Amor Impossível 183
Capítulo 4 — Um Caminho Tortuoso e Inesperado
por Camila Costa
Capítulo 4 — Um Caminho Tortuoso e Inesperado
Os dias que se seguiram ao reencontro com Rafael em Belo Horizonte foram um exercício de autodisciplina para Helena. Ela se fechou em seu mundo de livros, mergulhando em histórias de outros mundos e de outros tempos, tentando afogar a sua própria realidade em páginas amareladas. Lúcia, com sua persistência gentil, tentava puxá-la para fora de sua concha, convidando-a para cafés, cinemas, mas Helena frequentemente recusava, preferindo a solidão do seu apartamento e a companhia silenciosa de suas estantes.
Ela evitava passar pela biblioteca nos horários em que sabia que Rafael poderia estar por lá. A possibilidade de um novo encontro era um misto de pavor e uma curiosidade mórbida que a deixava apreensiva. A confissão dele, embora dolorosa, trouxera uma espécie de fechamento, mas a forma como ele havia admitido sua confusão, seu medo de magoá-la, deixava uma pequena brecha de incerteza. Seria ele realmente um homem comprometido, ou apenas um homem confuso que usou a desculpa da noiva para se livrar de uma situação que não sabia lidar?
Certa noite, enquanto folheava um romance antigo, Helena se pegou pensando em Mariana. Quem era ela? Como era a vida dela com Rafael? A imagem da mulher elegante na igreja de Ouro Preto, a cumplicidade nos olhares trocados, voltava em sua mente com força. Ela se sentia culpada por essa curiosidade, por se importar com a vida de alguém que a havia machucado.
Um dia, o destino, com sua ironia peculiar, decidiu intervir novamente. Helena estava em uma livraria nova, explorando a seção de história, quando ouviu uma voz familiar.
"Helena? Que coincidência e que surpresa encontrá-la aqui."
Era Rafael. Ele estava acompanhado de uma mulher, mais jovem do que ela imaginava, com cabelos cacheados e um sorriso caloroso. Mariana. Helena sentiu o estômago revirar, mas manteve a compostura.
"Rafael", ela cumprimentou, um leve sorriso no rosto. "Eu também não esperava te ver por aqui."
"Eu estou sempre em busca de novidades para a biblioteca do meu escritório", Mariana disse, estendendo a mão para Helena. Seu aperto era firme e seu olhar, direto. "Você deve ser a Helena que Rafael mencionou."
O coração de Helena deu um pulo. Mencionou? De que forma ele a mencionara?
"É um prazer conhecer você", Helena respondeu, apertando a mão de Mariana. Ela tentou ler algo em seu rosto, mas Mariana parecia genuína e simpática.
"O prazer é meu", Mariana retribuiu o sorriso. "Rafael fala muito de você. Principalmente das suas impressões sobre Ouro Preto. Ele ficou encantado com a sua paixão pela cidade."
Helena ficou surpresa. Encantado? Paixão? Aquilo não batia com a história de "distração confusa".
"Ah, Ouro Preto é uma cidade especial", Helena respondeu, tentando disfarçar seu espanto.
Rafael observava a interação entre as duas, um leve sorriso nos lábios, mas um lampejo de tensão em seus olhos.
"Helena tem um olhar único para a história e a arte", Rafael disse, sua voz suave. "Ela me fez ver a cidade com outros olhos, mesmo depois de tantos anos morando lá."
Helena sentiu um calor subir em seu rosto. Aquelas palavras, ditas na frente de Mariana, soavam quase como uma declaração. Uma declaração de que ele a via, que ele a valorizava. Mas por que ele estaria dizendo aquilo agora, com sua noiva ao lado?
"Eu apenas… gosto de me aprofundar nas coisas que me interessam", Helena respondeu, desviando o olhar.
Mariana percebeu a tensão no ar. "Eu fico feliz que vocês tenham se conhecido", ela disse, com um sorriso sincero. "Rafael me contou sobre o encontro de vocês em Ouro Preto. Ele ficou muito tocado pela sua visão."
Helena olhou para Rafael, buscando alguma explicação em seu olhar. Ele sustentou o olhar dela por um momento, uma expressão indecifrável em seu rosto.
"Eu… eu acho que vocês têm muito em comum", Mariana continuou, alheia à confusão que suas palavras causavam em Helena. "Rafael sempre me disse que Ouro Preto tem uma aura especial, que atrai pessoas com almas sensíveis. E eu acho que ele encontrou isso em você, Helena."
