Amores que Doem 168
Capítulo 3 — A Casa na Lapa e o Segredo da Vizinhança
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 3 — A Casa na Lapa e o Segredo da Vizinhança
Isabella decidiu alugar um pequeno apartamento na Lapa, um bairro que exalava a alma boêmia e artística do Rio de Janeiro. Precisava de um lugar que fosse a sua cara, um refúgio onde pudesse processar o turbilhão de emoções que o reencontro com Lucas havia desencadeado. A casa, antiga e charmosa, com seus azulejos portugueses e um pequeno quintal com uma mangueira frondosa, parecia perfeita. O aluguel era acessível e a localização, vibrante, com o som dos batuques e as luzes coloridas que pulsavam pelas noites.
Ela passou os primeiros dias desempacotando suas poucas posses, cada objeto carregando uma lembrança de sua vida anterior. A moldura com a foto de seus pais emoldurava um sorriso que agora era uma dor aguda. A caixa com as cartas de Lucas, que ela jurou nunca mais reler, permaneceu fechada no fundo de um armário, uma tentação constante.
A proposta de Lucas ainda ecoava em sua mente. Trabalhar com ele era uma perspectiva assustadora. A proximidade diária poderia ser uma tortura, mas também uma chance de cura. Ela sentia a necessidade de voltar a ser quem era, de encontrar seu propósito novamente, e a arquitetura, embora não fosse sua área principal, sempre a fascinou. A ideia de criar e transformar espaços, de dar nova vida a prédios antigos, a atraía profundamente.
Em uma tarde ensolarada, enquanto Isabella regava as plantas em seu novo quintal, um som familiar chamou sua atenção. Era a melodia de um violão, tocada com uma leveza e melancolia que a transportaram para outro tempo. Era uma música que Lucas costumava tocar para ela nas noites de verão. Ela se aproximou da cerca que dividia seu quintal com o vizinho e espiou.
Do outro lado, sentado em uma cadeira de balanço sob a sombra da mangueira, estava um homem. Ele parecia ter seus trinta e poucos anos, com cabelos escuros e ondulados, olhos verdes profundos e um sorriso gentil. Estava absorto na música, e Isabella sentiu um aperto no peito. Aquele violão, a melodia… era uma coincidência muito grande.
Quando ele terminou a música, ergueu a cabeça e seus olhos encontraram os de Isabella. Um sorriso discreto brotou em seus lábios.
"Olá", ele disse, a voz calma e melodiosa. "Não sabia que tínhamos uma nova vizinha. Seja bem-vinda."
"Olá", Isabella respondeu, sentindo-se um pouco envergonhada. "Obrigada. Eu me mudei há poucos dias. Sou Isabella."
"Daniel", ele se apresentou, levantando-se e caminhando até a cerca. "É um prazer conhecê-la, Isabella. Daniel Monteiro. E esse barulho todo que você ouve às vezes é culpa minha." Ele gesticulou para o violão.
"Eu adorei a música", Isabella disse, sinceramente. "Parecia familiar."
Daniel sorriu. "Eu gosto de tocar. Me ajuda a relaxar. E às vezes, me inspira." Ele olhou para a mangueira. "Essa mangueira é antiga, não é? Minha avó a plantou."
"É linda", Isabella comentou. "Meu nome é Isabella, a propósito."
"Daniel", ele repetiu, estendendo a mão por cima da cerca.
Isabella hesitou por um instante, mas apertou a mão dele. A pele era firme, o toque cordial.
"E você toca violão?", Daniel perguntou, curioso.
"Não", Isabella riu. "Mas eu admiro quem tem esse talento. É uma forma de expressar sentimentos que palavras não conseguem."
"Exatamente", Daniel concordou. "E parece que você entende disso. Pelo seu olhar."
Isabella sentiu um leve rubor subir em seu rosto. Era um elogio inesperado e agradável.
"Eu… eu sou designer de interiores", ela disse, tentando desviar o assunto para algo mais concreto.
"Ah, que interessante! O Rio tem muitos prédios antigos que precisam de um toque especial, não é mesmo? A Lapa é um tesouro nesse sentido. Eu sou arquiteto, sabia?"
