Cativada pelos seus Olhos 171
Cativada pelos seus Olhos 171
por Camila Costa
Cativada pelos seus Olhos 171
Por Camila Costa
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Capítulo 11 — O Beijo Roubado na Chuva e a Tempestade Interna
O céu, num tom acinzentado de presságio, derramava lágrimas frias sobre a cidade. A chuva, implacável, transformava as ruas em rios turvos, refletindo as luzes neon que piscavam, indiferentes à melancolia que pairava no ar. Sofia, encolhida sob o pequeno guarda-chuva que mal a protegia, apressava o passo. O peso do que havia descoberto a esmagava. A frieza calculista de Dona Aurora, a manipulação sorrateira, o plano que envolvia a fortuna de sua família, tudo aquilo a deixava sem chão. Sentia-se violada em sua intimidade, traída por aqueles que mais amava. E, por mais que tentasse, a imagem de Rafael, o homem que a fascinara com sua voz rouca e seus olhos que guardavam universos inteiros, insistia em invadir seus pensamentos.
Ela o conhecera em circunstâncias que, vistas em retrospecto, pareciam tão parte de um enredo quanto sua própria desgraça atual. O acidente no café, o choque elétrico que a fizera derrubar a xícara de porcelana, a gentileza inesperada dele em ajudá-la, o olhar que pareceu enxergar além de sua armadura de segurança. Rafael era um vulcão adormecido, uma força da natureza contida em um corpo elegante. Havia uma intensidade em seu olhar que a atraía e a assustava ao mesmo tempo. Ele era tudo o que sua vida controlada não era: imprevisível, apaixonado, talvez perigoso.
Enquanto a chuva castigava seu rosto, um turbilhão de emoções a tomava. A raiva fervilhava, contra a mãe, contra o tio, contra o sistema que a aprisionara em uma teia de mentiras. Mas, por baixo da fúria, havia uma correnteza sutil, um desejo que ela se recusava a admitir, mas que se tornava cada vez mais difícil de ignorar. Era a atração por Rafael, essa força magnética que a puxava para ele como um ímã.
Parou em frente ao prédio de seu apartamento, a silhueta imponente contra o céu escuro. O guarda-chuva escorregou de suas mãos e foi levado pela enxurrada. Estava encharcada, o vestido colado ao corpo, o cabelo grudado no rosto. Aos prantos, sentiu um desespero avassalador. A vida, que ela julgava estar sob controle, desmoronava em pedaços.
Foi então que o viu. Parado do outro lado da rua, sob a marquise de uma loja fechada, ele a observava. Rafael. O coração disparou, um tambor descompassado dentro do peito. Ele cruzou a rua sem hesitar, ignorando a chuva que o encharcava em segundos. Seus passos eram decididos, a expressão em seu rosto uma mistura de preocupação e algo mais profundo, algo que ela não soube decifrar.
Quando chegou perto dela, o silêncio se instalou, quebrado apenas pelo barulho da chuva. Ele estendeu a mão, um gesto hesitante, e tocou seu rosto molhado. O contato foi como um choque, um arrepio que percorreu todo o seu corpo.
"Sofia", a voz dele era um sussurro rouco, carregado de emoção. "O que aconteceu?"
As lágrimas que ela tentava conter voltaram com mais força. Ela não conseguia falar, o nó na garganta a impedia. Ele a abraçou, um abraço apertado, protetor. Sofia se permitiu afundar naquele abraço, buscando um refúgio em meio à tempestade. Sentiu o cheiro dele, uma fragrância amadeirada e envolvente, que a acalmou e a excito ao mesmo tempo.
"Eu... eu descobri tudo, Rafael", ela conseguiu finalmente murmurar, a voz embargada. "A minha mãe... ela planejou tudo. A falência do meu pai... tudo para me casar com aquele... com aquele homem que ela escolheu."
Rafael a apertou ainda mais. "Eu sei", disse ele, a voz carregada de um pesar que a surpreendeu. "Eu tentei te avisar, Sofia. Eu sabia que ela era perigosa."
Sofia se afastou um pouco, o rosto ainda em suas mãos. "Mas por quê? Por quê tudo isso?"
Ele a olhou nos olhos, e naquele instante, Sofia viu a verdade refletida em seu olhar. Não havia mentira, não havia dissimulação. Apenas um profundo sofrimento e uma atração inegável.
"Porque ela é uma víbora, Sofia. E ela não hesita em usar quem quer que seja para conseguir o que quer. Mas você é mais forte do que ela pensa. E você não está sozinha."
A chuva parecia diminuir, mas a tempestade dentro de Sofia apenas se intensificava. A proximidade dele, a intensidade de seus olhares, a vulnerabilidade que ela permitia a ele ver, tudo isso a desarmava. Ele se aproximou mais, o rosto a poucos centímetros do dela. O ar entre eles vibrava com uma eletricidade palpável.
"Sofia", ele sussurrou novamente, o nome dela soando como uma prece.
E então, sob a luz fraca de um poste, a chuva ainda caindo em um véu prateado, Rafael a beijou.
Não foi um beijo terno, mas um beijo voraz, desesperado. Um beijo que falava de desejo reprimido, de angústia compartilhada, de uma conexão que transcendia as circunstâncias. A boca dele encontrou a dela com uma urgência que a fez perder o fôlego. Sofia respondeu com a mesma intensidade, entregando-se àquele momento, esquecendo por um instante a dor e a traição.
Os lábios dele exploravam os dela com uma paixão que a consumia. Suas mãos deslizaram para sua cintura, puxando-a para mais perto, eliminando qualquer espaço entre seus corpos. Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha, uma onda de calor que a envolveu. Era um beijo que prometia mais, que falava de um futuro incerto, mas de um presente avassalador.
Quando se afastaram, ambos ofegantes, o olhar de Rafael era um mar de emoções turbulentas. Havia ali a paixão, a admiração, e talvez, apenas talvez, um vislumbre de amor. Sofia sentiu o coração bater descompassado, um ritmo frenético que a assustava e a fascinava.
"Rafael", ela sussurrou, a voz embargada.
Ele sorriu, um sorriso triste, mas genuíno. "Vamos para sua casa, Sofia. Você está encharcada e precisa descansar."
Enquanto caminhavam lado a lado, a chuva agora um sussurro suave, Sofia sentiu que algo havia mudado irrevogavelmente. A tempestade lá fora havia se acalmado, mas a tempestade dentro dela estava apenas começando. E ela sabia, com uma certeza arrepiante, que seus olhos, antes cativados, agora estavam presos em um turbilhão de emoções, com Rafael no centro de tudo.