A Noiva do Bilionário 176
Capítulo 5 — O Legado da Galeria e o Sussurro do Passado
por Camila Costa
Capítulo 5 — O Legado da Galeria e o Sussurro do Passado
A lua de mel em Paris, outrora idealizada como um refúgio de romance e cumplicidade, transformara-se em um palco de silêncios tensos e diálogos evasivos. Luiza, a cada dia, sentia a distância entre ela e Arthur aumentar, um abismo invisível que se aprofundava com a frieza calculista dele e a crescente necessidade dela de reafirmar sua própria identidade. A opulência do apartamento na Champs-Élysées, as vistas deslumbrantes da Torre Eiffel, tudo parecia um cenário grandioso para um drama pessoal que ela travava em silêncio.
Arthur, percebendo a crescente reclusão de Luiza, tentava compensar com gestos grandiosos. Ele a levava a jantares em restaurantes estrelados, a passeios de barco pelo Sena, a eventos sociais onde ambos eram o centro das atenções. Mas, para Luiza, esses gestos pareciam mais uma forma de controle, de exibição, do que de genuína conexão.
“Você precisa se divertir, Luiza”, Arthur disse uma noite, enquanto a conduzia por um salão lotado de convidados elegantes. “Você é a Sra. Drummond agora. O mundo espera que você brilhe.”
Luiza sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. “Eu brilho quando me sinto vista, Arthur. Não quando me sinto em exposição.”
Arthur suspirou, um gesto que se tornara familiar. “Você é uma mulher… intensa. Às vezes, acho que você complica as coisas desnecessariamente.”
A intensidade de Luiza era a mesma paixão que a impelia a criar arte, a mesma força que a mantinha firme em suas convicções. Era essa intensidade que Arthur parecia querer domar, domesticar, moldar à sua própria imagem.
Um dia, Arthur anunciou uma visita à prestigiada Galeria Dubois. Era um dos centros de arte mais renomados de Paris, e Luiza, como artista, sentiu uma faísca de genuíno interesse.
“É uma oportunidade incrível, Luiza”, Arthur disse, com um tom de quem estava lhe fazendo um grande favor. “O curador, Monsieur Dubois, é um amigo meu. Ele está ansioso para conhecer seu trabalho.”
Luiza sentiu um misto de excitação e apreensão. A possibilidade de ter seu trabalho exposto em uma galeria tão importante era um sonho, mas a motivação de Arthur parecia mais ligada à exibição do que à apreciação genuína de sua arte.
Ao chegarem à galeria, Luiza foi imediatamente cativada pela beleza do espaço. As obras de arte eram expostas com uma elegância minimalista, cada peça em seu devido lugar, iluminada de forma a realçar sua singularidade. Ela se sentiu em casa, em seu elemento.
Enquanto Arthur conversava com Monsieur Dubois, Luiza se afastou, explorando as salas com os olhos atentos. Ela se perdeu em frente a uma tela abstrata, um turbilhão de cores vibrantes que falava diretamente à sua alma. Estava tão absorta em sua contemplação que não percebeu a aproximação de alguém.
“Uma bela peça, não é mesmo?”, uma voz masculina disse, com um sotaque francês charmoso.
Luiza se virou e encontrou um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos elegantes e olhos azuis penetrantes, que emanava uma aura de sofisticação e conhecimento. Era Monsieur Dubois.
“Sim, é deslumbrante”, Luiza respondeu, sentindo-se um pouco intimidada pela presença dele. “A forma como o artista utilizou a cor… é pura emoção.”
Monsieur Dubois sorriu. “Você é artista, não é mesmo? Sinto isso em seu olhar.”
Luiza assentiu, um pouco sem graça. “Sou. Luiza Alencar Drummond.”
Os olhos de Dubois se arregalaram ligeiramente. “Ah, a Sra. Drummond. Arthur me falou muito de você. E ele tem razão. Você tem um brilho especial nos olhos.” Ele fez uma pausa, observando-a com atenção. “Seu trabalho tem a mesma intensidade? A mesma alma?”
Luiza sentiu um calor subir às suas bochechas. Era raro encontrar alguém que a compreendesse tão rapidamente. “Eu espero que sim, Monsieur Dubois. Eu pinto o que sinto. E sinto muito.”