Aquilo era demais para Helena. Ela sentiu que estava em um labirinto. Rafael a havia chamado de "distração confusa" e agora sua noiva a chamava de "alma sensível" que ele encontrou em Ouro Preto?
"Eu… eu preciso ir", Helena disse, subitamente, sentindo-se sufocada. "Tenho um compromisso."
Rafael deu um passo à frente, como se quisesse detê-la. "Helena, espere. Podemos conversar um pouco mais?"
"Não agora, Rafael", ela respondeu, já se afastando. "Talvez outro dia."
Ela saiu da livraria rapidamente, deixando para trás Rafael e Mariana, a confusão estampada em seu rosto. A história de Rafael estava se tornando cada vez mais tortuosa, e Helena não sabia se tinha forças para desvendá-la.
Nos dias seguintes, Helena tentou esquecer o encontro na livraria. Ela se concentrou em seu trabalho, em seus livros, em sua vida solitária. Mas a dúvida sobre a relação de Rafael e Mariana não a abandonava. As palavras de Mariana, a forma como Rafael a olhava… algo não se encaixava.
Uma semana depois, Lúcia a abordou com um sorriso enigmático. "Você não vai acreditar no que eu ouvi."
"O quê?", Helena perguntou, curiosa.
"Estava conversando com a Dona Lourdes, que trabalha na administração do prédio onde fica o escritório novo daquela empresa de arquitetura. A mesma onde o tal Rafael trabalha", Lúcia começou, com um tom de quem contava um segredo. "E ela me contou que o Rafael está aqui em BH há mais tempo do que ele disse. E mais… que ele e a noiva dele, a Mariana, estão em crise. Uma crise séria."
O coração de Helena disparou. Crise?
"Crise como?", Helena perguntou, com a voz trêmula.
"Dona Lourdes disse que eles estão morando em casas separadas há quase dois meses. Que o casamento, que estava marcado para o fim do ano, foi adiado indefinidamente. Parece que Mariana descobriu alguma coisa… alguma coisa que a deixou muito abalada", Lúcia contou, a voz baixa e conspiratória.
Helena sentiu um misto de choque e uma vertigem que a fez se segurar na mesa. Se isso era verdade, então tudo o que Rafael disse sobre a noiva e a confusão em Ouro Preto era uma fachada. Ou talvez fosse a verdade, mas a situação havia mudado drasticamente desde então.
Naquela noite, Helena não conseguiu dormir. A imagem de Rafael, a beleza de Ouro Preto, as palavras de Mariana, a informação de Lúcia… tudo girava em sua mente. Ela sentiu uma atração irresistível, uma necessidade de entender o que estava acontecendo. Aquele homem, que a havia ferido, agora parecia envolvido em um drama pessoal que a intrigava profundamente.
Decidiu que precisava tomar uma atitude. Não por ela, mas pela verdade. Ela pegou o telefone e discou o número do escritório de Rafael.
"Olá, aqui é Helena. Gostaria de falar com o Sr. Rafael, por favor."
A secretária transferiu a ligação. Helena esperou, o coração batendo forte.
"Rafael falando."
"Rafael, aqui é Helena", ela disse, a voz firme. "Precisamos conversar. Pessoalmente."
Houve um momento de silêncio. "Helena… eu não sei se é uma boa ideia."
"Eu sei que não é", ela respondeu. "Mas eu sinto que você me deve explicações. E eu preciso entender."
Mais um silêncio, mais longo desta vez. "Onde e quando?"
"Amanhã. Na livraria onde nos encontramos. Às três da tarde. Sem acompanhantes", Helena disse, tentando manter a autoridade.
"Eu estarei lá", Rafael respondeu, com um tom de resignação.
Helena desligou o telefone, sentindo uma mistura de apreensão e determinação. Ela estava entrando em um caminho tortuoso, um caminho que a levava de volta a um homem que lhe causou dor, mas que, de alguma forma, parecia ter um mistério ainda a ser desvendado. A metrópole cinzenta, com suas intrigas e reencontros inesperados, estava prestes a revelar mais uma faceta da complexa teia que unia seus destinos. E Helena, movida por uma força que ela mesma não compreendia, estava pronta para seguir em frente, mesmo que isso significasse confrontar a verdade, por mais dolorosa que fosse. O amor impossível 183 estava longe de terminar.