Amor sem Fronteiras 174

Amor sem Fronteiras 174

por Valentina Oliveira

Amor sem Fronteiras 174

Autor: Valentina Oliveira

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Capítulo 1 — O Encontro Imprevisto na Terra da Saudade

O ar de Gramado, por si só, já carregava um perfume de romance. Era um convite silencioso para que os corações se abrissem, para que as almas se buscassem. E naquela noite fria de junho, sob o manto de um céu estrelado que parecia mais perto do que o comum, as almas de Helena e Rafael estavam prestes a se cruzar num daqueles encontros que a vida tece com fios de destino e acaso.

Helena, com seus trinta e poucos anos, era um furacão contido em um corpo esguio. Os cabelos castanhos, sempre presos em um coque impecável que teimava em soltar alguns fios rebeldes, emolduravam um rosto marcado por uma beleza serena, mas com um brilho nos olhos verdes que denunciava uma alma vibrante, ávida por vivências. Era arquiteta, uma profissional de sucesso em São Paulo, conhecida por sua criatividade e rigor. Mas, naquele momento, a cidade grande parecia um eco distante. Ela estava ali em Gramado para fugir de si mesma, para enterrar as mágoas que a perseguiam como sombras persistentes. A perda recente do seu amor de longa data, um casamento que naufragou em meio a promessas quebradas e silêncios dolorosos, a deixara em frangalhos. A viagem era um refúgio, uma tentativa desesperada de reencontrar o ar que lhe faltava.

Rafael, por outro lado, era a personificação do gaúcho que carrega a terra nos ossos e a paixão no peito. Dono de uma vinícola no Vale dos Vinhedos, mas com uma paixão antiga por cavalgadas e noites estreladas, ele possuía uma beleza rústica que encantava. A barba por fazer, os olhos azuis penetrantes que pareciam enxergar a alma, e um sorriso largo que prometia confidências. Aos seus quase quarenta anos, Rafael tinha a experiência de quem já viveu intensamente, tanto no amor quanto na dor. Viúvo há cinco anos, a partida abrupta de sua esposa, Laura, um amor que ele considerava a luz de sua vida, o deixara marcado. Ele cuidava de seus vinhedos com a mesma dedicação com que cuidava de suas memórias, um guardião silencioso de um amor que se recusava a morrer.

A noite começou em um dos charmosos bistrôs de Gramado, um lugar com lareira crepitante e aroma de chocolate quente. Helena, encolhida em um canto, observava a neve artificial cair suavemente pelas janelas, sentindo uma pontada de melancolia. Pediu um vinho tinto, a única companhia que lhe parecia adequada naquela solidão autoimposta. Rafael, por sua vez, havia sido arrastado por amigos para a mesma cidade, em uma tentativa de animá-lo. Ele era mais reservado, o tipo de homem que guardava suas tristezas a sete chaves, mas a companhia dos amigos era um bálsamo.

Enquanto Helena suspirava, perdida em pensamentos, o garçom, um jovem com um sorriso atrapalhado, tropeçou em um tapete e derrubou uma bandeja carregada de bebidas. O líquido espalhou-se pelo chão, espirrando em algumas mesas. Helena, pega de surpresa, sentiu o vinho frio bater em suas calças e em seu casaco elegante. Uma pontada de irritação a atravessou, mas o desespero do garçom a fez ceder a um sorriso contido.

Foi nesse instante que Rafael a viu. Ele estava sentado a algumas mesas de distância, observando a cena com um misto de diversão e compaixão. A maneira como ela sorriu, mesmo em meio ao transtorno, a delicadeza em sua postura, o modo como ela tentou tranquilizar o garçom, tudo isso capturou sua atenção. Algo nela o atraiu de imediato, uma força invisível que o puxava para perto.

Ele se levantou, ignorando os protestos dos amigos, e caminhou em direção à mesa dela. "Deixe-me ajudá-la", disse ele, com a voz rouca e acolhedora. Seus olhos azuis encontraram os verdes dela, e um arrepio percorreu a espinha de Helena.

"Não se preocupe, foi só um pequeno acidente", respondeu Helena, tentando soar o mais natural possível, embora seu coração estivesse acelerado. A presença dele era avassaladora, uma aura de força e gentileza que a desarmou.

