O Amor Verdadeiro 172

O Amor Verdadeiro 172

por Ana Clara Ferreira

O Amor Verdadeiro 172

Autor: Ana Clara Ferreira

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Capítulo 6 — O Encontro Inesperado na Praça das Flores

O sol da tarde banhava a Praça das Flores com um dourado suave, pintando as pétalas vibrantes de girassóis e dálias com tons ainda mais intensos. O aroma adocicado das flores se misturava ao cheiro de café recém-passado das barracas espalhadas ao redor, criando uma sinfonia olfativa que sempre acalmava a alma de Sofia. Sentada em um dos bancos de ferro forjado, um livro aberto em seu colo, ela buscava refúgio na leitura, tentando afastar os pensamentos turbilhonantes que a assombravam. A carta de Miguel, aquele convite frio e formal para a reunião de inventário, ainda ardia em sua mente, um lembrete cruel da distância que os separava e das juras que pareciam ter se esvaído como fumaça.

Sofia suspirou, fechando o livro com um baque suave. A trama romântica ali contida parecia um escárnio diante da realidade desoladora de sua vida. Ela acariciou a capa desgastada, um presente de Miguel em um tempo que parecia pertencer a outra pessoa. Um tempo em que os olhares deles se cruzavam com a promessa de um futuro, em que as mãos se buscavam sem hesitar, em que o amor parecia uma certeza inabalável. O que havia acontecido? Onde se perdera a espontaneidade, a cumplicidade, a paixão que os consumia?

Um riso ecoou próximo, quebrando o silêncio introspectivo de Sofia. Levantou os olhos, curiosa. Um grupo de crianças corria atrás de uma bola colorida, suas gargalhadas contagiando o ambiente. Uma menina, com tranças balançando e um sorriso travesso, tropeçou e caiu, esfolando o joelho. Imediatamente, sua mãe correu ao seu encontro, com um olhar de preocupação e carinho. Sofia sentiu um aperto no peito. Era essa a imagem de família que ela tanto almejava, a ternura de um lar construído sobre bases sólidas de amor e compreensão.

Seus olhos vagaram pela praça, absorvendo os detalhes: o casal de idosos compartilhando um sorvete, os jovens casais passeando de mãos dadas, os artistas de rua exibindo seus talentos. Era um mosaico de vidas, de histórias, de anseios. E em meio a essa paisagem familiar, um rosto conhecido, mas inesperado, surgiu na entrada da praça.

O coração de Sofia deu um salto, acelerando como um pássaro em gaiola. Era ele. Miguel. Ele estava ali, a poucos metros de distância, mais bonito e perturbador do que ela se lembrava. Vestia um terno escuro, impecavelmente cortado, que realçava sua postura elegante e a aura de mistério que sempre o envolvia. Seus cabelos escuros estavam ligeiramente desalinhados, como se ele tivesse passado a mão por eles em um gesto de impaciência ou de profunda reflexão. Seus olhos, antes cheios de um brilho terno e apaixonado quando a fitavam, agora pareciam distantes, percorrendo a multidão com uma expressão indecifrável.

Por um instante, Sofia ficou paralisada, o ar rarefeito em seus pulmões. O tempo pareceu congelar. Ela o observou, cada detalhe gravado em sua memória como se fosse a primeira vez que o via. A linha forte de sua mandíbula, o leve vinco entre as sobrancelhas, a maneira como seus ombros largos se moviam com confiança. Ele parecia um estranho, um homem que ela conhecia apenas pelas lembranças nebulosas de um passado glorioso.

Miguel, por sua vez, pareceu sentir seu olhar. Seus olhos varreram a praça e, por um breve momento, se fixaram nos dela. Houve um instante de reconhecimento mútuo, um choque elétrico que percorreu a ambos. O mundo ao redor de Sofia pareceu desaparecer. Apenas ele existia, apenas aquele olhar, carregado de tantos sentimentos inconfessados.

Ele hesitou por um segundo, sua expressão suavizando levemente. Um leve aceno de cabeça, quase imperceptível, foi o que ela recebeu. Sofia sentiu um nó na garganta. Aquele aceno era um cumprimento, uma formalidade fria. Não havia calor, não havia a faísca que antes acendia seu universo. Era o Miguel do contrato, do inventário, do distanciamento calculado.

O coração de Sofia martelava contra suas costelas, uma mistura vertiginosa de dor e uma esperança tola que ela se esforçava para reprimir. Deveria se aproximar? Deveria fingir que não o vira? A ideia de um confronto direto a assustava, mas a perspectiva de vê-lo se afastar sem dizer uma palavra era ainda mais dolorosa.

Miguel começou a caminhar, seu passo firme e decidido, dirigindo-se a um dos cafés mais movimentados da praça. Sofia observou seu movimento, uma angústia crescente se instalando em seu peito. Ela não podia deixá-lo ir assim. Não depois de tudo.

Reunindo uma coragem que ela não sabia possuir, Sofia se levantou. Deixou o livro no banco e, ignorando o frio na barriga e o tremor em suas mãos, começou a caminhar em sua direção. Cada passo era uma batalha contra a vontade de recuar, contra o medo da rejeição.

