Entre Sombras 182
Capítulo 9 — O Retorno à Selva de Pedra e o Sussurro da Perdição
por Camila Costa
Capítulo 9 — O Retorno à Selva de Pedra e o Sussurro da Perdição
O sol da manhã pintava o céu do Rio de Janeiro com tons vibrantes de laranja e rosa, mas para Helena, a beleza parecia distante, abafada pela urgência que a impulsionava. A viagem de volta à cidade fora tensa, um jogo de gato e rato silencioso. Davi dirigia com precisão, seus olhos atentos a cada movimento nas ruas, a cada carro suspeito. Sofia, no banco de trás, mantinha-se discreta, mas sua presença transmitia uma segurança discreta.
"Vargas deve estar te procurando como um louco", Sofia comentou, a voz baixa. "Ele não gosta quando suas peças tentam fugir do tabuleiro."
Helena sentiu um frio na espinha. "Eu só espero que ele não tenha ideia de onde eu estive."
"Davi é mestre em desaparecer e reaparecer. E eu sou boa em cobrir rastros", Sofia respondeu com um sorriso confiante. "Ele não vai te encontrar aqui."
O apartamento de Helena, um oásis de luxo e conforto, agora parecia um campo minado. Cada objeto, cada móvel, carregava a lembrança de sua vida antes da tempestade. Davi a guiou com cautela, inspecionando cada canto, garantindo que não houvesse armadilhas.
"Sofia, fique aqui na porta. Se algo parecer errado, me avise imediatamente", Davi instruiu.
Helena caminhou em direção à sua escrivaninha, um móvel antigo de madeira escura, repleto de papéis e objetos. Seus dedos tremiam levemente enquanto ela buscava a gaveta secreta que sua irmã lhe ensinara a abrir anos atrás, um pequeno compartimento escondido sob a superfície. Era um segredo compartilhado entre elas, uma brincadeira que agora ganhava contornos sinistros.
Enquanto ela procurava, Davi vasculhava a sala, seus olhos treinados em busca de qualquer anomalia. Ele se moveu com a agilidade de um predador, cada passo calculista.
"Encontrei!", Helena exclamou, um misto de alívio e apreensão em sua voz. Ela abriu a gaveta secreta e lá estava ela: a caixinha de música de madeira escura, com seus entalhes delicados. Parecia intocada, como se o tempo não tivesse passado por ela.
Com cuidado, Helena pegou a caixinha. O peso em suas mãos era surpreendente, como se carregasse o peso de todos os segredos que ela escondia. Ela hesitou por um momento, o coração batendo forte no peito. A melodia que ela sabia que viria era um prenúncio de perigo, mas também de esperança.
"Abra", Davi incentivou, a voz baixa, mas firme.
Helena girou a pequena manivela na lateral da caixinha. Um som delicado, uma melodia melancólica, preencheu o silêncio do apartamento. Era uma música que parecia ecoar a dor e a saudade de Laura, uma canção de ninar esquecida. Mas à medida que a melodia se desdobrava, algo mais sutil começou a emergir. Um padrão. Uma sequência de notas que pareciam se repetir de uma forma incomum.
"Espere", Davi disse, aproximando-se. Ele ouvia atentamente, sua mente analítica trabalhando em alta velocidade. "Há algo nessa melodia… um ritmo. Como se fossem códigos."
Helena franziu a testa, tentando decifrar. "Códigos? Como assim?"
"Laura era brilhante. Ela não colocaria algo valioso aqui sem um meio de protegê-lo. A música… pode ser a chave. Cada nota, cada pausa… pode representar algo."
Eles passaram os minutos seguintes imersos na melodia, tentando captar qualquer nuance, qualquer variação que pudesse indicar um significado oculto. Helena, com sua sensibilidade artística, começou a perceber os padrões.
"Tem uma repetição aqui", ela disse, apontando para um trecho da melodia. "E essa nota mais longa… ela soa diferente."
Enquanto eles se concentravam na caixinha de música, um som sutil, mas distinto, ecoou do lado de fora. Um ruído metálico, um leve arrastar. Sofia, em seu posto, reagiu imediatamente.
"Davi! Alguém está tentando forçar a entrada!", ela gritou, a voz tensa.
O sangue de Helena gelou. Vargas. Ele os encontrara.
"Droga!", Davi praguejou. "Precisamos sair daqui. Agora!"
Ele agarrou a caixinha de música das mãos de Helena. "Isso é mais importante do que eu imaginava."
"Mas nós precisamos sair pela porta dos fundos, não é?", Helena perguntou, o pânico começando a tomar conta.
"Não temos tempo. Sofia, nos dê cobertura!", Davi ordenou.
O som de vidro quebrando reverberou pelo apartamento. A porta principal estava cedendo. Helena sentiu o desespero apertar seu peito. Ela estava presa.
De repente, um vulto surgiu da porta dos fundos. Não era Sofia. Era um homem com o rosto parcialmente oculto por uma máscara, vestindo roupas escuras. Ele parecia um profissional, movendo-se com uma eficiência fria.
"Quem é você?", Helena gritou, recuando.
"Um aliado", o homem respondeu, sua voz abafada pela máscara. "Davi me enviou. Precisamos sair daqui."
A confusão tomou conta de Helena. Aliados? Vargas? Ela não entendia mais nada.
"Vargas está aqui?", Davi perguntou ao homem mascarado, seus olhos fixos na porta principal, que agora cedia completamente, revelando a silhueta ameaçadora de homens armados.
"Ele está. Mas ele não sabe sobre mim. E não sabe sobre a caixinha", o homem respondeu.
Uma troca rápida de olhares entre Davi e o homem mascarado. Um entendimento silencioso se estabeleceu.
"Helena, você vai com ele. Eu cuidarei de Vargas", Davi disse, sua voz carregada de determinação.
"Não!", Helena protestou. "Eu não vou te deixar aqui!"
"Você precisa ir. A caixinha é o alvo principal. Eu não posso deixar que ele a pegue." Davi colocou a caixinha nas mãos de Helena. "Vá. Agora. Sofia, com eles!"
O homem mascarado agarrou o braço de Helena e a puxou em direção à porta dos fundos. Sofia se juntou a eles, o som de tiros ecoando pelo apartamento. Helena olhou para trás, para Davi, que se preparava para enfrentar a horda de inimigos. A imagem dele, lutando sozinho contra Vargas, ficou gravada em sua mente.
Eles saíram para os fundos, correndo por um beco escuro, o som de sirenes se aproximando. Helena sentiu o coração apertado. Ela estava fugindo, levando consigo o segredo de sua irmã, enquanto Davi ficava para trás, enfrentando o perigo. A verdade, ela percebeu com um aperto no peito, tinha um preço alto demais. E o preço que eles estavam pagando era apenas o começo. O sussurro da perdição se tornava cada vez mais audível, e Helena sabia que a luta estava longe de terminar.