Rafael pegou um guardanapo e começou a limpar a mancha em suas calças. Seus dedos longos e fortes roçaram os dela, e um calor inesperado se espalhou pelo corpo de Helena. "Ainda assim, não é agradável ficar com cheiro de vinho derramado", ele disse, com um leve sorriso. "Sou Rafael."

"Helena", ela respondeu, sentindo-se levemente corada. "E obrigada, mas não precisa se incomodar."

"De forma alguma. É o mínimo que posso fazer. A vida às vezes nos joga uns contra os outros, não é mesmo? Ou nos joga vinho em cima", ele completou, rindo baixinho. A leveza com que ele lidava com a situação a surpreendeu.

Os amigos de Rafael, percebendo a conversa, se aproximaram. "Rafael, o que você está fazendo aí? Vamos, você prometeu nos acompanhar para dançar!" disse um deles, um homem alto e de riso fácil.

Rafael hesitou por um momento, olhando de volta para Helena. "Desculpe, Helena. Meus amigos são um pouco insistentes. Mas talvez… talvez pudéssemos continuar essa conversa mais tarde? Se você não se importar, claro."

Helena sentiu um impulso inesperado de dizer sim. Algo naquela noite, naquele homem, a convidava a sair da sua zona de conforto, a se permitir um respiro da sua própria dor. "Talvez. Eu estarei no café da praça, tomando um chocolate quente. Se eu ainda estiver por lá."

Rafael sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto. "Eu a encontrarei. Garanto que não vou mais derrubar nada em ninguém."

Ele se virou e seguiu seus amigos, deixando Helena com uma sensação estranha e reconfortante. Aquele encontro casual, quase cômico, havia acendido uma fagulha em meio à escuridão que a envolvia. Ela observou Rafael se afastar, a silhueta forte e confiante. Uma parte dela sabia que deveria voltar para a sua solidão, mas outra, mais audaciosa, sussurrava para que ela esperasse.

Helena pediu mais uma taça de vinho, mas desta vez com um novo interesse. O vinho parecia ter um sabor diferente, mais intenso. Ela observou o movimento lá fora, a neve artificial caindo, as luzes de Natal cintilando. A noite fria de Gramado, antes um símbolo de sua solidão, começava a ganhar contornos de esperança.

Rafael, por sua vez, sentiu-se estranhamente revigorado. A conversa com Helena, por mais breve que tenha sido, dissipou um pouco da melancolia que o acompanhava. Havia algo na fragilidade e na força dela que o tocou. Ele se lembrava de Laura, da sua risada, do seu jeito de ver o mundo. Mas Helena era diferente, um novo capítulo que se abria, sem que ele sequer tivesse se dado conta.

Ele sabia que seria difícil se aproximar de alguém novamente. O luto era um companheiro silencioso e exigente. Mas algo em Helena o fez sentir que o amor, mesmo quando se pensava ter acabado, poderia encontrar novas formas de florescer. Ele sentia que, talvez, o destino, naquele exato momento, estivesse lhe oferecendo uma segunda chance.

Enquanto os amigos o puxavam para a pista de dança, Rafael não conseguia tirar Helena da cabeça. Ele já estava imaginando o sabor do chocolate quente, a conversa que teriam, o brilho nos olhos dela ao contar suas histórias. A noite em Gramado, que prometia ser apenas mais uma noite de fuga, transformara-se, de repente, em um convite para a vida. A vida, com suas surpresas, seus acasos, e a promessa sempre latente de um novo amor.

Helena, sentindo o calor do vinho descer pela garganta, sorriu. Era um sorriso genuíno, algo que não sentia há muito tempo. A solidão ainda estava ali, pairando no ar, mas agora ela se sentia menos pesada, menos sufocante. O encontro com Rafael fora um sopro de ar fresco, um raio de sol em um dia nublado. Ela decidiu que ficaria mais um pouco no café. Quem sabe o destino, aquele que a trouxera até ali, não reservava mais surpresas para aquela noite?

O garçom, agora mais tranquilo, veio à sua mesa. "Senhorita, posso oferecer mais alguma coisa? Um café? Um chá?" Helena olhou para ele, e depois para a porta do café. "Um chocolate quente, por favor. Bem quentinho."

Ela esperaria. Esperaria pela possibilidade de um novo encontro, de uma nova conversa, de um novo começo. A terra da saudade, naquele instante, parecia também ser a terra da esperança.

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