Arthur se aproximou, com um sorriso polido no rosto. “Luiza, Monsieur Dubois estava elogiando seu interesse pelas peças. Ele também estava ansioso para ver suas telas. Tenho certeza de que ele ficará impressionado.”
Monsieur Dubois dirigiu-se a Arthur com um aceno de cabeça. “De fato, Arthur. A Sra. Drummond possui um olhar apurado. E eu ficaria honrado em exibir seu trabalho aqui, um dia.”
A notícia fez o coração de Luiza disparar. A Galeria Dubois! Era um sonho que ela mal ousara acalentar.
“Eu… eu ficaria muito honrada, Monsieur Dubois”, ela gaguejou, a emoção transbordando.
Arthur sorriu, um sorriso de satisfação. “Eu sabia que você ficaria. Contratarei você para organizar a exposição completa. Será um evento grandioso.”
Luiza sentiu um misto de alegria e estranheza. Arthur já estava planejando os detalhes, transformando seu sonho em mais um evento organizado por ele.
Enquanto Arthur e Monsieur Dubois discutiam os pormenores da futura exposição, Luiza se afastou novamente, buscando um canto mais tranquilo. Ela se sentou em um banco de veludo, observando as obras de arte, e seus pensamentos vagaram. Lembrou-se de sua mãe, Clara, e de seus próprios sonhos. Clara sempre a incentivou a perseguir sua arte, a nunca se conformar com menos do que seu coração desejava.
De repente, seus olhos pousaram em uma obra que a fez prender a respiração. Era um retrato, pintado com uma técnica magistral, de uma jovem com olhos verdes profundos e um sorriso enigmático. A semelhança com ela era inconfundível, mas havia algo mais… algo no olhar da retratada, uma tristeza velada, uma força contida, que a fez sentir uma conexão profunda.
Luiza se aproximou da obra, seu coração batendo acelerado. Havia uma pequena placa de identificação na base da tela. “Clara Alencar. ‘A Sereia Dourada’.”
Clara Alencar. Sua mãe. E o título… A Sereia Dourada. Era o mesmo título que ela havia imaginado para si mesma, naquele primeiro dia de casamento.
Um arrepio percorreu sua espinha. Como era possível? Arthur nunca mencionara que sua mãe havia exposto em Paris, muito menos em uma galeria tão renomada.
Ela se virou, procurando Arthur, mas ele estava imerso na conversa com Monsieur Dubois. Luiza sentiu uma urgência em descobrir mais. Ela se aproximou de Monsieur Dubois.
“Monsieur Dubois”, ela disse, a voz embargada pela emoção. “Esta obra… ‘A Sereia Dourada’. Foi pintada por minha mãe, Clara Alencar?”
Monsieur Dubois a olhou com surpresa. “Sim, Sra. Drummond. Uma obra magnífica. Uma das mais celebradas de Clara Alencar. Ela foi uma artista de imenso talento, que infelizmente se foi cedo demais.” Ele fez uma pausa, como se se lembrasse de algo. “Seu marido, Arthur, adquiriu esta peça há alguns anos. Disse que era uma homenagem a você.”
Arthur adquiriu a obra de sua mãe? Uma homenagem a ela? Luiza sentiu um nó na garganta. Aquele homem, que ela pensava ser tão frio e calculista, carregava em seu âmago um segredo tão profundo, uma conexão com sua mãe que ela desconhecia. Era um gesto de amor, ou mais uma jogada calculada em seu complexo jogo de aparências?
Enquanto Arthur a conduzia para fora da galeria, Luiza se sentiu dividida. A alegria de ver a obra de sua mãe exposta em Paris era imensa, mas a descoberta levantava ainda mais perguntas sobre Arthur e seu passado. O legado da galeria, o sussurro do passado de sua mãe, tudo se misturava em um turbilhão de emoções. Ela havia se casado com o bilionário, mas agora, mais do que nunca, sentia a necessidade de desvendar o mistério que envolvia o homem ao seu lado e o legado da mulher que lhe dera a vida. A sereia dourada, que ela sentia dentro de si, estava prestes a emergir das profundezas, em busca de respostas.