Amor sem Fronteiras 174
Capítulo 17 — O Confronto na Varanda do Sítio
por Valentina Oliveira
Capítulo 17 — O Confronto na Varanda do Sítio
O sol da manhã nascia tímido, filtrando-se por entre as nuvens carregadas que ainda pairavam sobre Paraty. Clara, com a noite mal dormida e o coração em desalento, não sentia o calor reconfortante da aurora. A imagem do rosto envelhecido de seu tio Armando, associada agora às palavras de Dr. Almeida, era um peso constante em sua consciência. A mentira, sutil e sorrateira, corroía os alicerces de sua confiança.
Gabriel a observava enquanto ela preparava o café, os movimentos mecânicos, o olhar perdido no horizonte. Ele sabia que o momento de encarar o tio era iminente, e a ansiedade de Clara era palpável.
"Você tem certeza que quer ir?", perguntou, a voz suave, tentando não adicionar mais pressão.
Clara se virou para ele, um brilho de determinação misturado à incerteza em seus olhos. "Eu preciso, Gabriel. Eu não posso viver com essa dúvida roendo minha alma. Preciso ouvir dele. Preciso entender."
O caminho até o sítio foi marcado por um silêncio denso, quebrado apenas pelo barulho dos pneus no cascalho e pelo som distante dos pássaros. Ao chegarem, a familiaridade do lugar, o cheiro de terra molhada e das flores do jardim, parecia zombar da escuridão que os envolvia. A casa, com suas janelas abertas para o mar, exalava uma aura de paz que, para Clara, agora parecia uma fachada cuidadosamente construída.
Encontraram Armando na varanda, sentado em sua poltrona de vime, o olhar fixo no horizonte, o mesmo olhar sereno de sempre. Mas Clara não conseguia mais ver a serenidade. Via agora a possibilidade de um disfarce, de uma máscara.
"Tio Armando", disse Clara, a voz trêmula, mas firme.
Ele se virou, um sorriso acolhedor brotando em seus lábios, mas que vacilou ao notar a tensão nos rostos dela e de Gabriel. "Clara! Gabriel! Que surpresa boa. Venham, sentem-se. Que ventos os trouxeram tão cedo?"
O convite parecia um eco distante de tempos mais felizes. Clara sentou-se em uma cadeira próxima, Gabriel ao seu lado, o corpo tenso, pronto para o embate.
"Tio, eu preciso conversar com o senhor sobre algo sério", começou Clara, buscando as palavras. "Eu descobri algumas coisas... sobre os negócios. Sobre o passado."
Armando franziu a testa, o sorriso desaparecendo. A expressão de acolhimento deu lugar a uma cautela que Clara nunca tinha visto. "Que coisas, minha querida?"
"Dr. Almeida me procurou", disse Clara, observando cada reação do tio. "Ele falou sobre irregularidades, sobre contratos que não parecem corretos. E o nome do senhor apareceu em alguns desses documentos."
O silêncio que se seguiu foi mais ensurdecedor do que qualquer grito. Armando olhou para o mar, o rosto contraído em uma expressão ilegível. A brisa do mar agitava seus cabelos brancos.
"Almeida...", murmurou ele, como se a pronúncia do nome trouxesse de volta memórias incômodas. Ele finalmente voltou o olhar para Clara, e nela, viu um reflexo da dor e da desconfiança que ela sentia.
"Clara, meu amor, eu sei que isso pode parecer confuso", começou ele, a voz calma, mas com um tom de resignação. "Mas as coisas nem sempre são o que parecem. A vida, especialmente quando se lida com negócios, é complexa."
"Complexa ou desonesta, tio?", a pergunta escapou dos lábios de Clara com uma doçura cruel. "Eu quero entender. O senhor estava envolvido naquele esquema da Terra Roxa? O senhor sabia que estavam usando meu pai para encobrir algo?"
Armando fechou os olhos por um instante, como se a dor daquelas palavras fosse um golpe físico. Quando os abriu, uma tristeza profunda pairava neles. "Seu pai... seu pai foi um homem bom, Clara. Um homem de honra. E ele amava você mais do que tudo."
"E o senhor também o amava, não é, tio?", a voz de Clara agora carregava a força da decepção. "Então me diga, como o senhor pôde permitir que o nome dele fosse usado dessa forma? Como o senhor pôde se envolver com pessoas que mancharam a memória dele?"
Gabriel sentiu a dor de Clara transbordar, e estendeu a mão para segurar a dela, um apoio silencioso.
Armando suspirou, um som pesado e cansado. "Clara, a vida me apresentou escolhas difíceis. Seu pai e eu tínhamos uma dívida antiga, um acordo. Ele me ajudou em um momento de grande necessidade, e eu prometi honrar isso. Mas às vezes, para honrar uma promessa, é preciso fazer coisas que não são... ideais."
"Não ideais?", a voz de Clara subiu de tom, a mágoa crescendo. "O senhor está falando de fraude, tio! De mentiras! O senhor, que me ensinou sobre a importância da verdade!"
"Eu errei, Clara. Eu sei que errei", disse Armando, a voz embargada. "Eu estava preso em uma teia de obrigações e ameaças. Achei que estava protegendo você, protegendo a memória do seu pai, impedindo que essa história viesse à tona de uma forma pior."
"E o senhor achou que a melhor forma de me proteger era me deixar viver em uma mentira?", a voz de Clara agora era um lamento. "O senhor me roubou a verdade! Roubou de mim a chance de conhecer o meu pai pelo que ele realmente era, e não como uma peça em um jogo sujo!"
As lágrimas voltaram a rolar pelo rosto de Clara, e desta vez, Armando não conseguiu contê-las também. Uma lágrima solitária desceu por sua bochecha enrugada, traçando um caminho de remorso. A varanda, que antes era um refúgio de paz, agora se tornava o palco de um rompimento doloroso, onde a verdade, finalmente desenterrada, deixava para trás um rastro de mágoa e desilusão. O mar, antes calmo, parecia rugir com a intensidade da tempestade emocional que se abatia sobre eles.