Cativada pelos seus Olhos 171
Cativada pelos seus Olhos 171
por Camila Costa
Cativada pelos seus Olhos 171
Autor: Camila Costa
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Capítulo 16 — O Sussurro da Vingança e o Chamado da Razão
O ar no ateliê de Helena estava pesado com a tensão que pairava entre ela e Ricardo. As telas inacabadas, antes um refúgio de cores e formas, agora pareciam espelhar a confusão de seus sentimentos. A revelação sobre a verdadeira natureza do negócio de Ricardo, a fachada de importação e exportação que escondia a operação de desvio de verbas e a lavagem de dinheiro para a quadrilha de São Paulo, ainda ecoava em seus ouvidos como um trovão distante.
"Você me mentiu, Ricardo," a voz de Helena, outrora doce como mel, agora trazia o amargor do fel. Ela segurava a cópia do contrato de fachada, suas mãos tremendo levemente. "Você sabia o que era isso. E me deixou acreditar que era... que era algo diferente."
Ricardo aproximou-se lentamente, o olhar escuro e profundo que tantas vezes a hipnotizou agora carregado de uma dor contida. "Helena, meu amor, não é tão simples. Eu fui forçado a isso."
"Forçado?" Ela riu, um som sem alegria. "O que te força a entrar em um esquema desses? Dinheiro? Poder? Ou você simplesmente se perdeu no caminho?"
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos, um gesto de desespero que ela conhecia bem. "Minha família. Eles me obrigaram. Me ameaçaram."
"Ameaças não justificam trair a confiança de alguém que te ama, Ricardo," ela rebateu, o peito apertado. As palavras de Dona Aurora, a viúva que agora abrigava Helena, ainda ressoavam em sua mente: “Nem todo herói que se apresenta como tal tem um coração puro, minha filha. Às vezes, os mais belos olhos escondem as mais sombrias intenções.”
Helena se lembrava do refúgio seguro que encontrara na casa modesta de Dona Aurora. O abraço acolhedor da viúva, o chá quente que aquecia não apenas o corpo, mas a alma ferida. E a história que Dona Aurora lhe contara, com a voz embargada pela saudade e pela dor de uma vida de sacrifícios. A história de seu falecido marido, um homem honesto que lutou contra as mesmas garras que agora pareciam envolver Ricardo.
"Eu sei o que você pensa," Ricardo disse, seus olhos fixos nos dela, implorando por compreensão. "E eu entendo. Mas há mais. A quadrilha... eles têm o Marcus."
O nome do irmão mais novo de Helena, o garoto que ela tanto amava e protegia, atingiu-a como um golpe físico. Ela cambaleou para trás, a mão cobrindo a boca em choque. "Marcus? O que... o que eles fizeram com ele?"
"Eles o usam como moeda de troca. Para me manter sob controle. Para me garantir que eu faça o que eles querem. Se eu não cooperar, se eu tentar sair... eles o machucam, Helena." A voz de Ricardo falhou. "Eu vejo o medo nos olhos dele toda vez que o encontro. Ele é tão jovem, e está preso nessa teia. Eu não posso deixá-lo."
Helena sentiu uma vertigem. Marcus. Seu Marcus. O sorriso inocente dele, a forma como ele se agarrava à sua mão. O pensamento dele em perigo, nas mãos desses criminosos, era insuportável. A raiva contra Ricardo se misturou a um pavor avassalador.
"E você achou que me envolver nisso seria a solução?" ela perguntou, a voz embargada. "Você achou que eu não ia descobrir? Achou que eu ia ficar quieta enquanto você... enquanto você se afundava?"
"Eu queria te proteger," Ricardo sussurrou, a voz rouca. "Eu não queria que você soubesse da escuridão que me cerca. Queria manter você no seu mundo de cores e luzes. Mas o tempo está se esgotando. Eles estão ficando mais impacientes."
Dona Aurora havia a alertado sobre os perigos de se envolver com homens envolvidos em atividades ilícitas. Ela a havia contado sobre a ruína que a ambição desmedida trouxera ao seu próprio casamento. "A ganância, minha querida, é uma serpente que se alimenta da alma. E quem se deixa morder por ela, raramente escapa ileso."
