Apaixonada pelo Chefe 190
Capítulo 7 — O Retorno à Rotina e os Sussurros Maliciosos
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 7 — O Retorno à Rotina e os Sussurros Maliciosos
O carro deslizava pela paisagem urbana, o silêncio entre Sofia e Lucas preenchido apenas pelo som suave do motor e pela melodia distante de uma estação de rádio. O amanhecer incerto daquele dia já havia se transformado em um sol radiante, mas a atmosfera dentro do veículo permanecia turva, densa de palavras não ditas e de emoções contidas. Sofia observava as ruas passando pela janela, tentando se concentrar na paisagem familiar, mas sua mente teimava em revisitar cada detalhe da noite anterior. As mãos de Lucas em sua pele, o calor dos seus lábios, a vulnerabilidade crua em seus olhos quando ele confessara seus sentimentos.
Lucas, dirigindo com a concentração habitual, mantinha uma expressão séria, mas Sofia percebia a tensão em sua mandíbula, a rigidez em seus ombros. Ele também estava lidando com o peso daquela noite, com a promessa de um turbilhão que se aproximava. Ao chegarem ao aeroporto, a despedida foi formal, quase fria. Um aperto de mãos, um "Até logo, Sofia", um "Até logo, Lucas". Era uma fachada cuidadosamente construída, um escudo para o mundo, mas sob a superfície, a corrente elétrica da atração e da confusão persistia.
De volta à sua cidade, a rotina do escritório parecia um oceano revolto onde ela seria forçada a navegar. O primeiro dia de volta foi um teste de resistência. Cada olhar dos colegas, cada cumprimento, parecia carregado de um significado oculto. Havia a Srta. Carmem, a recepcionista fofoqueira com seus olhos de coruja, sempre atenta a qualquer movimento fora do comum. Havia a equipe de marketing, sempre pronta para especular sobre a vida pessoal de seus superiores. Sofia sentia-se como um animal acuado, exposto e vulnerável.
Ela se sentou em sua mesa, sentindo o peso familiar do trabalho, mas a concentração que antes lhe era natural agora escapava por entre os dedos. Seus olhos involuntariamente buscavam a porta do escritório de Lucas. Ele entrara minutos antes, a expressão impassível, a postura impecável. Por um breve instante, seus olhares se cruzaram. Havia uma eletricidade silenciosa entre eles, um reconhecimento tácito da intimidade compartilhada. E então, ele desviou o olhar, voltando à sua postura profissional, deixando Sofia com um nó na garganta e uma onda de frustração.
Os dias seguintes se arrastaram em uma dança delicada de evitação e proximidade forçada. Nas reuniões, os olhares se cruzavam, e em cada troca, havia um universo de sentimentos que apenas eles podiam decifrar. Sofia se pegava observando Lucas, a forma como ele gesticulava, como sua voz soava ao dar ordens, a maneira como ele parecia absorver tudo ao seu redor. A atração era inegável, um fogo que ela tentava desesperadamente apagar, mas que parecia crescer a cada dia.
E os sussurros começaram. Pequenos, insidiosos, como serpentes rastejando pelos corredores. Sofia ouvia fragmentos de conversas, risadinhas abafadas, olhares curiosos quando ela e Lucas se encontravam no corredor. Ela tentava ignorar, focar em seu trabalho, em seus projetos. Mas a semente da dúvida e do medo já havia sido plantada.
"Você viu como o Sr. Lucas olha para a Sofia?", ouviu certa vez a Srta. Carmem cochichar para a colega do financeiro, Dona Gertrudes, com um tom de cumplicidade maliciosa. "Parece que tem algo mais ali do que só trabalho. Sabia que eles viajaram juntos para aquela convenção?"
Sofia sentiu o sangue gelar. A viagem. A viagem de negócios que se transformara em algo muito mais íntimo. A informação já estava se espalhando, distorcida pelas mentes ávidas por intriga.
Um dia, durante o almoço, enquanto Sofia comia sozinha em sua mesa, Lucas apareceu em sua porta. Ele parecia mais relaxado do que o normal, um leve sorriso brincando em seus lábios.
"Posso me juntar a você?", ele perguntou, um tom de brincadeira em sua voz.
Sofia hesitou por um instante, o coração acelerando. "Claro, Lucas. Por favor."
Ele se sentou, pegando uma cadeira extra. "Eu não aguentava mais comer sozinho naquela sala de reuniões. As paredes estavam começando a falar comigo."
Sofia riu, o som soando um pouco forçado. "Bem, eu não tenho paredes para falar, mas tenho uma pilha de relatórios que poderiam me fazer companhia."
Ele a olhou, o sorriso desaparecendo, substituído por uma seriedade que fez Sofia se encolher por dentro. "Sofia, eu sei que as coisas estão estranhas. E eu sei que eles estão falando."
Ela suspirou, a máscara de indiferença caindo. "Eu não posso evitar ouvir, Lucas. É como se estivesse em toda parte."
"Eu sei. E me desculpe por isso. Eu deveria ter sido mais… cuidadoso." Havia um tom de arrependimento em sua voz, mas também uma faísca de desafio.
"Cuidadoso? Lucas, o que você esperava que acontecesse?", ela perguntou, a voz embargada de frustração. "Nós… cruzamos uma linha. E agora as consequências estão começando a aparecer."
"Eu não me arrependo do que aconteceu entre nós, Sofia", ele disse, a voz firme, mas suave. "Eu me arrependo que isso esteja te afetando dessa forma. Mas nós não podemos nos esconder para sempre. Precisamos encarar isso."
"Encarar como, Lucas? Que resposta você daria se eles perguntassem sobre a nossa viagem? Sobre a noite que passamos juntos?" A pergunta saiu mais ácida do que ela pretendia.
Ele inclinou a cabeça, seus olhos fixos nos dela. "A verdade. Ou uma versão dela que nos proteja. Mas eu não vou mentir sobre o que sinto por você. Se for preciso, eu defenderei você."
As palavras dele, a promessa implícita de proteção, aqueceram algo dentro dela. Mas o medo era maior. O medo da ruína, do escândalo, da perda de tudo que ela havia construído.
"Eu não quero ser o centro das fofocas, Lucas. Eu valorizo meu trabalho. Eu valorizo a minha reputação."
"E você acha que eu não? Mas há coisas mais importantes do que isso, Sofia. A sua tranquilidade, por exemplo. A minha. E o que existe entre nós." Ele estendeu a mão sobre a mesa, tocando a dela. O toque foi leve, mas a eletricidade percorreu o braço de Sofia como um choque. "Precisamos conversar. Sem a pressão daqui. Talvez um jantar, fora daqui, onde possamos realmente falar."
Sofia olhou para a mão dele sobre a sua, sentindo a tentação de simplesmente ceder, de se deixar levar pela corrente. Mas a prudência, a voz da razão, lutava contra o desejo avassalador. Os sussurros no corredor eram apenas o começo. Ela sabia que se cedessem à tentação, a tempestade seria muito maior. A dúvida persistia, mas o desejo, cada vez mais forte, a puxava para o abismo.