O Homem que Amei 180
Capítulo 7 — O Encontro Inesperado e a Chama Reavivada
por Camila Costa
Capítulo 7 — O Encontro Inesperado e a Chama Reavivada
O burburinho do mercado de peixe em Porto das Galinhas era uma cacofonia de vozes animadas, o cheiro forte de peixe fresco misturado ao aroma doce de frutas tropicais. Helena, com um lenço cobrindo os cabelos para disfarçar seus traços e um chapéu de palha abaixado, caminhava entre as barracas, tentando se misturar à multidão. Cada passo era um ato de coragem, um afastamento das sombras da casa de Dona Aurora e um mergulho no mundo real, um mundo que ela precisava enfrentar para encontrar o que havia perdido.
Ela buscava informações, pistas, qualquer coisa que a levasse a Lucas. Os últimos dias haviam sido de calma forçada, de reflexão sob o céu estrelado do Nordeste. Dona Aurora, com sua sabedoria serena, a encorajava a esperar, a se curar, mas Helena não podia mais esperar. A incerteza sobre o paradeiro de Lucas era um fardo pesado demais para carregar.
— Procuro um homem... Lucas. Ele é artista, talvez tenha vindo para cá recentemente. Alguém o viu?
As perguntas soavam tímidas, quase inaudíveis no meio do barulho. As respostas eram sempre negativas, um mar de "não sei" que a afundava ainda mais na frustração. Ela sentia os olhares curiosos sobre si, como se pudesse sentir o medo e a angústia que a envolviam.
Enquanto se virava para sair de uma barraca de artesanato, esbarrou em alguém. Um corpo forte a sustentou antes que pudesse cair.
— Desculpe! Que desastrada eu sou! — Helena disse, sem sequer olhar para o rosto do homem.
— Sem problemas. Acontece. — A voz era grave, familiar, mas ela estava tão imersa em sua busca que não a registrou de imediato.
Quando finalmente levantou o olhar, o mundo ao seu redor pareceu parar. O barulho do mercado se desvaneceu, as cores se tornaram mais vibrantes, e o ar ficou rarefeito. Diante dela, com os olhos arregalados de surpresa e um misto de incredulidade e alegria que iluminou seu rosto, estava ele. Lucas.
— Helena? É você mesmo? — Ele mal conseguia acreditar no que via.
Helena sentiu as pernas tremerem. Aquele sorriso, aquele olhar que ela tanto idealizou em seus sonhos... estava ali, real, diante dela. Lágrimas começaram a brotar em seus olhos, não de dor, mas de um alívio avassalador.
— Lucas! Meu Deus, Lucas! — Ela se jogou em seus braços, apertando-o com toda a força que possuía. Era um abraço de reencontro, de saudade, de gratidão pela vida que lhes fora devolvida.
Lucas a abraçou de volta, sentindo o corpo magro e fragilizado dela contra o seu. Ele a sentia, mas também sentia a distância que a havia marcado.
— Helena, você está aqui! Eu... eu pensei que tinha perdido você para sempre. O que aconteceu? Por que você sumiu? Eu te procurei por toda parte!
As perguntas vieram em um torrente, um misto de alívio e angústia. Ele a soltou um pouco, apenas para poder olhar em seus olhos, para ver se a mulher que ele amava estava realmente ali, inteira.
— Eu também pensei que tinha perdido você. Foi tudo tão... complicado.
Helena tentou falar, mas as palavras pareciam presas em sua garganta. A emoção era avassaladora. Lucas percebeu a dificuldade dela e a puxou para mais perto, guiando-a para fora do burburinho do mercado, em direção a um quiosque mais afastado, onde o som do mar era mais audível.
— Calma, calma. Estamos juntos agora. É isso que importa. — Ele disse, acariciando seu rosto. — Você está bem? Eu sinto... você parece diferente.
Helena assentiu, ainda lutando para controlar as lágrimas.
— Eu passei por muita coisa, Lucas. Muita coisa mesmo.
Lucas olhou para as mãos dela, notando as pequenas cicatrizes, o emagrecimento sutil. Uma ruga de preocupação marcou sua testa.