Agora, Helena via a verdade nessas palavras. Ricardo, o homem por quem seu coração batia descontroladamente, estava emaranhado em algo muito maior e mais perigoso do que ela imaginava. Ele era uma vítima, sim, mas também um cúmplice. E o preço da culpa, ela sabia, podia ser alto demais.
Ela olhou para ele, a máscara de decepção dando lugar a um misto de compaixão e desespero. A imagem de Marcus, inocente e assustado, em cativeiro, a consumia. A necessidade de protegê-lo, de salvá-lo, era mais forte do que qualquer mágoa.
"O que você planeja fazer, Ricardo?" ela perguntou, a voz mais firme agora, a decisão começando a se formar em meio ao caos.
Ele a encarou, um lampejo de esperança misturado à apreensão em seus olhos. "Eu tenho um plano. Um plano arriscado. Mas é a única maneira de tirar Marcus disso. E de me livrar deles."
"E eu?" Helena questionou, o coração batendo forte. "Onde eu me encaixo nesse seu plano?"
Ricardo hesitou por um instante, a hesitação que ela já conhecia, a que precedia as verdades mais difíceis. "Você não se encaixa, Helena. Você precisa ficar longe. Por sua segurança."
Uma lágrima solitária rolou pelo rosto de Helena. Aquele amor, tão intenso, tão avassalador, agora parecia um labirinto escuro, onde cada passo a levava para mais perto do perigo. Mas ela não podia desistir de Marcus. E, por mais doloroso que fosse, ela não podia desistir completamente de Ricardo. Ela precisava entender. Precisava ajudar. Mesmo que isso significasse mergulhar na escuridão que ele tanto tentava esconder dela.
"Eu não posso ficar longe, Ricardo," ela disse, a voz firme, mas tingida de uma tristeza profunda. "Marcus é meu irmão. E você... você é o homem que eu amo. Eu preciso saber o que está acontecendo. E eu preciso tentar ajudar."
Os olhos de Ricardo se arregalaram ligeiramente, uma mistura de surpresa e algo que parecia alívio. Ele sabia que Helena era forte, que ela possuía uma coragem que ele admirava profundamente. Mas ele também sabia o quão perigoso seria envolvê-la em seus problemas.
"Helena, você não entende o perigo," ele implorou, sua voz tensa. "Essas pessoas não brincam. Elas são cruéis. Eu não suportaria se algo acontecesse com você."
"E você acha que eu suportaria ficar aqui, sem fazer nada, sabendo que meu irmão está em perigo? Ou que o homem que eu amo está se perdendo por esse caminho sombrio?" Ela deu um passo à frente, seus olhos brilhando com determinação. "Você me disse que me amava. Amor não é apenas paixão, Ricardo. É também coragem. É lutar por quem você ama, mesmo quando tudo parece perdido."
Ela se aproximou dele, tocando suavemente seu rosto. A pele dele estava fria, tensa. "Eu não vou te deixar sozinho nisso. E não vou deixar Marcus. Seja qual for o seu plano, eu quero fazer parte dele. Eu quero ajudar a te tirar dessa teia."
Ricardo fechou os olhos por um instante, a respiração profunda. A resistência em seu olhar deu lugar a uma resignação dolorosa. Ele sabia que Helena era teimosa, que uma vez que ela tomava uma decisão, era difícil fazê-la mudar de ideia. E, no fundo, uma parte dele desejava ter seu apoio, ter sua força ao seu lado.
"Tudo bem," ele disse finalmente, abrindo os olhos. Havia uma resolução sombria neles. "Mas você precisa confiar em mim. E seguir minhas instruções à risca. O perigo é real, Helena. E as consequências, se falharmos, são inimagináveis."
O coração de Helena disparou. Ela sabia que estava se jogando em um abismo, mas a necessidade de proteger sua família, de salvar Ricardo, era um chamado mais forte do que o medo. Ela assentiu, um movimento firme. "Eu confio em você, Ricardo. E eu estou pronta."
Enquanto a luz do entardecer pintava o ateliê em tons de laranja e roxo, Helena e Ricardo se olhavam, unidos por um fio tênue de amor, medo e um futuro incerto. A vingança sussurrada pela quadrilha parecia pairar no ar, mas a razão de Helena, impulsionada pelo amor e pela necessidade de proteger seu irmão, começava a traçar um novo caminho.