A revelação de Daniel fez o coração de Isabella dar um salto. Arquiteto. E vizinho. A coincidência parecia cada vez mais intrigante.
"Sério? Que coincidência!", ela exclamou. "Eu também estou pensando em voltar ao mercado de trabalho aqui no Rio. Talvez em arquitetura ou design."
"Sério? Que ótimo! Onde você trabalhou antes?" Daniel perguntou, com genuíno interesse.
Isabella sentiu um nó na garganta. Contar sobre sua vida anterior, sobre Lucas, era algo que ela ainda não estava pronta para fazer. "Eu trabalhei em São Paulo", ela disse, evasiva. "Mas… precisei me afastar por um tempo."
Daniel percebeu a mudança em sua expressão e não insistiu. "Eu entendo. A vida nos reserva seus próprios caminhos. Mas se precisar de alguma dica sobre o mercado aqui, pode me perguntar. E se um dia quiser ver algum projeto meu, me diga. Eu adoraria mostrar."
"Eu agradeço, Daniel", Isabella disse, um sorriso sincero no rosto. A cordialidade dele era reconfortante.
"Bom, vou deixar você em paz com suas plantas e suas caixas", Daniel disse, dando um passo para trás. "Mas se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, não hesite em bater na porta. Moramos aqui há anos. Conhecemos todo mundo."
"Obrigada, Daniel", Isabella respondeu. "E eu vou precisar de ajuda para escolher as melhores mangueiras para o meu suco, com certeza."
Daniel riu. "Você veio ao lugar certo! A minha mangueira é a melhor da Lapa."
Enquanto Daniel voltava para sua cadeira e retomava a melodia suave do violão, Isabella sentiu um alívio inesperado. Aquele encontro casual, a cordialidade genuína de Daniel, a sensação de pertencimento que começava a emergir em seu novo lar, tudo isso ajudou a dissipar um pouco da escuridão que a envolvia.
Mas enquanto ela voltava para dentro de casa, para a moldura com a foto de seus pais, um pensamento sombrio a assaltou. Lucas. Ele era arquiteto e estava envolvido em um grande projeto. Daniel também era arquiteto e morava ao lado dela. Seria possível que…
A porta da frente se abriu, e Isabella viu seu vizinho da casa ao lado, um senhor simpático e falante chamado Seu Antenor, caminhando em sua direção. Ele tinha um prato de biscoitos caseiros nas mãos.
"Minha filha, seja bem-vinda!", ele disse, com um sorriso largo. "Vi que você já conheceu o Daniel. Ele é um bom rapaz. Um artista. Mas é um pouco fechado, sabe? Não fala muito da vida dele."
Isabella pegou o prato de biscoitos com gratidão. "Obrigada, Seu Antenor. Ele parece ser bem simpático."
"E ele é!", Seu Antenor confirmou. "Mas eu conheço o Daniel desde pequeno. E sei que ele guarda um segredo. Um segredo que o atormenta. Tem a ver com um amor do passado. Uma história que o fez sumir por um tempo. Ele voltou para o Rio há uns dois anos, mais ou menos. Mas vive sozinho. E carrega uma tristeza no olhar."
As palavras de Seu Antenor fizeram Isabella congelar. Um amor do passado. Uma história que o atormentava. Um sumiço. Tudo isso soava estranhamente familiar. Ela olhou para a casa de Daniel, para a mangueira frondosa, para o violão encostado na cadeira.
Seria possível que o amor que atormentava Daniel, a história que o fez desaparecer, fosse… ela? O tempo em que Lucas esteve fora do Rio, o tempo em que eles se separaram?
A cabeça de Isabella girava. As coincidências eram muitas. Lucas. Daniel. Arquitetura. Um amor do passado que causou dor e sofrimento. Seria Daniel o próprio Lucas, com um nome diferente? Ou seria Lucas a pessoa que atormentava Daniel? A verdade, escondida nas sombras da Lapa, prometia ser mais complexa e dolorosa do que ela jamais imaginara.