Amor sem Fronteiras 174
Amor sem Fronteiras 174
por Valentina Oliveira
Amor sem Fronteiras 174
Capítulo 16 — A Tempestade Iminente
O ar na Casa do Rio, antes tão sereno, agora pesava com a eletricidade de uma tempestade que se formava não apenas no céu, mas na alma de Clara. A notícia, um raio que a atingira em cheio, reverberava em seu peito como um tambor descompassado. Tio Armando, o pilar de sua infância, o homem que a ensinara a amar as estrelas e a respeitar a terra, envolvido em algo tão sombrio? A ideia era tão descabida quanto encontrar uma flor de lótus em pleno sertão.
Sentada à beira do rio, a água espelhava a turbulência em seu interior. As folhas das mangueiras dançavam ao vento, prenúncio do que viria. A imagem de seu tio, seu rosto marcado pelo sol e pela sabedoria, agora se contorcia em sua mente, sobreposta às palavras frias e calculistas de Dr. Almeida. A teia de mentiras, como o advogado a chamara, era mais densa e emaranhada do que jamais imaginara.
"Impossível", murmurou, a voz rouca e embargada. As lágrimas, antes contidas, agora rolavam livremente, traçando caminhos em seu rosto. Cada gota parecia levar consigo um pedaço da inocência que ela ainda teimava em manter. Como ela pôde não ver? Como pôde ser tão cega?
Gabriel a encontrou ali, encolhida sob a mangueira mais frondosa, o corpo tremendo não apenas pelo frio que começava a se instalar com a aproximação da noite, mas pela magnitude da dor. Aproximou-se devagar, o coração apertado pela angústia que transparecia em cada poro dela.
"Clara?", chamou suavemente, a voz um bálsamo em meio ao caos.
Ela ergueu o rosto, os olhos vermelhos e inchados, a expressão de quem viu o mundo desmoronar. Ele se sentou ao seu lado, sem tocá-la, respeitando o espaço de seu sofrimento.
"Ele mentiu para mim, Gabriel. Tio Armando. Ele... ele está envolvido nisso tudo." As palavras saíam em soluços, dilacerando o silêncio. "Dr. Almeida disse que há provas. Documentos. Contratos."
Gabriel suspirou, o peso do mundo recaindo sobre seus ombros. Ele sabia que a revelação seria devastadora, mas testemunhar a dor de Clara era uma tortura particular. Ele estendeu a mão e pousou-a sobre o ombro dela, um gesto de solidariedade, de força compartilhada.
"Eu sei que é difícil acreditar, meu amor. Mas as mentiras não duram para sempre. Um dia, a verdade sempre encontra um caminho." Ele apertou levemente seu ombro. "E você não está sozinha nisso. Eu estou aqui."
Clara se virou para ele, buscando refúgio em seus olhos. A força que emanava dele era um farol em sua escuridão. Ela se aninhou contra seu peito, buscando o calor que a tempestade externa e interna parecia querer roubar. Gabriel a abraçou forte, sentindo-a tremer contra si.
"Eu não sei o que fazer, Gabriel. Se for verdade... como eu vou olhar para ele de novo? Como eu vou acreditar em alguém?" A voz dela estava abafada contra seu peito.
"Primeiro, você precisa respirar", disse ele, a voz firme e tranquilizadora. "Vamos enfrentar isso juntas. Uma coisa de cada vez. Amanhã, nós vamos falar com ele. Vamos exigir a verdade. E se ele não estiver disposto a dar, nós vamos encontrá-la por conta própria."
A promessa de Gabriel trouxe um fio de esperança, por mais tênue que fosse. Clara assentiu, o rosto ainda enterrado em seu ombro. O rio, testemunha silenciosa de tantos segredos, continuava seu curso indiferente, enquanto a natureza parecia ecoar a melancolia e a tensão que pairavam sobre a Casa do Rio. As primeiras gotas de chuva começaram a cair, grossas e pesadas, como lágrimas do céu, anunciando a chegada da tempestade que transformaria suas vidas para sempre.