Amores que Doem 168
Capítulo 4 — A Confissão de Lucas e a Dupla Armadilha
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 4 — A Confissão de Lucas e a Dupla Armadilha
Os dias na Lapa corriam em um ritmo lento e melancólico para Isabella. A cada som de violão vindo da casa vizinha, ela se sentia compelida a espiar pela janela, buscando um vislumbre de Daniel. A cordialidade dele era um bálsamo, mas a sombra do mistério que o envolvia a mantinha em alerta. As palavras de Seu Antenor ecoavam em sua mente, alimentando uma suspeita que se tornava cada vez mais real: Daniel era, de alguma forma, Lucas. Ou Lucas era alguém que fez Daniel sofrer imensamente.
Ela tentou ignorar a intuição, focando-se no trabalho que Lucas a havia convidado a fazer. O escritório dele, um espaço amplo e moderno com vista para o Pão de Açúcar, era a antítese da Lapa antiga e charmosa que ela agora chamava de lar. A equipe de Lucas era jovem, vibrante e cheia de ideias. No entanto, a presença de Lucas ali era um constante lembrete de sua conexão passada. Ele era profissional, atencioso, mas havia uma barreira sutil entre eles, uma tensão silenciosa que apenas eles dois pareciam sentir.
Durante uma reunião de projeto, Lucas apresentou os planos para a revitalização de um antigo teatro no centro do Rio. Isabella ficou fascinada com a grandiosidade do projeto e a forma como Lucas falava sobre ele, com paixão e visão.
"Precisamos respeitar a história deste lugar", Lucas explicou, apontando para os esboços em 3D. "Mas também dar a ele uma nova vida. Uma nova identidade. É um desafio, mas estou confiante de que podemos fazer algo espetacular."
Isabella sentiu uma onda de admiração por ele. Ele realmente havia se tornado um arquiteto talentoso, um profissional respeitado. Ela se permitiu sonhar acordada com a possibilidade de trabalhar ao lado dele, de reconstruir não apenas edifícios, mas também a si mesma.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Lucas a chamou para conversar em seu escritório particular. A porta se fechou, e o silêncio se instalou entre eles, quebrado apenas pelo som distante das gaivotas.
"Isabella", ele começou, a voz mais suave do que o habitual. "Eu tenho pensado muito sobre o que falamos naquele café. E eu… eu sei que te ofereci um emprego. Mas quero que saiba que não foi apenas por profissionalismo. Foi porque eu sinto sua falta. Sinto falta da sua presença na minha vida."
O coração de Isabella disparou. "Lucas, eu…"
"Por favor, me deixe terminar", ele pediu, aproximando-se dela. "Eu sei que fui um idiota. Que estraguei tudo. Mas eu nunca deixei de te amar. Nunca. O que aconteceu entre nós… foi o orgulho, a imaturidade. E depois… depois veio a dor. A dor de te perder."
Ele fez uma pausa, respirando fundo. "Eu fiquei devastado quando soube do acidente dos seus pais. E por não ter estado lá. Por ter te deixado sozinha. Eu me culpei todos os dias. E quando eu soube que você estava no Rio… eu senti que era um sinal. Um sinal de que talvez tivéssemos uma nova chance."
Ele a olhou nos olhos, a sinceridade estampada em seu rosto. "Eu sei que você não confia mais em mim. E eu te entendo. Mas eu quero te reconquistar, Isabella. Quero te mostrar que eu mudei. Que sou o homem que você merece."
As palavras de Lucas eram um furacão em sua alma. A confissão de seu amor eterno, a dor compartilhada, a promessa de mudança… tudo isso a atingiu em cheio. Ela sentiu a necessidade de se defender, de explicar a ela mesma que não podia cair na mesma armadilha novamente. Mas algo em seu olhar, algo profundamente vulnerável e sincero, a fez hesitar.
"Lucas, eu não sei se posso", ela sussurrou, a voz embargada. "Eu fui tão machucada. E eu ainda… ainda estou tentando me curar."
"Eu sei", ele disse, tocando suavemente o rosto dela. "E eu vou te ajudar a se curar. Eu prometo. Vamos dar um passo de cada vez. Começando com este projeto. E depois… depois o que o destino quiser."
