Seduzida pelo Inimigo 179
Capítulo 2 — A Proposta Irrecusável e o Passado Sombrio
por Camila Costa
Capítulo 2 — A Proposta Irrecusável e o Passado Sombrio
A noite avançava lenta e silenciosa na fazenda Santa Madalena, mas para Helena, o sono era um luxo inatingível. Deitada em sua cama, sob o dossel de renda que parecia guardar seus sonhos mais antigos, ela revivia cada instante do encontro com Ricardo Bastos. A varanda colonial, o perfume das damas-da-noite, o barulho do carro na terra batida, a figura imponente dele surgindo da poeira. E, acima de tudo, o olhar dele, uma mistura de cálculo, desejo e uma frieza que a deixava em alerta constante.
Ricardo Bastos. O nome ecoava em sua mente como um mantra, um presságio. Ele era a personificação de tudo que ela lutava para evitar: a perda da fazenda, a desintegração de seu legado familiar. Mas havia algo nele que a perturbava mais profundamente. Uma força bruta, uma beleza perigosa, uma promessa de perdição que, por mais que ela tentasse negar, a atraía.
Ela se levantou, caminhando pela sala de estar da casa grande, iluminada apenas pela luz fraca de um abajur. As fotografias antigas nas paredes a observavam com olhos acusadores. Seus pais, sorrindo em dias mais felizes, pareciam sussurrar em seu ouvido o peso da responsabilidade que ela carregava. Como eles haviam permitido que a situação chegasse a esse ponto? Como ela, a única a assumir as rédeas após a morte deles, não fora capaz de evitar a ruína?
O advogado de Ricardo, um homem impecável e frio chamado Dr. Almeida, havia lhe enviado uma carta formal no dia seguinte. Detalhava a dívida de forma brutal e apresentava a proposta de Ricardo. Não era apenas uma oferta de compra da fazenda. Era uma proposta complexa, que envolvia a quitação das dívidas em troca de… algo mais. Algo que Helena não conseguia decifrar completamente, mas que soava alarmante.
"A proposta de meu cliente, Senhor Ricardo Bastos, visa não apenas a aquisição da propriedade rural Santa Madalena, mas também a reestruturação de sua situação financeira, mediante um acordo de confidencialidade e cooperação mútua."
Cooperação mútua? Confidencialidade? Que tipo de acordo era aquele? Helena sentiu um calafrio. Ricardo Bastos era um homem conhecido por seus negócios agressivos e, muitas vezes, questionáveis. O que ele poderia querer de uma fazendeira com dívidas?
Ela passou os dedos pelas fotos, a imagem de seu pai, com seu sorriso aberto e mãos calejadas pelo trabalho na terra, trazendo lágrimas aos seus olhos. Ele amava a Santa Madalena com todo o seu ser. Teria orgulho dela por lutar, mas se sentiria traído se ela cedesse a um homem como Ricardo.
No dia seguinte, o carro de Ricardo surgiu novamente na estrada de terra, pontualmente às dez da manhã. Helena esperava-o na varanda, vestindo um vestido simples de algodão, mas com uma postura que tentava transmitir confiança.
Ricardo desceu do carro, o mesmo porte de imperador, a mesma beleza intimidadora. Hoje, ele usava uma camisa branca impecável, que contrastava com sua pele bronzeada e seus olhos escuros. Ele trazia consigo uma pasta de couro.
"Bom dia, senhorita Helena," ele disse, o tom cordial, mas com aquela mesma intensidade que a desestabilizava. "Vejo que está pronta."
"Bom dia, Senhor Bastos," Helena respondeu, esforçando-se para manter a voz firme. "Por favor, entre."
Ela o conduziu para a sala de estar, onde o abajur ainda iluminava o ambiente. O contraste entre a rusticidade da mobília antiga e a presença sofisticada de Ricardo era gritante.
"Tomei a liberdade de trazer os documentos," Ricardo disse, colocando a pasta sobre a mesa de centro. Ele se sentou em uma poltrona de couro, convidando-a a sentar-se em frente a ele. "Acredito que já recebeu a proposta preliminar de meu advogado."
Helena assentiu, sem tirar os olhos dele. "Sim. Mas confesso que não entendi bem o que o senhor espera em troca de cobrir todas as minhas dívidas."
Ricardo sorriu, um leve curvar de lábios que não alcançava os olhos. "O que eu espero, senhorita Helena, é uma oportunidade. Uma oportunidade de investir em um negócio promissor."
