Amor sem Fronteiras 174
Amor sem Fronteiras 174
por Valentina Oliveira
Amor sem Fronteiras 174
Capítulo 6 — A Sombra da Dúvida em São Paulo
O ar de São Paulo, denso e pulsante, parecia sufocar Helena naquela tarde. As ruas agitadas, o burburinho constante, tudo era um contraste gritante com a serenidade que ela buscava em seu coração. Dias haviam se passado desde a sua volta, dias preenchidos por compromissos sociais, reuniões de trabalho que pareciam mais um borrão do que uma realidade concreta, e, acima de tudo, pela presença assombrosa de Ricardo.
Ele estava lá, em cada canto daquela imensa cidade, em cada pensamento que teimava em se fixar. A fragrância sutil de seu perfume, que ela jurava sentir no vento que soprava pela varanda do apartamento de luxo, a faziam prender a respiração. As lembranças daquele verão inesquecível em Paraty, do toque dele em sua pele, dos beijos que a faziam esquecer o mundo, eram como feridas abertas, que doíam com a intensidade de quem ainda não cicatrizou.
Helena se olhou no espelho, o reflexo de uma mulher que parecia ter perdido um pedaço de si. Os olhos, antes cheios de um brilho vibrante, agora carregavam uma melancolia velada. Ela tentava se concentrar no trabalho, na gestão da filial brasileira da empresa de importação de vinhos que herdara de seu pai, mas a mente divagava, sempre voltando para o litoral fluminense, para a casa dos avós de Ricardo, para o homem que a fizera sentir coisas que ela nunca imaginou ser possível.
Naquela noite, um jantar de gala em prol de uma instituição de caridade reuniria o que havia de mais influente na sociedade paulistana. Helena sabia que Ricardo estaria lá. Ele era um dos principais patrocinadores do evento, um empresário de sucesso, admirado e cobiçado. A perspectiva de reencontrá-lo, sob os holofotes, em meio a sorrisos falsos e conversas vazias, lhe causava um misto de apreensão e um desejo irresistível.
Vestiu um longo vestido de seda azul-marinho, que realçava a cor de seus olhos. Escolheu joias discretas, mas de valor inestimável. Queria se apresentar impecável, mas, por dentro, sentia-se desmoronar. A dualidade de sua vida a corroía: de um lado, a herdeira, a mulher de negócios respeitada; de outro, a amante, a mulher que amava um homem com uma intensidade avassaladora, um amor que parecia condenado por circunstâncias que ela ainda não compreendia totalmente.
Ao chegar ao salão deslumbrante, o burburinho cessou por um instante, como se um silêncio reverente pairasse sobre os convidados. Os flashes das câmeras explodiram, e Helena sentiu o peso dos olhares sobre si. Era a rainha da noite, a joia rara. Mas, em meio à multidão, seus olhos a procuraram. E ali estava ele.
Ricardo, impecável em seu terno escuro, conversava com um grupo de empresários. Seu sorriso era o mesmo que a derretia, seus olhos escuros transmitiam uma confiança que a fazia se sentir pequena. Ele a viu. Um leve aceno de cabeça, um sorriso discreto que só ela entenderia. O ar pareceu rarefeito.
Helena se dirigiu à mesa principal, cumprimentando as personalidades com a polidez que a educação lhe ensinara. Mas cada fibra de seu ser estava direcionada a ele. Sentou-se ao lado de sua tia, Dona Beatriz, uma mulher elegante e perspicaz, que percebeu a agitação da sobrinha.
"Algo te incomoda, querida?", perguntou Dona Beatriz, com a voz suave, mas atenta.
Helena forçou um sorriso. "Nada, tia. Apenas o cansaço da viagem."
"Sei. Ou talvez seja a volta para esta selva de pedra depois de tantos dias de paz", ela sugeriu, com um leve deboche. "Paraty não te fez bem, Helena?"
O coração de Helena acelerou. Sua tia sabia mais do que aparentava. Ou talvez a simples menção de Paraty fosse o gatilho para sua própria turbulência interior. "Paraty foi... especial", respondeu, escolhendo as palavras com cuidado.
