A Noiva do Bilionário 176
A Noiva do Bilionário 176
por Camila Costa
A Noiva do Bilionário 176
Capítulo 1 — O Sussurro da Sereia Dourada
O sol, com sua impiedosa magnificência, derramava ouro líquido sobre as águas da Baía de Guanabara, transformando o azul profundo em um espelho cintilante para o céu carioca. No terraço da mansão que se debruçava sobre o mar, em Joá, Luiza Alencar sentia o sal na pele, um carinho familiar que a reconectava às suas raízes, um contraste gritante com o luxo gélido que a cercava. O vestido de seda branca, escolhido a dedo pelas mãos de stylists renomados, pesava em seus ombros como uma armadura. Cada detalhe – o bordado intrincado em renda chantilly, a cauda esvoaçante que ameaçava tropeçar em seus próprios sonhos – parecia gritar o status do homem que estava prestes a desposar.
Arthur Drummond. O nome ecoava nos corredores de poder e nas manchetes de fofoca com a mesma intensidade. Um titã dos negócios, um homem que moldava mercados e corações com a mesma frieza calculista. E ela, Luiza, a órfã modesta de Niterói, a artista plástica que encontrou na tela o refúgio de uma vida marcada pela perda, agora estava ali, prestes a se tornar a senhora Drummond.
O ar estava carregado de uma expectativa quase palpável. O burburinho dos convidados, a música clássica suave que tentava, em vão, mascarar a tensão, o aroma das flores importadas misturando-se ao perfume caro que ela usava. Mas, para Luiza, tudo parecia distorcido, como um quadro impressionista que ela ainda não conseguia decifrar. Seus olhos, de um verde profundo que parecia ter absorvido a própria imensidão do oceano, percorriam a multidão. Buscavam, não a aprovação, mas um sinal. Um sinal de que aquele caminho, tão trilhado por outros, era, de fato, o seu.
Sua madrinha, Helena Sampaio, uma amiga de infância que a viu crescer em meio às dificuldades e agora deslumbrada com o brilho dessa nova vida, ajustou o véu com um sorriso reconfortante. Helena sabia dos sacrifícios, das lutas de Luiza para se formar, para construir seu nome na arte, para, ironicamente, fugir da necessidade que agora parecia aprisioná-la naquele altar dourado.
“Você está linda, Luiza”, sussurrou Helena, a voz embargada pela emoção. “Arthur tem sorte. Muita sorte.”
Luiza ofereceu um sorriso fraco, um vislumbre do que um dia foi seu sorriso genuíno. “Obrigada, Lena. Você sempre soube o que dizer.”
Mas as palavras de Helena, por mais sinceras que fossem, não conseguiam apagar a voz que sussurrava em seu interior, uma melodia dissonante que ela tentava abafar com o tilintar das taças de champanhe. Era a voz da sua intuição, um pressentimento gélido que a fazia questionar tudo. O amor que Arthur professava era real? Ou era apenas mais um de seus grandiosos negócios, a aquisição de uma obra de arte rara e exótica para sua coleção?
Seus pensamentos foram interrompidos pelo som suave de um violino solo, anunciando a entrada triunfal do noivo. Arthur Drummond adentrou o salão principal, acompanhado pelo seu padrinho, seu irmão mais velho, Ricardo Drummond. Era uma presença imponente, um homem esculpido em mármore e aço. Seus cabelos escuros, levemente grisalhos nas têmporas, emolduravam um rosto de feições fortes, olhos azuis penetrantes que pareciam enxergar além das aparências. Vestido com um smoking impecável, ele emanava um poder discreto, mas inegável.
Luiza sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não era o arrepio do amor apaixonado que ela tanto imaginara sentir ao cruzar o caminho do seu futuro marido. Era algo mais complexo, uma mistura de admiração, receio e… uma curiosidade insaciável. Havia uma aura de mistério em Arthur, um abismo de emoções que ele parecia manter cuidadosamente guardado sob a máscara de sua frieza empresarial.
Enquanto Arthur se aproximava, seus olhos encontraram os de Luiza. Por um instante fugaz, ela viu algo cru, algo humano por trás da armadura de poder. Um lampejo de vulnerabilidade, um vislumbre de algo que ela não conseguia nomear. Mas então, a máscara retornou, e ele ofereceu um sorriso polido, um sorriso que não alcançava seus olhos.
O padre iniciou a cerimônia, suas palavras solenes ecoando no silêncio reverente. Luiza se concentrou nas palavras, nas promessas que estava prestes a fazer. Promessas de amor, de companheirismo, de fidelidade. Mas, enquanto trocava os olhares com Arthur, uma imagem insistente invadia sua mente: a de uma sereia dourada, presa em uma rede de ouro, debatendo-se em busca de liberdade, mas atraída pelo brilho hipnotizante do tesouro submerso.
“Você aceita Arthur Drummond como seu legítimo esposo, para amá-lo e honrá-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias de sua vida?”
A voz do padre parecia distante, abafada pelo som das ondas quebrando suavemente contra as rochas lá embaixo. Luiza fechou os olhos por um breve segundo. Respirou fundo o perfume das rosas brancas, o mesmo perfume que Arthur lhe enviara na primeira vez que a pediu em casamento, uma semana após o primeiro encontro. Um gesto grandioso, digno de um bilionário.
“Sim”, a palavra saiu, quase como um sussurro, mas firme o suficiente para ser ouvida por todos. Um nó se desfez em sua garganta, mas outro, mais pesado, se formou em seu peito.
Quando Arthur colocou a aliança em seu dedo, sentiu um toque frio, mas firme. E então, ele a beijou. Um beijo técnico, educado, desprovido da paixão que ela ansiava, mas que selou o pacto. Um pacto entre duas almas que, talvez, estivessem mais distantes do que a proximidade física do momento permitia.
O final da cerimônia foi marcado por aplausos entusiasmados. A festa começou, um espetáculo de opulência e sofisticação. Luiza sorria, acenava, bebia champanhe, mas sua mente estava em outro lugar. Em Niterói, em sua casa modesta, em seus pincéis e telas. Em um passado que parecia cada vez mais distante, mais irreal.
Enquanto Arthur a conduzia para a pista de dança, ela se permitiu um último olhar para o mar. O sol se punha, tingindo o céu de tons alaranjados e rosados. Parecia um prenúncio. Um prenúncio de que, talvez, aquele casamento dourado fosse, na verdade, o início de um longo e árduo crepúsculo. E a sereia dourada, presa em sua rede, ainda lutava pela sua liberdade.