto de Isabela, quentes e salgadas.

Ele a abraçou com força, sentindo a fragilidade do corpo dela tremer contra o seu. “Isa, meu amor, me escuta. Eu não vou te perder. Eu luto por você. Sempre. Mas eu também tenho um legado a defender. E meu pai… ele está velho e doente. Eu não quero decepcioná-lo. Mas você é a minha vida. A única mulher que eu amo e que quero ao meu lado.”

O abraço, apesar da sinceridade em sua voz, não conseguia dissipar a desconfiança que se instalara em Isabela. Algo na hesitação dele, na forma como ele mencionava Sofia, acendia um alerta em sua mente. Ela precisava entender a extensão dessa ligação, a profundidade dessa relação.

“João Miguel”, ela disse, afastando-se dele, sua voz agora mais firme, com um tom de decisão. “Eu preciso ir até a casa do Dr. Vasconcelos.”

Ele a olhou, surpreso. “O quê? Isa, não. Isso não é uma boa ideia. É perigoso.”

“Perigoso? O que é mais perigoso do que essa incerteza, do que essa sensação de que estou sendo enganada? Eu preciso ver com meus próprios olhos. Eu preciso confrontá-lo.” O tom de Isabela era inabalável.

“Mas por quê? O que você pretende fazer?”

“Eu preciso entender a verdade, João Miguel. A verdade completa. Não apenas a versão que você, seu pai ou qualquer outra pessoa quer me dar. Se ele é o responsável por destruir o seu futuro, ele precisa saber que eu não vou me calar. E se Sofia está envolvida, de alguma forma, eu preciso saber disso também.”

João Miguel sabia que era inútil tentar dissuadi-la quando ela tomava uma decisão. A teimosia de Isabela, quando ela sentia que a injustiça estava ao seu lado, era lendária.

“Tudo bem”, ele cedeu, com um suspiro. “Mas eu vou com você. Não vou deixar você ir sozinha.”

“Não”, Isabela respondeu, firme. “Isso eu preciso fazer sozinha. Se você vier, ele vai se fechar, vai se sentir acuado. Eu preciso que ele me veja como uma mulher que busca a verdade, não como uma ameaça. Eu quero ouvir dele, cara a cara, o que ele tem a dizer. Por favor, confie em mim.”

Ele a olhou nos olhos, vendo a determinação incrustada em cada feição dela. Sabia que ela não voltaria atrás. O amor que ele sentia por ela era imenso, mas também havia um medo crescente de que essa situação pudesse ser o fim de tudo.

“Tudo bem, Isa. Mas seja cautelosa. E me ligue a cada passo. Se sentir qualquer perigo, qualquer coisa estranha, saia imediatamente.”

Isabela assentiu, um alívio misturado com a apreensão percorrendo seu corpo. Ela sabia que estava entrando em um campo minado, mas a necessidade de clareza era mais forte do que qualquer medo.

A mansão dos Vasconcelos, em um bairro nobre de Salvador, era imponente e elegante. O jardim bem cuidado, as paredes brancas imaculadas, tudo exalava uma aura de riqueza e poder. Isabela sentiu um misto de admiração e apreensão ao tocar a campainha. O que ela encontraria ali dentro? Uma confissão? Uma negação? Um novo escândalo?

A porta se abriu, revelando um mordomo discreto, que a olhou com uma expressão polida, mas sem calor.

“Posso ajudar?”, ele perguntou, a voz formal.

“Eu gostaria de falar com o Dr. Armando Vasconcelos, por favor. É um assunto urgente e pessoal.”

O mordomo a conduziu a uma sala de estar luxuosa, com móveis de época e obras de arte nas paredes. O cheiro de café fresco pairava no ar. Isabela sentou-se em um sofá de couro, tentando manter a compostura, enquanto seu coração batia descompassado.

Minutos depois, a figura imponente de Armando Vasconcelos surgiu na porta. Ele parecia mais velho do que Isabela se lembrava, os cabelos grisalhos mais evidentes, as rugas ao redor dos olhos mais profundas. Ele a olhou com uma surpresa cautelosa, mas sem demonstrar alarme.

