Entre Sombras 182
Capítulo 4 — A Travessia das Águas Turvas
por Camila Costa
Capítulo 4 — A Travessia das Águas Turvas
O iate "Serenidade" era um espetáculo de luxo sobre as águas, uma embarcação que parecia desafiar as leis da natureza com sua imponência e beleza. Mas para Helena, não havia serenidade ali, apenas a agitação de um mar revolto em seu interior. O capitão do iate, um homem corpulento e de poucas palavras chamado Raul, era o contato de Ricardo. Ele conhecia as águas caribenhas como a palma de sua mão, e a ilha de Elias Vargas era um mistério que o intrigava.
"A ilha de Vargas fica a três dias de navegação daqui, senhorita Helena", disse Raul, com sua voz rouca e firme. "É um lugar de difícil acesso, protegido por recifes e correntes traiçoeiras. Apenas quem conhece bem os mapas consegue chegar lá."
Helena assentiu, observando o horizonte se estender diante deles. O azul intenso do oceano parecia engolir o céu, criando uma sensação de isolamento e vastidão. A cada milha náutica que se distanciavam do continente, a realidade se tornava mais palpável: eles estavam embarcando em uma missão de alto risco, em busca de um homem que talvez não quisesse ser encontrado, ou pior, que talvez já não estivesse mais entre os vivos.
Ricardo, sempre o planejador meticuloso, já havia traçado um plano. "Quando chegarmos perto da ilha, Raul vai nos deixar em uma pequena baía escondida. De lá, teremos que nos infiltrar. Vargas não espera ninguém, mas ele certamente terá seguranças na ilha."
"Quantos seguranças você acha que ele terá?", perguntou Helena, a voz embargada pela preocupação.
"Difícil dizer. Vargas é paranoico. Mas não será um exército. Acredito que um grupo seleto, bem treinado, mas o suficiente para nos deter se não formos cuidadosos."
Helena sentiu um aperto no estômago. A imagem de Rodolfo, preso em algum lugar naquela ilha, a impulsionava. Ela não podia pensar em desistir.
Os dias de travessia foram longos e tensos. A monotonia do mar era quebrada apenas pelas conversas estratégicas de Ricardo e pelas poucas palavras de Raul. Helena passava horas no convés, o vento salgado em seus cabelos, tentando encontrar em meio à imensidão azul alguma resposta para o sumiço de Rodolfo. A cada onda que batia no casco do iate, ela sentia um eco das próprias incertezas, um lembrete da fragilidade de sua esperança.
Na manhã do terceiro dia, Raul anunciou: "Estamos nos aproximando. A ilha de Vargas está logo ali, envolta em uma névoa que ela mesma parece criar."
Helena olhou para o horizonte e, de fato, uma densa névoa se erguia sobre o mar, escondendo a silhueta da ilha. Era como se a própria natureza tentasse proteger os segredos de Elias Vargas.
Raul manobrou o iate com maestria, contornando os recifes perigosos e chegando a uma pequena enseada escondida entre rochas imponentes. A vegetação era densa e exuberante, um verde selvagem que parecia engolir qualquer vestígio de civilização.
"Este é o ponto de desembarque", disse Raul. "Eu ficarei aqui em modo de espera. Se precisarem de mim, usem o comunicador. Mas sejam rápidos e discretos. Vargas não é alguém com quem se brinca."
Helena e Ricardo desceram do iate, seus passos afundando na areia grossa da praia. A ilha parecia deserta, mas uma sensação de vigilância pairava no ar. O silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelo som das ondas e pelo canto exótico de pássaros invisíveis.
"Vamos manter um perfil baixo", sussurrou Ricardo. "Precisamos encontrar um ponto de observação seguro para avaliar a situação."
Eles avançaram pela mata, a vegetação espessa dificultando a progressão. O ar era úmido e pesado, com o cheiro forte de flores tropicais e terra molhada. Após alguns minutos de caminhada, chegaram a uma clareira que oferecia uma vista parcial da propriedade de Vargas. Era uma mansão imponente, de arquitetura moderna e linhas arrojadas, cercada por um jardim impecável e, para o desespero de Helena, por torres de vigilância e homens armados.
