O Príncipe das Sombras 191

Capítulo 17 — O Sussurro do Passado na Penumbra

por Valentina Oliveira

Capítulo 17 — O Sussurro do Passado na Penumbra

A noite caiu sobre o Rio de Janeiro com a opulência de um veludo escuro, pontilhado pelas luzes bruxuleantes da cidade que se estendiam até o infinito. No luxuoso apartamento de Rafael, no alto de um dos edifícios mais imponentes da Zona Sul, a atmosfera era densa, carregada de uma tensão quase palpável. A luz fraca de um abajur lançava sombras dançantes sobre os móveis de design moderno, criando um jogo de luz e escuridão que espelhava o estado de espírito de seu anfitrião.

Rafael estava sentado em sua poltrona de couro, um copo de uísque meio vazio na mão, o olhar perdido na vastidão noturna que se desdobrava diante dele. A imagem de Clara, com seus olhos marejados de tristeza e desconfiança, assombrava seus pensamentos. Cada palavra dela, cada suspiro de mágoa, era como uma facada em seu coração. Ele a amava mais do que a própria vida, e a ideia de que ela pudesse duvidar dele, de que seus segredos pudessem afastá-la, era um tormento insuportável.

Mas o que mais o corroía era a impossibilidade de lhe contar a verdade. A verdade sobre o que o levara à casa de Dona Elvira, sua mãe. Uma visita que ele havia evitado por anos, por motivos que Clara não compreenderia. Não ainda. Aquele encontro não era sobre reconciliação, nem sobre perdão. Era sobre sobrevivência. Sobrevivência dele, e, indiretamente, de Clara.

Ele tomou um gole longo do uísque, o líquido âmbar aquecendo sua garganta, mas não o seu espírito. Lembranças de sua infância, de uma casa fria e calculista, de uma mãe ausente e um pai distante, voltavam com força. Dona Elvira, uma mulher de uma beleza fria e um coração de gelo, sempre fora a rainha de seu próprio reino de manipulação e poder. E agora, ela o havia convocado de volta ao seu tabuleiro de xadrez, em um jogo que prometia ser mais perigoso do que qualquer outro que ele já enfrentara.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo toque suave de seu celular sobre a mesinha de centro. O nome de seu advogado, Dr. Almeida, iluminou a tela. Rafael hesitou por um instante, o receio de que a conversa fosse sobre o assunto que o atormentava, mas atendeu.

"Almeida," disse ele, a voz rouca.

"Senhor Rafael," a voz calma e profissional do advogado soou do outro lado. "Tenho notícias sobre a questão que discutimos."

Rafael se endireitou na poltrona, a atenção subitamente aguçada. "E então?"

"Conseguimos acesso a alguns documentos antigos. Parece que a Dona Elvira estava envolvida em algumas transações financeiras… digamos, pouco ortodoxas, há muitos anos. Transações que podem comprometer não apenas a reputação dela, mas também o patrimônio da família, se expostas."

Rafael fechou os olhos, uma pontada de dor e resignação atravessando seu peito. Era exatamente o que ele temia. Sua mãe, com sua sede insaciável por poder e controle, sempre jogara com fogo. E agora, as chamas ameaçavam consumi-lo.

"E o que isso significa, Almeida?"

"Significa que ela está em uma posição vulnerável, senhor Rafael. Muito vulnerável. E o convite para que o senhor fosse à casa dela, naquela noite… não foi uma coincidência. Ela precisa de você."

"Precisa de mim para quê? Para limpar a sujeira dela? Para assumir a culpa?" A voz de Rafael carregava uma amargura que ele não conseguia disfarçar.

"Não exatamente. Parece que ela deseja negociar. Oferecer uma… trégua. Em troca de sua discrição e, quem sabe, de alguma ajuda para reverter o dano que foi feito."

Rafael deu uma risada seca e desprovida de humor. "Ajuda? Ela quer que eu ajude a salvar o império que ela construiu sobre as ruínas de tantas vidas? Incluindo a minha?"

"A situação é delicada, senhor Rafael. Se esses documentos caírem nas mãos erradas, as consequências podem ser catastróficas. Para todos os envolvidos. Inclusive para a sua segurança e a de… pessoas próximas a você."

A última parte da frase ecoou na mente de Rafael como um alarme. Pessoas próximas a ele. Clara. O pensamento de que ela pudesse estar em perigo, de que as ações de sua mãe pudessem de alguma forma colocá-la em risco, era insuportável. Era por isso que ele precisava agir, por mais que doesse. Por mais que o obrigasse a se aproximar daquela que o assombrava.

"Entendo, Almeida. Continue investigando. Quero saber tudo. Cada detalhe. E me prepare um plano. Precisamos antecipar os movimentos dela."

"Certo, senhor Rafael. Estarei em contato."

A ligação terminou, deixando Rafael imerso em um silêncio ainda mais pesado. Ele se levantou, caminhando até a janela, as mãos nos bolsos do terno. O reflexo de seu rosto na vidraça era o de um homem assombrado, os olhos fundos, a expressão tensa. O príncipe das sombras. Era assim que sua mãe o chamava, com uma mistura de desdém e admiração sombria. E hoje, mais do que nunca, ele sentia o peso desse título.

Ele pensou em Clara novamente. A forma como ela se encolheu quando ele desviou o olhar ontem à noite. A mágoa em seus olhos. Ele não podia perdê-la. Mas como poderia protegê-la sem envolvê-la em seus pesadelos? Como poderia amá-la completamente quando uma parte dele estava para sempre presa na teia de intrigas de sua família?

Rafael pegou o copo de uísque e o bebeu de um só gole, a ardência familiar um breve alívio para a dor que o consumia. Ele sabia que precisava enfrentar sua mãe. Precisava desvendar os segredos que ela guardava, não por ela, mas por si mesmo. E, acima de tudo, por Clara. Ele precisava limpar o caminho, afastar as sombras que ameaçavam engolir seu futuro. E se isso significava se embrenhar ainda mais no labirinto do passado, ele o faria. Mesmo que isso o levasse ainda mais para o abismo. Ele fechou os olhos, a imagem de Clara sorrindo, iluminada pelo sol da manhã, em sua mente. Por aquele sorriso, ele enfrentaria qualquer escuridão.

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