Cativada pelos seus Olhos 171
Capítulo 2 — A Sombra do Passado e um Convite Inesperado
por Camila Costa
Capítulo 2 — A Sombra do Passado e um Convite Inesperado
O aroma de café fresco pairava no ar do apartamento de Clara, misturando-se com o cheiro persistente de chuva que parecia ter se infiltrado em cada canto. A manhã de sábado amanheceu fria e nublada, um reflexo do turbilhão de pensamentos que assombravam Clara desde o encontro inesperado na noite anterior. O rosto de Rafael, seus olhos azuis intensos, sua voz grave, não saíam de sua mente. Ela se pegava revivendo cada segundo, cada detalhe, como se estivesse assistindo a um filme que a envolvia de maneira hipnotizante.
“Só pode ser loucura”, ela murmurou para si mesma, enquanto mexia o açúcar em sua xícara de café, o olhar perdido na janela. “Um homem que surge das sombras, com olhos que parecem te desnudar. Que tipo de história é essa?”
Era a voz da razão, da cautela, tentando domar a faísca de excitação que Rafael havia acendido em seu peito. Clara sempre fora uma pessoa prática, metódica. Seus projetos arquitetônicos exigiam precisão, planejamento, lógica. E Rafael, com toda a sua aura de mistério, era tudo menos lógico.
Ela tentou se concentrar no trabalho, em responder e-mails, em planejar a semana. Mas cada linha de código, cada email, parecia sem cor, sem vida. A intensidade do olhar de Rafael havia pintado o mundo com novas tonalidades, e Clara se sentia incapaz de voltar às cores desbotadas de sua antiga realidade.
O celular vibrou sobre a bancada da cozinha, tirando-a de seu torpor. Era uma mensagem de sua mãe.
“Minha querida Clara! Como você está? Lembre-se do jantar em família amanhã à noite. Sua avó quer te ver, e o seu tio Ricardo virá com a nova namorada, aquela moça… como é o nome dela mesmo? Ah, a Sofia. Venha cedo, por favor. Beijos, mamãe.”
Clara suspirou. O jantar de domingo em família era uma tradição sagrada, mas para ela, muitas vezes, era um exercício de paciência. Sua mãe, sempre preocupada com o status e a vida amorosa da filha, não perdia uma oportunidade de sondá-la. Sua avó, uma matriarca charmosa, mas implacável, adorava fazer comparações e dar conselhos não solicitados. E o tio Ricardo… bem, ele era o exemplo vivo do que Clara evitava em sua vida: um homem de sucesso aparente, mas com um histórico de relacionamentos tumultuados e uma superficialidade que a incomodava.
“Mais um domingo de perguntas sobre quando vou casar e ter filhos”, pensou Clara, com um leve revirar de olhos.
Ela respondeu à mãe, prometendo estar lá, mas sentiu um aperto no peito. A perspectiva de um jantar tão convencional contrastava violentamente com a intensidade do encontro na noite anterior.
Mal terminara de responder quando o celular tocou. Era um número desconhecido. Hesitou por um instante, o coração batendo um pouco mais forte. Seria Rafael? Uma esperança tola, ela sabia.
Atendeu. “Alô?”
“Clara?”, uma voz masculina, firme e polida, respondeu. Era uma voz que Clara reconhecia, mas que a pegou de surpresa.
“Dr. Almeida? É você?”, ela perguntou, um misto de surpresa e apreensão.
Dr. Henrique Almeida era um dos sócios mais importantes do escritório de advocacia para o qual Clara prestava serviços em projetos de arquitetura comercial. Um homem elegante, reservado, conhecido por sua perspicácia e por sua discrição. Eles se conheciam há alguns anos, mas a relação era estritamente profissional.
“Sim, Clara. Espero não estar incomodando em um sábado pela manhã.”
“Não, de forma alguma. O que posso fazer pelo senhor?”
“Na verdade, liguei porque… bem, preciso de um favor. Um favor um tanto peculiar, devo admitir.” A voz dele, geralmente tão controlada, parecia ter um leve tom de hesitação.
Clara franziu a testa. “Favor peculiar? Em que sentido?”
“Estou organizando um evento beneficente discreto para arrecadar fundos para um orfanato de crianças com necessidades especiais. É um evento pequeno, para poucos convidados selecionados. E eu… gostaria de sua ajuda. Especificamente, sua ajuda como convidada.”
Clara ficou confusa. “Como convidada? Eu não entendo, Dr. Almeida.”
