Amor sem Fronteiras 174
Capítulo 7 — O Passado Revelado em São Paulo
por Valentina Oliveira
Capítulo 7 — O Passado Revelado em São Paulo
A noite em São Paulo terminara com uma promessa no ar, um fio tênue de esperança entre Helena e Ricardo. No entanto, a manhã seguinte trouxe consigo não a clareza, mas uma nova onda de incertezas e a inevitável realidade de suas vidas separadas. Helena acordou com o peso do sono leve e a mente turbulenta. Os ecos das palavras de Ricardo reverberavam em sua memória, mas a pragmática São Paulo parecia zombar de seus sentimentos.
Ela se levantou e foi para a varanda, o sol nascente pintando o céu de tons alaranjados e rosados, mas a beleza parecia distante. O barulho do trânsito, que nunca cessava, era um lembrete constante da cidade onde ela construíra sua carreira, onde seus pais haviam deixado um legado. Um legado que, de certa forma, a prendia ali.
Seus pensamentos vagaram para a conversa com Ricardo. Ele falara de seus sentimentos, da intensidade do que viveram. Mas, e quanto aos detalhes? Quanto ao motivo pelo qual ele se afastara tão abruptamente? Havia um silêncio, um véu de segredo que pairava sobre o passado dele, um passado que Helena sentia que precisava desvendar para poder avançar.
Naquele mesmo dia, Helena agendou uma reunião com seu advogado, Dr. Armando. Era uma visita de rotina, para acertar alguns detalhes burocráticos da empresa, mas ela sentia que precisava sondar algo mais. Dr. Armando era um homem discreto e confiável, que conhecia a família de Helena há anos.
Ao entrar no escritório elegante e austero do advogado, Helena sentiu um misto de alívio e ansiedade. Ela sabia que podia confiar nele, mas a informação que ela buscava era delicada.
"Helena, que surpresa agradável", Dr. Armando disse, com um sorriso profissional. "Sente-se, por favor. O que a traz por aqui?"
"Dr. Armando, preciso de uma informação, algo que talvez o senhor possa me ajudar a descobrir", Helena começou, escolhendo as palavras com cuidado. "É sobre o Ricardo. Ricardo Monteiro."
O advogado levantou uma sobrancelha, a surpresa genuína em seus olhos. "Ricardo Monteiro? O empresário? O que ele tem a ver com os seus negócios, Helena?"
"Não diretamente com os meus negócios, mas... com o passado", ela explicou, sentindo o rubor subir às bochechas. "Precisamos de um tempo em Paraty, e ele estava lá. E nós... tivemos algo."
Dr. Armando ficou em silêncio por um momento, processando a informação. Ele conhecia a fama de Ricardo Monteiro, um homem de negócios implacável, mas reservado. "Algo? E o que o senhor gostaria de saber sobre ele?", ele perguntou, com uma cautela evidente.
"Eu preciso entender o porquê de ele ter se afastado tão bruscamente. Ele nunca explicou, e eu... eu sinto que há algo que não me foi dito." Helena hesitou. "O senhor conhece a família dele? Ou tem algum contato profissional que possa me dar alguma luz sobre o passado dele, sobre os motivos que o levaram a se isolar de certas pessoas?"
Dr. Armando suspirou, um leve pesar em sua voz. "Helena, o mundo dos negócios é complexo, e as relações pessoais, ainda mais. Eu conheço o Ricardo Monteiro como um homem de negócios sério e competente. Mas o passado dele é algo que ele sempre manteve sob sigilo. Seus pais faleceram quando ele era jovem, e ele foi criado por uma tia, se não me engano. Pouco se fala sobre isso. Ele construiu sua fortuna com muito esforço, longe dos holofotes e de qualquer escândalo."
"Mas a família... ele tem alguma família em São Paulo?", Helena insistiu, a esperança de encontrar um fio condutor.
"Não que eu saiba. Ele é um homem solitário, em grande parte. Dedicado aos seus negócios. Sabe, Helena, às vezes, as pessoas carregam fardos que não compartilham. Fardos que as levam a tomar decisões difíceis." O advogado a olhou com empatia. "Se ele se afastou, pode haver razões que vão além do que você imagina. Talvez ele quisesse te proteger de algo, ou a si mesmo."
As palavras de Dr. Armando ecoaram como um presságio. Proteger? Proteger de quê? Helena se sentia cada vez mais perdida. A imagem de Ricardo, forte e autossuficiente, lutando contra algo desconhecido, a deixava ainda mais intrigada e apreensiva.
"Eu não entendo", ela murmurou. "Nós tivemos algo tão puro, tão bonito. Por que ele se afastaria assim?"
"Talvez a pureza dele não fosse tão simples quanto parecia", Dr. Armando respondeu, com um tom de cautela. "O mundo de Ricardo Monteiro, Helena, é um mundo de poder, de influência e, muitas vezes, de segredos. Ele é um sobrevivente. E sobreviventes aprendem a se proteger de qualquer forma que considerem necessária."
A conversa deixou Helena ainda mais perturbada. Ela saiu do escritório de Dr. Armando com a mente cheia de interrogações e um aperto no peito. A imagem de um Ricardo solitário, carregando fardos desconhecidos, contrastava com o homem apaixonado que ela conhecera em Paraty. Seria possível que aquele homem, tão intenso e vibrante, também escondesse uma escuridão?
Naquela tarde, enquanto se dedicava a relatórios financeiros, o telefone tocou. Era um número desconhecido. Hesitante, ela atendeu.
"Alô?", disse.
"Helena?", uma voz masculina, grave e ligeiramente rouca, respondeu. Era Ricardo.
O coração de Helena deu um salto. A voz dele, mesmo por telefone, tinha o poder de agitá-la. "Ricardo! Que surpresa. Como conseguiu meu número?"
"Tenho meus meios", ele respondeu, com um tom que misturava diversão e um quê de mistério. "Eu preciso falar com você. Urgente."
"Urgente?", Helena repetiu, a ansiedade aumentando. "Sobre o quê?"
"Não podemos falar por telefone. É algo que precisa ser discutido pessoalmente. Encontramo-nos no mesmo lugar de sempre, em Paraty, assim que possível."
"Mas Ricardo, eu estou em São Paulo. E você...", ela tentou argumentar.
"Eu arrumo um jeito de ir. Ou você arranja um jeito de voltar. Precisamos conversar, Helena. Agora." A urgência em sua voz era inegável. "Houve um imprevisto. Algo que envolve o passado. E eu não posso mais esconder isso de você."
Um arrepio percorreu a espinha de Helena. O passado. Ele mesmo mencionara isso. O que teria acontecido? Quem mais estaria envolvido?
"O que é, Ricardo? Você está me assustando."
"Eu te explico tudo quando nos encontrarmos. Esteja lá em dois dias. É importante." A ligação foi encerrada antes que Helena pudesse responder.
Helena ficou paralisada, o telefone ainda na mão. Dois dias em Paraty. A cidade que guardava as memórias mais doces e agora parecia prestes a revelar seus segredos mais sombrios. O que Ricardo escondia? Qual era o imprevisto que o levava a procurá-la com tanta urgência? A sombra da dúvida em São Paulo se dissipara, dando lugar a uma escuridão ainda maior, uma que envolvia o passado de Ricardo e que ameaçava consumir o futuro deles. Ela sabia que precisava ir, que não podia mais fugir do que estava por vir.