Entre Sombras 182
Capítulo 8 — O Despertar da Memória e o Preço da Verdade
por Camila Costa
Capítulo 8 — O Despertar da Memória e o Preço da Verdade
A noite avançava, e a conversa entre Helena e Davi fluía como um rio subterrâneo, revelando trechos de suas vidas, de suas dores e de seus medos. A casa parecia um casulo seguro, um oásis de paz em meio ao turbilhão que os cercava. Helena, embalada pelo calor da lareira e pela confiança que começava a depositar em Davi, sentia suas defesas baixarem.
"Laura sempre foi a mais forte de nós duas", Helena confessou, a voz suave, tingida de saudade. "Eu era a sonhadora, ela era a guerreira. Ela sempre me protegeu, e eu… eu acho que nunca a vi com os mesmos olhos que ela via o mundo. Ela era tão… intensa, tão focada."
Davi ouvia atentamente, o olhar fixo em Helena. "O que você acha que ela buscava em Vargas?"
"Algo que o prejudicasse. Ela odiava a injustiça. E Vargas, com toda aquela influência e poder, parecia ser a personificação de tudo que ela abominava. Ela me dizia que ele era um homem perigoso, mas eu nunca imaginei… eu nunca soube a dimensão disso tudo." Helena pegou outra taça de vinho, as mãos ligeiramente trêmulas. "Eu sinto tanto a falta dela. Sinto como se uma parte de mim tivesse ido com ela."
"Eu também sinto", Davi respondeu, sua voz carregada de uma melancolia profunda. "Laura era uma luz. E a escuridão que a levou… é algo que não posso deixar impune." Ele fez uma pausa, como se reunindo coragem. "Helena, eu preciso te contar algo. Algo que pode ser difícil de ouvir."
Helena o encarou, apreensiva. O silêncio na sala se tornou mais denso, carregado de uma expectativa sombria.
"Vargas não foi o único que esteve atrás de Laura", Davi continuou, a voz mais baixa, quase um sussurro. "Havia outros. Pessoas que se beneficiavam do esquema dela. E a morte dela não foi um simples assassinato. Foi uma mensagem. Para todos que ousassem desafiá-lo."
"Uma mensagem… para mim?", Helena perguntou, um arrepio percorrendo sua espinha.
"Sim. Porque você, Helena, é a última conexão dela com o mundo exterior. Você representa a esperança de que a verdade venha à tona. E Vargas não pode permitir isso." Ele se inclinou para frente, o olhar penetrante. "Ele pode ter te contatado. Você está segura de que não foi você que ele abordou?"
Helena revirou os olhos, tentando buscar em sua memória. "Não… não que eu me lembre. Ele só apareceu na minha vida depois da morte dela, me seguindo, me vigiando. Eu pensei que fosse um stalker, alguém obcecado." Ela parou, a mente voltando ao momento do encontro com Davi na rua. A forma como ele a tirara daquela situação, a urgência em seus olhos. "Mas você… você parecia saber que eu estava em perigo."
"Eu sabia", Davi confirmou. "Eu vinha monitorando Vargas. E quando notei o interesse dele em você, eu sabia que algo estava errado. Sofia me ajudou a chegar até você antes que fosse tarde demais."
De repente, uma imagem fugaz passou pela mente de Helena. Um flash de memória, como um raio em um céu escuro. Ela apertou as têmporas.
"O quê foi?", Davi perguntou, notando sua reação.
"Nada… eu acho. Uma lembrança. Laura… ela me deu um pequeno objeto, há muito tempo. Uma caixinha de música antiga. Ela disse que era um presente para eu guardar para sempre."
Os olhos de Davi se arregalaram ligeiramente. "Uma caixinha de música? De que tipo?"
"Era feita de madeira escura, com entalhes delicados. E quando você a abria, tocava uma melodia antiga, triste. Eu a tenho em algum lugar… em um dos meus apartamentos. Mas eu nunca dei muita importância a ela. Pensei que era apenas uma lembrança sentimental."
"Helena", Davi disse, sua voz embargada pela emoção e pela esperança. "Essa pode ser a chave. Laura era muito metódica. Se ela te deu algo de valor, algo que ela queria que você guardasse, é provável que tenha um significado. Uma senha, uma pista…"
Helena sentiu um nó na garganta. A caixinha de música. Ela a tinha. E talvez, em sua simplicidade, contivesse a resposta que Laura tanto buscou. A percepção a atingiu com força. Ela, a "sonhadora", guardava em suas mãos a arma que sua irmã guerreira precisava.
"Onde exatamente está essa caixinha?", Davi perguntou, a urgência voltando aos seus olhos.
"Em meu apartamento principal, na cidade. Na verdade, em uma das gavetas da minha escrivaninha. Eu não a vejo há anos."
Davi suspirou, um misto de frustração e determinação em seu rosto. "Precisamos recuperá-la. Mas voltar para a cidade agora é muito arriscado. Vargas deve estar te procurando em todos os lugares."
"Mas se for a única chance de… de honrar a memória de Laura, de expor Vargas… eu preciso ir." Helena sentiu uma força nova dentro de si. A força de sua irmã, canalizada através dela.
Davi a olhou por um longo instante, avaliando sua determinação. "Eu sei que você é forte, Helena. Mas Vargas é perigoso. E ele não brinca em serviço." Ele se levantou e caminhou até a janela, observando a escuridão lá fora. "Precisamos planejar isso com cuidado. Uma entrada e saída discretas. Sem chamar atenção. É um risco enorme."
"Eu sei. Mas eu não posso fugir para sempre. E eu não posso deixar Laura para trás sem tentar tudo." Helena se aproximou dele, a voz firme. "Você me ajudou a sair daquele apartamento. Você me trouxe para cá. Eu confio em você, Davi. Eu confio em nós."
Ele se virou para ela, o olhar intenso. A proximidade deles era palpável. O calor da lareira parecia amplificar a tensão entre eles.
"Confiança é uma moeda rara, Helena", ele disse, a voz rouca. "E você está me dando a sua. Eu não vou te decepcionar."
Ele estendeu a mão e tocou suavemente o rosto dela. Helena fechou os olhos por um instante, sentindo o toque dele, a promessa de proteção, a centelha que os unia. A memória da caixinha de música parecia um farol, guiando-a para um futuro incerto, mas necessário. A verdade, ela percebeu, tinha um preço alto. E ela estava disposta a pagá-lo, mesmo que isso significasse mergulhar ainda mais fundo nas sombras.
Naquela noite, enquanto o sono tentava vencer Helena, a imagem da caixinha de música antiga se repetia em seus sonhos. Uma melodia triste, mas também uma promessa de resolução. A verdade sobre a morte de Laura, e sobre os segredos de Vargas, estava ali, escondida em um objeto simples, guardado pela irmã que ele subestimara. E com Davi ao seu lado, ela sentia que finalmente poderia desvendar o mistério, mesmo que isso os levasse para o centro da tempestade.