"E special como o Ricardo, suponho", Dona Beatriz disse, com um tom que misturava diversão e seriedade. "Vi que ele está aqui. Ele parece ter se tornado um homem de grande importância."
"Ele é", Helena confirmou, sem desviar o olhar para onde Ricardo estava. "Sempre foi."
O jantar transcorreu em meio a discursos emocionados e leilões beneficentes. Helena, por mais que tentasse, não conseguia se concentrar. A cada vez que Ricardo cruzava seu olhar, sentia uma corrente elétrica percorrer seu corpo. Ele se aproximou de sua mesa algumas vezes, trocando breves cumprimentos, sempre com uma formalidade que escondia a intimidade que eles haviam compartilhado.
"Você está linda, Helena", ele disse em um desses momentos, a voz baixa, rouca, carregada de um significado que só eles entendiam.
"Obrigada, Ricardo. Você também", ela respondeu, sentindo o rubor subir às suas bochechas.
"E como anda a vida em São Paulo?", ele perguntou, a curiosidade genuína em seus olhos.
"Correndo, como sempre. E você? Parece que os negócios vão de vento em popa."
"Estou tentando dar o meu melhor. Como sempre", ele respondeu, um véu de mistério em sua voz. "E você? Está feliz?"
A pergunta pegou Helena de surpresa. Era uma pergunta simples, mas carregada de um peso imenso. Feliz? Ela estava com saudade, confusa, dividida. A felicidade parecia um conceito distante, algo que ela havia experimentado brevemente em Paraty e que agora parecia ter se esvaído como fumaça.
"Estou... trabalhando duro", ela respondeu, desviando o olhar.
Ricardo a observou por um instante, seus olhos penetrantes parecendo ler a alma dela. "Entendo. A vida de empresária não é fácil." Ele fez uma pausa. "Talvez um dia possamos conversar com mais calma. Sem pressa, sem o barulho de São Paulo."
A promessa pairou no ar, um fio tênue de esperança e desejo. Helena assentiu, um nó se formando em sua garganta. "Seria bom."
Quando a noite se aproximava do fim, Helena o viu se despedir de um grupo de amigos e caminhar em sua direção. O coração disparou. Ele parou a poucos passos dela, a luz suave do salão iluminando seu rosto.
"Helena", ele começou, a voz baixa. "Eu sei que as coisas são complicadas. Mas eu... eu não consigo te esquecer."
As palavras dele foram como um bálsamo e um veneno. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. "Ricardo, eu também não consigo te esquecer. Mas o que podemos fazer? Você tem sua vida, eu tenho a minha..."
"E o que importa é o que sentimos, não é?", ele interrompeu, a intensidade em seus olhos crescendo. "O que vivemos em Paraty... aquilo foi real, Helena. Mais real do que qualquer coisa que eu já senti."
Ela o olhou, a alma exposta em seu olhar. A dúvida, porém, espreitava nas sombras. A distância entre eles era imensa, não apenas em quilômetros, mas em vidas construídas, em responsabilidades. Ela se sentia dividida entre o desejo avassalador de se jogar nos braços dele e o medo de se machucar novamente, de se perder em um amor que parecia impossível.
"Eu não sei se podemos, Ricardo", ela sussurrou, a voz embargada. "As coisas mudaram."
Ele deu um passo à frente, a mão estendida como se quisesse tocá-la, mas parou no meio do caminho. "As coisas podem mudar de novo, Helena. Se nós quisermos."
A possibilidade, a esperança tênue, mas vibrante, flutuou entre eles. Mas, naquele momento, as palavras de Ricardo ecoaram em sua mente, mas a sombra da dúvida pairava sobre São Paulo, sobre suas vidas, sobre o futuro incerto do amor deles. O que eles poderiam fazer? A pergunta ecoava em sua mente, sem resposta, deixando um rastro de incerteza e um desejo ardente que teimava em não se apagar.