Aquele toque, aquela proximidade, trouxeram de volta memórias poderosas. Isabella se sentiu dividida entre a razão, que gritava para ela fugir, e o coração, que ansiava por aquele calor que apenas Lucas podia lhe oferecer.
Naquela noite, enquanto a música de violão de Daniel ecoava pela vizinhança, Isabella sentiu uma pontada de culpa. Ela estava se aproximando de Lucas novamente, talvez se permitindo ser levada por velhos sentimentos, e ainda não havia desvendado o mistério de seu vizinho. Daniel, com sua melancolia e seu violão, parecia um reflexo de uma dor que ela mesma sentia.
No dia seguinte, enquanto Isabella caminhava pela Lapa, absorta em seus pensamentos, ela viu Daniel saindo de um pequeno café. Ele parecia abatido, o olhar perdido. Ela se aproximou dele, a cautela misturada com uma preocupação genuína.
"Daniel? Tudo bem?", ela perguntou, suavemente.
Ele ergueu a cabeça, surpreso ao vê-la. Um sorriso fraco surgiu em seus lábios. "Isabella. Olá. Tudo bem, sim. Apenas… pensando."
"Pensando em quê?", ela insistiu, sentindo uma necessidade de se conectar com ele, de entender a dor que ele carregava.
Daniel hesitou por um momento, olhando ao redor, como se procurasse por alguém. "Na vida", ele disse, finalmente. "Nas escolhas que fazemos. Nos caminhos que seguimos."
"Você parece… triste", Isabella observou, sem rodeios.
Daniel suspirou, um som longo e doloroso. "Eu carrego um peso, Isabella. Um peso de arrependimento. De oportunidades perdidas. De amor que se foi."
As palavras dele a atingiram como um raio. Amor que se foi. Arrependimento. Ele estava falando de algo que a envolvia diretamente.
"Você se refere a… a alguém?", Isabella perguntou, a voz quase inaudível.
Daniel a olhou nos olhos, e pela primeira vez, ela viu uma profunda tristeza neles, uma dor que parecia antiga e insuportável. "Sim", ele disse. "A uma pessoa. Uma pessoa que eu amei mais do que tudo. E que eu perdi por causa da minha própria estupidez. Eu a machuquei profundamente, Isabella. E desde então, minha vida se tornou um eco daquela dor."
O coração de Isabella disparou. Ele estava falando dela. Ou de alguém que se parecia com ela. A confusão era avassaladora. Lucas a havia procurado, se declarado, oferecido um recomeço. E agora, Daniel, seu vizinho, com sua melancolia e seu violão, parecia carregar a mesma dor, a mesma história.
"Essa pessoa… ela te deixou?", Isabella perguntou, a voz trêmula.
Daniel assentiu lentamente, um nó se formando em sua garganta. "Ela foi embora. E eu… eu nunca consegui superar. Eu a vejo em todos os lugares. Ouço a voz dela nas músicas que toco. A culpa me consome."
Isabella sentiu um misto de pena e angústia. Ela sabia a dor que era perder um amor. Mas a ideia de que Daniel, seu vizinho, estivesse sofrendo por causa de Lucas, ou por causa dela mesma, era esmagadora.
"Eu… eu sinto muito, Daniel", ela disse, sincera. "Perder alguém que amamos é uma das piores dores que existem."
Ele a olhou, e havia uma gratidão em seu olhar que a desarmou. "Você entende", ele sussurrou. "Poucas pessoas entendem."
De repente, Isabella teve uma epifania terrível. E se Lucas, o Lucas que a procurou, o Lucas que lhe ofereceu um emprego, fosse a pessoa que causou tanta dor a Daniel? E se Daniel fosse alguém que amava Isabella e que Lucas havia roubado dela? Ou pior, e se Daniel fosse Lucas, e o homem que se apresentou como Lucas fosse um impostor? As possibilidades eram aterrorizantes. Ela estava presa em uma teia de mentiras e desencontros, uma dupla armadilha que a prendia entre dois homens que pareciam carregar o mesmo peso de um amor perdido.