O CEO e a Secretária 173
Capítulo 7 — A Batalha Silenciosa nos Olhos de Cristal
por Valentina Oliveira
Capítulo 7 — A Batalha Silenciosa nos Olhos de Cristal
O dia seguinte amanheceu com a promessa de drama. Helena se vestiu com cuidado, escolhendo um tailleur azul marinho, a cor que mais realçava o tom de seus olhos, como se quisesse se preparar para um confronto silencioso. A notícia da visita de Sofia Mendes à Zenith Corp. já havia se espalhado como um incêndio, e os burburinhos nos corredores eram quase palpáveis. Ela se sentia como um peão em um jogo de xadrez que desconhecia as regras, mas que já sentia o peso das peças adversárias.
Ao chegar ao escritório, encontrou tudo impecável. A sala de reuniões principal estava pronta, com a mesa polida até brilhar, a água gelada e os copos de cristal alinhados. O café, forte e aromático, já repousava em uma bandeja de prata. Helena se certificou de que tudo estivesse em perfeita ordem, cada detalhe refletindo a precisão que ela tentava projetar, mesmo quando seu interior fervilhava de ansiedade.
Ricardo chegou mais cedo que o habitual, seu semblante sério, mas com um brilho incomum nos olhos. Ele observou Helena por alguns instantes, uma análise silenciosa que a fez sentir como se estivesse sob um microscópio.
“Você cuidou de tudo, Helena?”, ele perguntou, a voz controlada.
“Sim, senhor. Tudo está pronto para a Sra. Mendes.”
Ele assentiu, um gesto quase imperceptível. “Obrigado.”
A porta de vidro do seu escritório se abriu e um perfume inebriante invadiu o ambiente. Sofia Mendes. Alta, esguia, com um vestido vermelho vibrante que acentuava sua figura esbelta e cabelos negros que caíam em cascata pelos ombros. Seus olhos, verdes e penetrantes, eram como esmeraldas, e um sorriso confiante brincava em seus lábios. Ela emanava uma aura de poder e sofisticação que Helena, em sua modéstia elegante, sentiu contrastar violentamente.
“Ricardo, querido!”, Sofia exclamou, sua voz melodiosa, mas com uma nota de possessividade que Helena captou imediatamente. Ela se aproximou e o abraçou, um abraço demorado que ela observou com uma mistura de fascínio e desconforto.
“Sofia. Que bom te ver”, Ricardo respondeu, a voz um pouco mais tensa do que o normal.
Helena desviou o olhar, concentrando-se nos relatórios sobre sua mesa, sentindo-se invisível, uma sombra no cenário que se desenrolava. Mas ela não conseguia ignorar a dinâmica entre eles, a familiaridade que parecia permear cada gesto, cada olhar trocado.
“Tenho os documentos da fusão que discutimos”, Sofia disse, soltando-o e se virando para Helena com um sorriso polido. “E você deve ser a nova secretária. Helena, certo? Ricardo me falou de você.”
A menção de Ricardo ter falado dela a pegou de surpresa. O que ele teria dito? Helena sentiu um misto de receio e um fio de curiosidade. “Sim, Sra. Mendes. Sou Helena. Bem-vinda à Zenith Corp.”
Sofia a examinou com um olhar rápido, avaliativo. “Ricardo tem sorte em tê-la. Ele sempre foi muito exigente com sua equipe.” Havia um tom irônico em sua voz, uma sugestão velada que Helena não soube decifrar.
“Eu apenas faço o meu trabalho, Sra. Mendes”, Helena respondeu, mantendo a voz calma e profissional.
Ricardo interveio, seu olhar fixo em Sofia. “Vamos para a sala de reuniões, Sofia. Tenho algumas propostas que quero discutir com você.”
Enquanto eles se dirigiam para a sala, Helena sentiu um alívio misturado com uma pontada de algo mais. A proximidade de Sofia parecia ter despertado algo em Ricardo, uma tensão que ela não conseguia entender. Ela observou os dois entrarem na sala, o som de suas vozes se misturando ao burburinho do escritório.