"Como eu imaginava. Vargas não deixa nada ao acaso", disse Ricardo, com um leve sorriso. "Mas ele não espera que alguém venha de onde nós viemos. Vamos tentar nos aproximar da área de serviço. Talvez lá encontremos alguma brecha."
Eles se moveram com cautela, usando a vegetação como disfarce. A cada passo, Helena sentia o coração acelerar. A realidade de estar tão perto de descobrir a verdade sobre Rodolfo era avassaladora.
Ao se aproximarem da área de serviço, notaram uma pequena abertura em uma cerca viva. Era um caminho estreito, provavelmente usado pelos funcionários. Ricardo fez um sinal para Helena segui-lo.
O caminho os levou a uma área mais afastada da mansão, onde ficavam as acomodações dos funcionários e algumas instalações de lazer. Parecia mais seguro, mas ainda assim, a presença de seguranças era constante.
"Precisamos encontrar o quarto de Rodolfo. Se ele estiver aqui, talvez tenha deixado alguma pista, algum sinal", disse Helena, a voz cheia de esperança.
Ricardo concordou. "Mas como saberemos qual é o quarto dele? Vargas não o apresentaria como um convidado."
Enquanto pensavam, um dos funcionários, um homem jovem e com um olhar cansado, passou por eles, carregando uma cesta de roupas. Helena teve uma ideia.
"Com licença", disse ela, interceptando-o. "Eu me perdi. Estou procurando o quarto do senhor… Rodolfo."
O funcionário a olhou com estranheza, depois com desconfiança. "Rodolfo? Nunca ouvi falar de nenhum hóspede com esse nome."
Helena sentiu um frio na espinha. Era a confirmação de que Rodolfo não estava ali como um hóspede.
"Ah, desculpe. Talvez eu tenha me enganado", disse ela, tentando disfarçar o nervosismo. "Eu sou uma… amiga de um dos convidados. Ele disse que Rodolfo estaria hospedado aqui."
O funcionário hesitou por um momento, como se tentasse decidir se deveria ou não responder. Então, um de seus colegas o chamou de longe, e ele se apressou em ir embora, murmurando um pedido de desculpas.
Helena e Ricardo se entreolharam, a decepção estampada em seus rostos.
"Ele não o conhece. Isso é ruim", disse Ricardo. "Vargas deve estar mantendo Rodolfo em um local isolado, longe da vista dos funcionários comuns."
"Onde mais ele poderia estar?", Helena sussurrou, a voz embargada.
De repente, um som fraco chamou a atenção de Ricardo. Era um som metálico, vindo de uma pequena edificação de aparência rústica, um pouco afastada das outras construções.
"O que é isso?", perguntou Ricardo.
Eles se aproximaram com cautela. O som se repetia: um leve arrastar de metal, como se algo estivesse sendo movido. Ao chegarem mais perto, viram que era uma espécie de galpão, com uma porta pesada e uma pequena janela gradeada.
Helena sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Um pressentimento terrível a atingiu. Ela se aproximou da janela gradeada e, com a luz fraca que entrava, tentou enxergar o interior.
Seus olhos se arregalaram. Em meio à escuridão, ela vislumbrou uma figura sentada em um canto, com as mãos acorrentadas.
"Rodolfo!", ela gritou, o nome escapando de seus lábios em um misto de alívio e desespero.
A figura na escuridão se moveu. Levantou a cabeça, e Helena pôde ver seu rosto, abatido e fraco, mas inconfundível. Era ele.
"Helena?", a voz dele era fraca, quase inaudível.
Ricardo se aproximou da porta do galpão. Era pesada e trancada. "Precisamos abrir isso. Agora."
O som de passos se aproximando os alertou. Seguranças de Vargas estavam vindo em sua direção.
"Temos que sair daqui!", disse Ricardo, puxando Helena pelo braço. "Não podemos resgatá-lo agora. Mas sabemos que ele está aqui. E vamos voltar por ele."
Com o coração partido, Helena foi arrastada por Ricardo para longe do galpão, deixando Rodolfo para trás, preso nas sombras da ilha de Elias Vargas. A travessia das águas turvas havia chegado ao seu destino, e a verdadeira batalha estava prestes a começar.
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