"Um negócio promissor? O senhor se refere à minha fazenda?" Helena franziu a testa. "Uma fazenda endividada?"
"Uma fazenda com potencial," Ricardo corrigiu. "Um lugar com história, com terra fértil, com uma beleza que pode ser explorada de diversas formas. Pense em turismo, em eventos, em produtos gourmet. A Santa Madalena pode ser muito mais do que tem sido."
Ele abriu a pasta, revelando documentos detalhados. "A proposta é simples: eu quito todas as suas dívidas, assumindo também os juros acumulados, e em troca, a fazenda se torna minha. Mas há um detalhe. Eu lhe darei um período de cinco anos para que você, sob minha supervisão e investimento, possa reerguer a fazenda e torná-la lucrativa novamente. Ao final desses cinco anos, se a fazenda gerar o lucro acordado em contrato, ela volta a ser sua. Caso contrário…"
O "caso contrário" pairou no ar, carregado de ameaças. Helena sentiu um nó na garganta. Era um plano audacioso, quase irreal. Dar a ela cinco anos para salvar o que parecia perdido? E sob a supervisão dele?
"E se eu não conseguir?" Helena perguntou, a voz embargada.
Ricardo a encarou, seus olhos escuros penetrando em sua alma. "Então, a fazenda será minha para sempre. E você, senhorita Helena, terá que cumprir a segunda parte do acordo."
"Segunda parte?" Helena se assustou. "Qual segunda parte?"
Ricardo sorriu, um sorriso enigmático. "Você se tornará minha gestora pessoal. Trabalhará para mim, em meus negócios. Com um salário generoso, é claro. E, em troca de minha 'benevolência' em lhe dar esta chance, você me dedicará sua lealdade e… sua companhia."
Helena o olhou com horror. Companhia? O que ele queria dizer com isso? Um calafrio percorreu seu corpo. Ele a queria como uma… amante? A ideia era repugnante, humilhante.
"O senhor está louco?" Helena exclamou, levantando-se abruptamente. "Eu jamais aceitaria trabalhar para o senhor, muito menos dedicar minha 'companhia' a alguém como o senhor!"
Ricardo permaneceu calmo, apenas observando-a com uma expressão impassível. "Entendo sua revolta. Mas pense nas alternativas, senhorita Helena. Sem esta proposta, você perderá tudo. A fazenda irá a leilão, seus bens serão confiscados, e você ficará sem nada. Com a minha proposta, você tem uma chance real de salvar a Santa Madalena. E se falhar, terá um futuro garantido, com um bom emprego e um salário que lhe permitirá viver confortavelmente."
Ele se levantou também, caminhando em direção a ela. "E quanto à 'companhia'… não sou um monstro, senhorita Helena. Eu sou um homem de negócios. E sei o valor de uma mulher inteligente e determinada. Pense nisso como um investimento. Um investimento em você. E, talvez, um investimento em algo mais."
Ele parou a poucos centímetros dela, o olhar intenso. Helena sentiu o cheiro de seu perfume, uma fragrância amadeirada e masculina que a embriagou. A proximidade dele era avassaladora.
"Eu tenho meus próprios segredos, senhorita Helena," Ricardo disse, a voz mais baixa, quase um sussurro. "E talvez a sua presença em minha vida possa me ajudar a lidar com eles. Talvez sua alma antiga, sua conexão com a terra, possa me trazer algo que o mundo dos negócios jamais me deu."
Helena sentiu o chão sumir sob seus pés. Ele era mais complexo do que ela imaginava. Um homem de negócios implacável, sim, mas também alguém com feridas profundas, com um passado sombrio que o assombrava.
"Eu… eu preciso pensar," ela gaguejou, incapaz de sustentar o olhar dele por muito tempo.
Ricardo sorriu, um sorriso que agora parecia conter uma pitada de vitória. "Claro. Pense com calma. Mas não demore muito. A situação financeira da fazenda é crítica, e os credores não são tão pacientes quanto eu."
Ele pegou sua pasta. "Estarei aguardando sua resposta. E lembre-se, senhorita Helena, esta é a sua única chance real de manter a Santa Madalena em seu nome."
Ele se virou e caminhou em direção à porta, deixando Helena sozinha na sala, com o peso da proposta de Ricardo Bastos e a sombra de seu passado pairando sobre ela. A beleza da fazenda, que antes a confortava, agora parecia um espelho de sua própria fragilidade. E a figura de Ricardo, a personificação de sua ruína, agora se tornara também a personificação de uma esperança perigosa e inesperada.