Amores que Doem 170

Capítulo 4 — O Sussurro da Velha Casa e a Promessa de Descobertas

por Isabela Santos

Capítulo 4 — O Sussurro da Velha Casa e a Promessa de Descobertas

A noite em Paraty desceu como um manto escuro, pontilhado pelas estrelas que, tímidas no início, logo ganharam força e brilho. O cheiro de maresia, sempre presente, parecia mais intenso, carregado de mistérios e de uma melancolia que se encaixava perfeitamente com o turbilhão de pensamentos de Aurora. A discussão na praça, a hostilidade entre Matias e o Sr. Valério, e, acima de tudo, a pergunta incisiva de Matias sobre a morte de seu pai, haviam deixado uma marca profunda.

Aurora estava em seu quarto, a luz do lampião tremeluzindo, criando sombras alongadas que pareciam dançar com seus medos. O pião de seu pai repousava sobre a mesa, um lembrete silencioso de um homem que ela mal conhecia, mas cujo passado parecia se entrelaçar com o presente de maneiras que ela ainda não compreendia. As palavras de Matias ecoavam em sua mente: "A verdade tem um poder próprio. E ela sempre encontra um caminho para vir à tona."

Ela se levantou e foi até a janela, observando a escuridão que envolvia a cidade. As luzes das casas criavam pontos de calor em meio à noite, mas para Aurora, o brilho parecia ofuscado por uma névoa de incerteza. Ela sentia uma necessidade crescente de saber mais, de desvendar os segredos que sua mãe mantinha tão cuidadosamente guardados.

De repente, ela pensou na casa de Matias. Era uma antiga casa de pescador, isolada em uma pequena enseada, com vista para o mar. Ele havia chegado a Paraty há alguns meses, buscando paz, mas a sua presença era um catalisador de perguntas. Seria ele um homem com um passado a esconder, ou alguém que buscava a verdade, assim como ela?

Uma decisão tomou forma em sua mente. Era impulsiva, talvez tola, mas sentiu que precisava agir. Precisava falar com Matias, confrontá-lo com suas dúvidas.

Vestiu um xale sobre os ombros e saiu de casa, deslizando pelas ruas silenciosas de Paraty. A brisa noturna era fresca, e o som dos grilos criava uma trilha sonora para sua jornada. A casa de Matias ficava um pouco afastada do centro da cidade, em um local mais rústico, onde a natureza reinava.

Ao se aproximar, viu uma luz fraca emanando de uma das janelas. Matias estava lá, provavelmente em seus pensamentos, assim como ela. Respirou fundo e caminhou até a porta, hesitando por um instante antes de bater suavemente.

O som da batida ecoou na quietude. Passaram-se alguns segundos, e então a porta se abriu. Matias estava ali, com os cabelos ligeiramente desalinhados, um semblante cansado, mas seus olhos, ao vê-la, ganharam um brilho de surpresa e, talvez, de reconhecimento.

"Aurora? O que faz aqui a esta hora?" sua voz era calma, mas tingida de preocupação.

"Eu... eu precisava falar com você, Matias", ela disse, a voz um pouco trêmula. "Sobre o que você disse hoje na praça. Sobre meu pai."

Matias a convidou para entrar. A casa era simples, mas arrumada. Havia livros empilhados em uma mesa, mapas antigos pendurados nas paredes, e um leve aroma de madeira e sal. Em uma das paredes, um grande mapa do Brasil, com vários pontos marcados a vermelho.

"Entre", ele disse, abrindo espaço. "Imaginei que nossas conversas a levariam a isso."

Aurora entrou, sentindo-se um pouco deslocada naquele ambiente. Matias fechou a porta, e o som do mar lá fora pareceu se intensificar.

"Sente-se", ele ofereceu, indicando uma cadeira rústica. "Posso lhe oferecer um chá?"

"Não, obrigada", Aurora respondeu, mantendo-se de pé. Ela o encarou, reunindo coragem. "Você perguntou se eu acreditava que meu pai havia morrido em um acidente. Eu... eu não sei mais o que acreditar."

Matias assentiu lentamente, seus olhos fixos nos dela. Havia uma compreensão profunda em seu olhar, como se ele soubesse exatamente o que ela estava sentindo. "O passado, Aurora, é como um oceano profundo. Esconde naufrágios e tesouros. E às vezes, para encontrarmos a paz, precisamos mergulhar em suas profundezas, por mais assustador que seja."