Horas se passaram. Helena se dedicou ao trabalho, mas sua atenção era constantemente dividida. Ela ouvia fragmentos das conversas que vazavam pela porta, o riso de Sofia, a voz firme de Ricardo. E em alguns momentos, um silêncio estranho pairava, um silêncio carregado de significados que ela não conseguia captar.
No meio da tarde, a porta da sala de reuniões se abriu e Sofia saiu, com um sorriso triunfante nos lábios. Ela parou perto da mesa de Helena.
“Foi uma conversa produtiva, querida”, Sofia disse, seu olhar fixo nos olhos de Helena. “Ricardo e eu sempre tivemos uma sintonia especial. Compartilhamos uma história, você entende?”
Helena engoliu em seco, sentindo-se desconfortável. “Eu imagino, Sra. Mendes.”
Sofia riu, um som leve e musical. “Ele é um homem complicado, mas tem um bom coração. Você só precisa saber como tocar as cordas certas.” Ela piscou para Helena e se dirigiu para a saída, deixando para trás um rastro de perfume e um ar de mistério.
Quando Ricardo saiu da sala, seu semblante estava mais relaxado, mas uma sombra ainda pairava em seus olhos. Ele se aproximou da mesa de Helena.
“Como foi a visita?”, ela perguntou, sua voz cuidadosamente neutra.
“Produtiva”, ele respondeu. Ele a observou por um momento. “Você parece tensa. Está tudo bem?”
Helena assentiu, tentando disfarçar a confusão e o incômodo que a visita de Sofia havia causado. “Sim, senhor. Apenas um dia cheio.”
Ricardo hesitou, como se quisesse dizer algo mais, mas as palavras pareciam presas em sua garganta. Ele então se virou e voltou para seu escritório, deixando Helena em um turbilhão de pensamentos.
A conversa com Sofia a abalou mais do que ela imaginava. A forma como ela falava de Ricardo, a intimidade insinuada, tudo isso a fez se sentir ainda mais inadequada, mais distante. Ela era a Secretária 173, a parte anônima de sua vida corporativa, e Sofia era a mulher do passado, a que ele conhecia, a que ele parecia… pertencer.
Mais tarde, quando o expediente estava prestes a terminar, Ricardo a chamou em seu escritório. Helena entrou, seu coração batendo mais rápido. Ele estava em pé, olhando pela janela, o sol poente lançando longas sombras no ambiente.
“Helena”, ele disse, sua voz baixa. “Eu… agradeço por ter cuidado de tudo hoje.”
“Não há de quê, senhor.”
Ele se virou para encará-la, seus olhos encontrando os dela. Havia uma vulnerabilidade ali, uma vulnerabilidade que ele raramente demonstrava. “Sofia e eu… temos um passado. Um passado complicado.”
Helena assentiu, ouvindo atentamente.
“Mas isso é passado”, ele continuou, sua voz firme, mas com um tom de incerteza. “O que importa agora é o presente. E o futuro.”
Ele deu um passo em sua direção, diminuindo a distância entre eles. Helena sentiu a respiração ficar presa em sua garganta. O ar pareceu ficar mais denso, carregado de uma eletricidade invisível.
“E o presente”, ele sussurrou, seus olhos fixos nos dela, “parece cada vez mais… interessante.”
Naquele momento, sob o olhar intenso de Ricardo, Helena sentiu o chão se abrir sob seus pés. A batalha silenciosa que travavam, travada nos olhares, nas palavras não ditas, parecia ter chegado a um ponto de virada. Os olhos de cristal de Sofia podiam ter traçado um mapa do passado, mas os olhos de Ricardo pareciam estar traçando um novo caminho, um caminho que a levava para um futuro desconhecido, perigoso e, de alguma forma, incrivelmente tentador.