— Você está ferida?
— Não fisicamente, não mais. Mas a alma...
— Eu entendo. Eu também senti que minha alma se partiu quando você desapareceu. Pensei que Ricardo tivesse feito algo com você.
O nome de Ricardo causou um arrepio em Helena. A sombra dele ainda pairava sobre sua vida, mas agora, com Lucas ao seu lado, ela se sentia mais forte.
— Ele... ele me encontrou. Tentou me manter presa.
Lucas cerrou os punhos, a raiva surgindo em seus olhos.
— Aquele desgraçado! Eu sabia! Eu sabia que ele não te deixaria em paz.
— Mas eu consegui fugir. Eu... eu fui para uma ilha. Um lugar tranquilo. Para me curar. Para pensar. Para tentar te encontrar.
— Uma ilha? Por que você não me procurou antes?
— Eu não sabia por onde começar, Lucas! E eu precisava de tempo. Tempo para me recompor. Para entender o que estava acontecendo. E você... você estava em meus pensamentos todos os dias. Eu rezava para que você estivesse bem.
Lucas a abraçou novamente, desta vez com mais ternura, mas também com uma força que transmitia a profundidade de seu amor e alívio.
— Eu também, meu amor. Eu também. Eu nunca desisti de você. Nunca. Fiquei esperando, procurando. Não podia acreditar que você tinha ido embora sem mais nem menos.
Eles ficaram ali, abraçados, as ondas quebrando suavemente na areia como uma trilha sonora para o reencontro. O sol, que antes parecia causticante, agora era um beijo caloroso em suas peles.
— O que aconteceu depois que eu... você sabe... desapareci? — Helena perguntou, a voz baixa, hesitando em reviver os detalhes.
Lucas a afastou gentilmente, seu olhar transmitindo preocupação.
— Eu fui atrás de você. Falei com Ricardo, mas ele disse que você tinha ido embora por conta própria, que não queria mais nada comigo. Ele foi cruel, Helena. Manipulador. Eu não acreditei nele, mas não tinha para onde ir. Fui para a casa da minha tia no interior, para tentar clarear a mente, mas cada dia era uma tortura. Pensava em você, em como você estaria.
— E você não me procurou mais?
— Eu procurei. Falei com todos que conhecíamos. Fui até o seu antigo endereço, mas você já tinha sumido. Parecia que o mundo tinha te engolido. Eu estava desesperado.
Helena sentiu um aperto no peito. Ela sabia que Ricardo havia mentido, mas ouvir de Lucas a confirmação de sua crueldade a encheu de uma raiva fria.
— Ele me manteve isolada, Lucas. Ele me fez refém. Por isso eu sumi. Por isso não pude te procurar.
Lucas a olhou nos olhos, buscando a verdade ali. E ele a encontrou. A dor, o medo, a força que emanava dela.
— Então ele te machucou?
— Ele tentou me quebrar, Lucas. Mas não conseguiu. Porque eu sabia que você existia. Eu sabia que o nosso amor era real.
Lucas beijou a testa dela, um beijo terno e cheio de promessas.
— E o nosso amor é mais forte do que qualquer homem como Ricardo, Helena. Mais forte do que qualquer escuridão.
Eles passaram o resto da tarde sentados à beira-mar, contando um ao outro as suas versões da história, preenchendo os buracos deixados pela ausência. Helena falou sobre o medo, sobre a sensação de estar presa, sobre a sua fuga desesperada. Lucas falou sobre a sua angústia, sobre a sua busca incessante, sobre o amor que nunca diminuiu.
Ao cair da noite, sob o céu estrelado que parecia testemunhar a felicidade deles, Lucas a beijou. Um beijo que era a soma de toda a saudade, de todo o amor, de toda a esperança que os mantivera vivos. Era um beijo de reencontro, um beijo que selava a promessa de um futuro juntos. A chama que parecia extinta havia sido reacendida, mais forte e brilhante do que nunca. Helena sabia que a luta contra Ricardo ainda não havia terminado, mas agora, ela não estava mais sozinha. Tinha Lucas ao seu lado, e juntos, eles eram invencíveis.