“Na verdade, Clara, é um pouco… complicado. Preciso de uma acompanhante para este evento. Alguém que eu possa apresentar como… como alguém especial. Alguém que não levante suspeitas. E, francamente, pensei em você. Sua discrição, sua elegância… você seria perfeita.”
Um acompanhante? Para um evento beneficente? Clara sentiu um frio na espinha. O que Dr. Almeida, um homem de quarenta e poucos anos, viúvo, dedicado à sua carreira, faria com uma acompanhante? E por que ela?
“Dr. Almeida, eu não… eu não tenho certeza se entendi. O senhor está me pedindo para ir com o senhor como sua… namorada?” A pergunta saiu quase como um sussurro.
Houve uma pausa do outro lado da linha. “Algo assim, Clara. Pense nisso como um acordo. Você me faz um favor, e eu… farei o meu melhor para retribuir. Há uma causa nobre envolvida, e, para ser sincero, preciso causar uma boa impressão em certos investidores. E você, com sua presença, certamente me ajudaria.”
Clara respirou fundo. Era uma proposta bizarra. Ela mal conhecia Dr. Almeida fora do ambiente profissional. A ideia de fingir ser algo que não era, especialmente para um homem que ela mal conhecia, a deixava desconfortável. Mas havia algo na voz dele, uma vulnerabilidade discreta, que a intrigava. E a menção de uma causa nobre…
“O evento é quando?”, ela perguntou, mais para ganhar tempo do que por interesse.
“Próximo sábado. No mesmo dia do jantar em família, pelo visto.”
Clara sentiu um misto de alívio e frustração. O jantar em família já seria um desafio. Agora, essa proposta de última hora.
“Eu… eu não sei, Dr. Almeida. É um pedido muito… inesperado.”
“Entendo perfeitamente, Clara. Mas pense nisso. É uma oportunidade de ajudar aquelas crianças. E, quem sabe, talvez você se divirta um pouco. O evento será em uma mansão luxuosa em Higienópolis. Comida excelente, música boa. E você não precisa se preocupar com nada. Eu cuidarei de tudo. Apenas compareça ao meu lado. E, claro, haverá uma compensação financeira generosa pelo seu tempo e… pela sua colaboração.”
Compensação financeira. A palavra pairou no ar, carregada de implicações. Clara sabia que Dr. Almeida era um homem rico, mas essa oferta a fez sentir um frio na barriga. Era uma proposta tentadora, mas carregada de riscos. Que tipo de "colaboração" ele esperava dela, além de sua presença?
“Eu preciso pensar, Dr. Almeida. É uma decisão importante.”
“Claro, Clara. Leve o tempo que precisar. Mas peço que me dê uma resposta até amanhã, se possível. O tempo está um pouco corrido.”
“Eu avisarei”, Clara disse, sentindo o peso da decisão.
Desligou o telefone, a mente a mil. De um lado, a imagem de Rafael, o homem misterioso dos olhos 171 que a havia intrigado profundamente. Do outro, a proposta bizarra do Dr. Almeida, oferecendo uma fuga temporária de sua rotina monótona, mas com um alto grau de incerteza.
Ela se levantou e foi até a cozinha, pegando um pedaço de bolo de chocolate que havia feito na noite anterior. Sentou-se à mesa, o bolo sem gosto em sua boca. Aquele encontro com Rafael havia desestabilizado seu mundo de uma forma que ela não previa. Ela se sentia atraída por ele, por essa imprevisibilidade, mas ao mesmo tempo, a prudência a alertava. Ele era uma sombra, um mistério.
E agora, o Dr. Almeida, com sua proposta de um acordo financeiro, adicionava mais uma camada de complexidade. Era uma oferta de segurança, de estabilidade, mas que parecia esconder intenções obscuras. O que ele esperava dela, de fato? Apenas uma presença elegante, ou algo mais? A ideia de ser uma “acompanhante”, mesmo que para fins beneficentes, a incomodava. Mas a necessidade de escapar da monotonia, de sentir algo diferente, era forte.
De repente, um barulho na porta a assustou. Alguém bateu com força. Clara se levantou, o coração acelerado, pensando ser um ladrão.
“Quem é?”, ela perguntou, a voz tensa.
“Clara? Sou eu, a Lúcia.”
Lúcia era sua vizinha do andar de cima, uma senhora divertida e fofoqueira, mas de bom coração. Clara respirou aliviada.