“Senhorita…?”, ele a cumprimentou, a voz calma e controlada.

“Isabela Santos”, ela respondeu, levantando-se para encará-lo. “João Miguel me contou sobre a situação da construtora. Sobre a dívida. E sobre o seu envolvimento.”

Um silêncio tenso pairou no ar. Armando Vasconcelos não negou, nem confirmou. Apenas a observou com uma intensidade que a fez sentir-se exposta.

“João Miguel…”, ele murmurou, como se saboreasse o nome. “Ele sempre foi um bom rapaz. Tão parecido com o pai. É uma pena que essa herança tenha se tornado um fardo tão pesado.”

“Um fardo que o senhor ajudou a criar?”, Isabela arriscou, a voz firme, apesar da trepidação interna.

Um leve sorriso surgiu nos lábios de Armando. “Isabela, a vida é feita de escolhas. E, às vezes, as escolhas de um homem afetam a vida de muitos outros. Eu e o pai de João Miguel éramos amigos, sim. Mas o mundo dos negócios é implacável. Havia… desentendimentos. Diferentes visões. E, infelizmente, as coisas tomaram um rumo inesperado.”

“Inesperado? Ou planejado? O senhor se aproveitou da confiança do pai de João Miguel para causar todo esse estrago?” As palavras saíram com uma raiva contida.

Armando suspirou, cruzando os braços. “Não é tão simples quanto parece, senhorita Santos. Seu amigo João Miguel, e seu pai, eram idealistas. Acreditavam em um mundo onde a ética e a honestidade eram suficientes. Eu, por outro lado, sempre soube que a realidade era mais dura. Que para sobreviver, às vezes, era preciso tomar decisões… difíceis. E, sim, eu tomei decisões que beneficiaram a mim e à minha família. E que, infelizmente, prejudicaram os outros.”

A frieza em sua voz era chocante. Ele falava de traição e fraude como se estivesse discutindo o clima.

“E a Sofia?”, Isabela perguntou, o nome saindo como um sussurro carregado de esperança e medo. “Ela sabe do que o senhor fez? Ela está envolvida nisso?”

Armando hesitou por um momento, e Isabela sentiu um fio de esperança se acender. Talvez Sofia fosse inocente. Talvez ela não tivesse participado daquela crueldade.

“Sofia…”, ele começou, a voz mudando de tom, adquirindo uma nuance de tristeza e preocupação. “Sofia está passando por um momento muito delicado. Ela tem… um problema de saúde. Um problema cardíaco que se agravou recentemente. Eu não quis sobrecarregá-la com os problemas financeiros da família. Ela precisa de paz e tranquilidade para se recuperar.”

A revelação atingiu Isabela como um raio. Sofia doente? Com um problema cardíaco? A mulher que ela via como uma rival insensível, agora se mostrava uma figura frágil e doente. A raiva que Isabela sentia começou a dar lugar a uma estranha mistura de compaixão e confusão. Ela não conseguia conciliar a imagem da Sofia que a atormentava com a Sofia descrita por seu pai.

“Problema de saúde?”, Isabela repetiu, a voz embargada. “João Miguel não me disse nada sobre isso.”

“João Miguel é um bom rapaz. Ele se importa com Sofia. Ele sabe que ela não está bem. E meu pedido para ele foi para que tentasse resolver essa situação com o mínimo de impacto possível nela. Algo que, confesso, está se tornando cada vez mais difícil.” Armando a olhou nos olhos, e pela primeira vez, Isabela viu uma genuína preocupação em seu olhar.

A revelação sobre a saúde de Sofia mudou completamente a perspectiva de Isabela. A imagem da rival fria e calculista se desfez, dando lugar a uma figura vulnerável. O conflito entre a justiça que ela buscava para João Miguel e a compaixão que sentia pela Sofia doente a deixou em um dilema moral complexo. A tempestade que ela imaginava encontrar na mansão Vasconcelos era, na verdade, um turbilhão de emoções e verdades chocantes que a forçaram a reavaliar tudo o que ela pensava saber.

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