"Miguel!" A voz de Sofia saiu mais baixa do que pretendia, um sussurro que parecia se perder no burburinho da praça.

Ele parou, virando-se lentamente. A surpresa em seus olhos era evidente, mas rapidamente disfarçada por aquela máscara de indiferença que ele parecia ter aperfeiçoado.

"Sofia," ele disse, seu tom neutro, quase polido. "Que coincidência a gente se encontrar aqui."

A casualidade em sua voz era uma facada. Coincidência? Para ela, aquele encontro era tudo, menos uma coincidência. Era um turbilhão de emoções, um reencontro que ela temia e desejava na mesma medida.

"Coincidência?" Sofia repetiu, um leve tremor na voz. "Eu te vi aqui, Miguel. Eu não sabia que você viria à praça hoje."

"Estava apenas tomando um ar," ele respondeu, desviando o olhar para a agitação ao redor. "E você?"

"Eu sempre venho aqui quando preciso pensar," ela confessou, sua voz ganhando um pouco mais de firmeza. "O cheiro das flores, o barulho das crianças… é um refúgio."

Miguel a observou por um momento, um resquício de algo que poderia ser saudade cruzando seus olhos antes de desaparecer. "Eu me lembro," ele disse, um tom melancólico em sua voz que Sofia não esperava.

Um silêncio constrangedor se instalou entre eles, pesado com o peso de palavras não ditas e de um passado que os assombrava. Sofia sentiu a necessidade de quebrar aquele gelo, de ir direto ao ponto, por mais doloroso que fosse.

"Miguel, sobre a reunião de inventário… eu preciso entender."

Ele suspirou, um som quase inaudível. "Não há muito o que entender, Sofia. É um processo legal. Precisamos resolver as coisas de forma objetiva."

"Objetiva?" A palavra saiu com um tom de incredulidade. "Como se tudo o que vivemos fosse apenas um contrato a ser desfeito? Como se o nosso amor fosse apenas uma linha em um balanço financeiro?"

Ele finalmente a encarou, seus olhos escuros fixos nos dela. Havia uma dor ali, escondida sob a superfície, uma dor que espelhava a sua. "Sofia, você sabe que não é simples assim."

"Então me diga, Miguel! Me diga o que aconteceu! Por que você se distanciou tanto? Por que essa frieza? O que eu fiz de errado?" As lágrimas começavam a embaçar sua visão, mas ela se recusava a chorar na frente dele.

Miguel apertou os lábios, sua mandíbula contraída. "Não se trata do que você fez de errado, Sofia. Se trata de… outras coisas."

"Que outras coisas, Miguel? Fale comigo! Eu estou aqui, te ouvindo!" Sua voz era um apelo, um grito silencioso em meio ao barulho da praça.

Ele olhou em volta, como se procurasse uma saída. "Não é o lugar, Sofia. E o momento também não é o ideal."

"E quando será o momento, Miguel? Quando você decidir que é hora de me encarar? Quando as formalidades do inventário estiverem concluídas e você puder seguir sua vida como se eu nunca tivesse existido?" A amargura tingia suas palavras.

Um lampejo de algo parecido com raiva cruzou o rosto de Miguel. "Você acha que é fácil para mim, Sofia? Acha que eu gosto de te ver assim, sofrendo?"

"E você está sofrendo, Miguel? Porque o que eu vejo é um homem frio, calculista, que se esconde atrás de documentos e formalidades. O que eu vejo é um homem que não me ama mais." A última frase saiu como um golpe, carregada de toda a dor que ela sentia.

Miguel a encarou por um longo momento, seus olhos vasculhando os dela em busca de algo, talvez uma resposta, talvez uma confirmação. "Sofia… você sabe que isso não é verdade."

"Eu não sei mais, Miguel! Você se afastou, você me deixou em pedaços, você me fez acreditar que o nosso amor não era forte o suficiente para superar qualquer obstáculo. E agora você vem com essa conversa de 'não é simples assim'?" Uma lágrima solitária escapou, rolando por sua bochecha.

Ele deu um passo em sua direção, e por um breve instante, Sofia pensou que ele a tocaria, que a abraçaria, que diria algo que quebraria aquela barreira de gelo entre eles. Mas ele parou, as mãos cerradas ao lado do corpo.

"Eu preciso ir, Sofia. Tenho um compromisso." A frieza havia retornado, mais forte do que antes.

"Compromisso?" Sofia riu, um riso amargo e sem alegria. "É claro. Sempre há um compromisso, não é? Um compromisso mais importante do que resolver a verdade sobre nós dois."

Miguel a olhou uma última vez, seus olhos escuros carregados de uma complexidade que Sofia não conseguia decifrar. "Eu te mando uma mensagem," ele disse, sua voz baixa e rouca.

E então, ele se virou e se afastou, desaparecendo entre a multidão, deixando Sofia sozinha na Praça das Flores, com o cheiro adocicado das flores e o gosto amargo da incerteza em sua boca. O livro ainda repousava no banco, uma lembrança silenciosa de um amor que, outrora, parecia tão real e eterno.

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