Abriu a porta e Lúcia entrou, um sorriso largo no rosto, segurando uma travessa coberta com um pano. “Trouxe um pouco do meu bolo de fubá. Ouvi dizer que você estava aí embaixo, resolvi trazer um mimo.”
“Obrigada, Lúcia. Que gentileza sua.” Clara aceitou a travessa, o cheiro do bolo de fubá invadindo o apartamento.
Enquanto Lúcia se acomodava na poltrona da sala, Clara servia um café para ela. Lúcia, como sempre, não demorou a começar a falar sobre a vida do prédio, sobre os vizinhos, sobre as últimas fofocas do bairro. Clara a ouvia com atenção, tentando encontrar alguma clareza em meio à confusão de seus pensamentos.
“E aí, menina? Alguma novidade?”, Lúcia perguntou, após uma pausa. “Você anda tão… pensativa ultimamente.”
Clara hesitou. Deveria contar a Lúcia sobre Rafael? Provavelmente não. Mas sobre a proposta do Dr. Almeida? Talvez. Lúcia, apesar de fofoqueira, era uma boa ouvinte e costumava dar conselhos surpreendentemente sensatos.
“Tive um encontro… diferente na sexta-feira”, Clara começou, sentindo um leve rubor nas bochechas. “E recebi uma proposta de trabalho… um tanto peculiar hoje.”
Ela contou a Lúcia sobre Rafael, omitindo os detalhes mais íntimos, focando na aura de mistério. E depois, contou sobre a ligação do Dr. Almeida, a proposta para ser sua acompanhante em um evento beneficente.
Lúcia ouviu atentamente, os olhos brilhando de curiosidade e de uma sagacidade que Clara admirava. Quando Clara terminou, Lúcia deu um gole em seu café, pensativa.
“Hummm… um homem misterioso com olhos azuis de tempestade e um advogado rico te convidando para ser sua dama de companhia. Clara, minha querida, sua vida de repente ficou mais interessante que novela das oito!”
Clara deu um sorriso fraco. “É exatamente isso que eu penso, Lúcia. E agora, não sei o que fazer.”
“Olha, sobre o advogado… eu não confio muito nesses homens de terno e gravata. Geralmente escondem mais do que mostram. Mas se é por uma boa causa e se ele está disposto a pagar bem… você precisa pesar o que é mais importante para você agora. Precisar do dinheiro? Ou apenas uma aventura?”
Lúcia se inclinou para frente, o olhar penetrante. “E sobre o homem misterioso… olhos azuis de tempestade, você disse? Ele te deixou marcada, né? Essa é a energia do perigo. A gente sabe que não é bom, mas a gente quer. É a nossa natureza, menina.”
Clara assentiu, sem saber o que responder.
“Você tem um jantar em família amanhã, não é?”, Lúcia continuou. “Vá, comemore a vida. Relaxe. E depois, decida. Se eu fosse você… eu consideraria a proposta do advogado. Só para ver onde isso vai dar. E para ter uma noite diferente. Mas com muita, muita cautela, viu? E me conte tudo depois.”
Lúcia se levantou, pegando sua xícara. “Bom, tenho que ir. Mas pense nisso, Clara. O que seu coração quer? O que sua razão diz? E o que a sua conta bancária implora?” Ela piscou para Clara e saiu, deixando um rastro de aroma de fubá e conselhos intrigantes.
Clara ficou sozinha novamente, a cabeça ainda girando. A proposta de Dr. Almeida, por mais bizarra que fosse, oferecia uma distração. Uma chance de sair da sua bolha, de experimentar algo fora do comum. E, talvez, a compensação financeira pudesse aliviar algumas de suas preocupações. Mas a lembrança de Rafael, aqueles olhos azuis que pareciam ler sua alma, a atraía de uma forma muito mais profunda e perigosa.
Ela olhou para a porta por onde Rafael havia desaparecido na noite anterior, para o beco escuro. Havia algo nele que a chamava, um magnetismo irresistível. A possibilidade de uma aventura com ele era assustadora, mas também excitante.
No fim das contas, Clara sentiu uma decisão se formar em seu âmago. Ela precisava de uma mudança. Precisava sentir algo que a tirasse do torpor. Se seria o mistério de Rafael ou o acordo com Dr. Almeida, ela ainda não sabia. Mas uma coisa era certa: a vida em preto e branco de Clara estava prestes a ganhar cores vibrantes e imprevisíveis. E ela estava, de alguma forma, pronta para elas.