"Minha mãe não fala sobre isso. Ela se fecha. Mas eu sinto que há algo que não me contaram. Alguma coisa que o Sr. Valério insinuou hoje também."

Matias se aproximou de uma das paredes, onde o mapa do Brasil estava exposto. Ele traçou com o dedo um ponto específico na costa. "Seu pai, o Sr. Santos, era um homem habilidoso. Um artesão respeitado. Mas ele também era um homem com muitos contatos, Aurora. E nem todos eram tão limpos quanto o linho que sua mãe borda."

Aurora o encarou, surpresa. "Do que você está falando?"

"Seu pai, por motivos que ainda não descobri completamente, estava envolvido em algumas transações... digamos, não oficiais. Transportes de mercadorias que não passavam pela alfândega. Ele tinha um conhecimento único das correntes e dos esconderijos da costa."

O estômago de Aurora se revirou. Aquilo não se encaixava na imagem que ela tinha de seu pai, o homem gentil cujas mãos criavam beleza. "Isso não pode ser verdade."

"O mundo, Aurora, é feito de muitas facetas. A mesma mão que borda um lenço pode também, em outro momento, carregar um fardo pesado. Eu também carrego meus próprios fardos." Matias fez uma pausa, seus olhos percorrendo o mapa. "Quando cheguei a Paraty, buscava apenas paz. Mas descobri que esta cidade, como muitas outras, guarda segredos. E o desaparecimento do Sr. Santos... ele está ligado a um desses segredos."

"E o Sr. Valério?", Aurora perguntou, lembrando-se da discussão.

"O Sr. Valério é um homem que lucra com a opacidade. Ele prospera onde a verdade se esconde. E ele via seu pai como um obstáculo, ou talvez como uma peça em um jogo maior." Matias voltou a olhá-la. "Eu estou investigando. Buscando as peças do quebra-cabeça. E acredito que você, Aurora, tem um papel crucial nisso."

Aurora sentiu um misto de medo e determinação. A ideia de que seu pai estivesse envolvido em algo assim era chocante, mas a possibilidade de descobrir a verdade era ainda mais poderosa.

"O que você quer de mim?", ela perguntou, sua voz firme, apesar do tremor interno.

"Quero que você me ajude", Matias respondeu, seus olhos cheios de uma intensidade que a fez acreditar nele. "Sua mãe tem informações, Aurora. Ela sabe mais do que conta. E você, com sua ligação com ela, pode conseguir que ela fale. Ou talvez, você mesma possa encontrar algo que ela escondeu. Algo que seu pai deixou para trás."

Ele se aproximou da mesa onde o pião repousava, pegando-o com cuidado. "Este pião. Seu pai o fez, não foi? Havia um valor especial para ele nesses objetos que ele criava?"

Aurora assentiu. "Sim. Ele dizia que cada peça tinha um pouco de sua alma. E que, às vezes, os objetos simples guardavam os segredos mais importantes."

Matias sorriu, um sorriso melancólico. "Exatamente. Talvez seu pai tenha deixado algo. Uma pista. Um aviso. Escondido em algum lugar. E talvez, essa casa antiga onde sua mãe mora... ela guarda mais do que memórias de bordados."

Um arrepio percorreu o corpo de Aurora. A velha casa de sua família, com suas paredes grossas e seus cômodos repletos de histórias, de repente parecia um labirinto de segredos.

"Eu... eu não sei se consigo. Minha mãe..."

"Eu entendo o seu receio, Aurora. Mas o passado sempre volta para nos cobrar. E se não o enfrentarmos, ele nos consumirá. Seu pai merece que a verdade seja conhecida. E você merece saber quem ele realmente foi." Matias estendeu a mão para ela. "Você está disposta a descobrir?"

Aurora olhou para a mão estendida de Matias, depois para o pião em sua outra mão. A imagem de seu pai, o homem que ela pouco conhecia, pairava em sua mente. Ela sentiu que estava à beira de algo grande, algo que a mudaria para sempre. A promessa de descobertas, de verdades ocultas, a atraía com uma força irresistível.

"Eu estou", ela disse, sua voz embargada pela emoção. "Eu preciso saber."

Matias apertou sua mão, um toque firme e reconfortante. "Então, vamos começar. Juntos." O mar lá fora rugia, um som que parecia ecoar a força da verdade que Aurora estava prestes a desvendar.

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