O Príncipe das Sombras 191
Capítulo 2 — A Sombra que Retorna
por Valentina Oliveira
Capítulo 2 — A Sombra que Retorna
O portão de ferro forjado rangeu ao ser aberto, um som estridente que rasgou a calmaria do entardecer. André de Alencar adentrou a propriedade dos Vasconcelos com a mesma postura controlada e imponente que Isabella se lembrava, cada passo calculado, cada movimento deliberado. Ele não era um homem que deixava nada ao acaso.
Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ver André ali, em sua casa, em seu refúgio, era como assistir a um filme de terror ganhando vida. Anos de esforço para se reconstruir, para se blindar contra a dor que ele lhe causara, pareciam desmoronar a cada passo que ele dava em sua direção.
Dona Eulália, percebendo a paralisia da sobrinha, deu um passo à frente, com um misto de curiosidade e apreensão em seu olhar. "Bom, quem é você, meu senhor? E a que devemos a honra de sua visita?" A voz de Eulália era firme, mas um leve tremor a traía.
André parou a alguns metros de distância, seus olhos escuros encontrando os de Isabella com uma intensidade que a fez desviar o olhar. Ele então se virou para Eulália, um leve sorriso curvando seus lábios. "Senhora Vasconcelos, meu nome é André de Alencar. Fui um amigo da família no passado, e tenho assuntos urgentes a tratar com sua sobrinha."
A menção do sobrenome "Vasconcelos" pareceu registrar em Eulália. Ela sabia de suas conexões, de seu histórico. André de Alencar não era um nome qualquer no cenário empresarial e social do país, mesmo que seu passado com Isabella fosse um segredo bem guardado.
"Assuntos urgentes?", Eulália repetiu, a desconfiança em sua voz se acentuando. "E quem lhe deu permissão para entrar em nossa propriedade sem anunciar?"
André fez uma reverência breve e elegante. "Peço desculpas pela informalidade, senhora. A urgência da situação me levou a agir de forma um tanto impulsiva. Mas garanto que não haverá mais inconvenientes." Seus olhos voltaram a pousar em Isabella, um convite mudo para que ela falasse.
Isabella finalmente encontrou sua voz, um sussurro rouco que mal se ouvia acima do barulho das ondas. "O que você quer aqui, André?" A frieza em sua voz era uma armadura que ela tentava manter, mas por dentro, um vulcão de emoções ameaçava explodir.
André deu um passo à frente, e Isabella sentiu a necessidade de recuar, mas seus pés pareciam pregados ao chão. "Eu vim para conversar, Isabella. Assuntos que foram deixados em aberto."
"Em aberto?", ela riu, um som amargo e sem humor. "Você desapareceu sem dizer uma palavra, André. Deixou apenas um bilhete vago e um rastro de dor. Não há nada em aberto entre nós, apenas um abismo."
A dor em suas palavras pareceu atingi-lo, mas seu semblante permaneceu impassível. "Eu entendo sua raiva, Isabella. E um dia, talvez, eu possa explicar tudo. Mas agora, precisamos falar sobre o motivo de minha volta."
Ele tirou um envelope de dentro do paletó. Um envelope grosso, selado com cera vermelha. Aquele selo, Isabella reconheceu com um nó na garganta, era o brasão da família Alencar. Uma família antiga, poderosa e, em muitos aspectos, sombria.
"O que é isso?", ela perguntou, a curiosidade lutando contra o receio.
"Uma proposta. Uma proposta que pode mudar o futuro de ambas as nossas famílias." Ele estendeu o envelope para ela.
Isabella hesitou. Pegar aquele envelope significava aceitar a presença dele, aceitar o diálogo que ela tanto tentava evitar. Mas a menção de "futuro de ambas as famílias" a intrigou. O que André de Alencar, o homem que fugiu, poderia ter a oferecer que envolvia seu nome e o de sua família?
Com mãos trêmulas, ela pegou o envelope. A cera estava fria ao toque. Ela o abriu com cuidado, revelando um documento com papel timbrado e a assinatura imponente de seu pai, falecido há dez anos. E abaixo dela, a assinatura de André.
"O que é isso, André? Uma falsificação?", ela questionou, desconfiada.
"Não. É um acordo. Um acordo que seu pai e eu finalizamos pouco antes dele partir. Um acordo que foi interrompido por circunstâncias… complicadas." A voz de André era carregada de um tom que Isabella nunca havia ouvido antes, uma mistura de melancolia e resignação.
Ela começou a ler, as palavras dançando diante de seus olhos, mas o significado aos poucos se desvendando. Era um contrato. Um contrato que envolvia a fusão de negócios, a união de empresas, a criação de um conglomerado que ultrapassaria em muito o poder e a influência de qualquer um deles individualmente. E, mais chocante ainda, falava de um compromisso, um casamento arranjado entre ela e André, selado anos atrás por seus pais, um plano para garantir a aliança entre as famílias e consolidar seu poder.
Isabella sentiu o chão sumir sob seus pés. Um casamento arranjado? Com André? Ela nunca soube de nada disso. Seu pai sempre fora reservado sobre seus negócios, mas jamais imaginou que ele pudesse ter planejado algo tão drástico, algo que envolvesse seu futuro pessoal de forma tão unilateral.
"Você está mentindo!", ela exclamou, a voz embargada pela incredulidade e pela raiva. "Meu pai jamais faria algo assim! Jamais me venderia em um acordo!"
"Não foi uma venda, Isabella. Foi uma estratégia. Uma estratégia para garantir a estabilidade e o crescimento de ambos os impérios. Seu pai acreditava que a união de nossas famílias seria a chave para um futuro próspero. E eu… eu também acreditava." A última frase foi dita quase em um sussurro, um vislumbre da antiga conexão que eles compartilharam.
O silêncio voltou a pairar, pesado e carregado de segredos. Dona Eulália observava a cena com espanto, tentando absorver a informação.
"Por que não me contou nada antes, André?", Isabella perguntou, a voz baixa, mas carregada de mágoa. "Se isso era tão importante, por que desapareceu? Por que me deixou acreditando que você simplesmente não se importava?"
André deu um passo à frente, a expressão tensa. "Houve ameaças, Isabella. Ameaças sérias que colocaram a vida de todos nós em risco. A única maneira de protegê-la era desaparecer. Era me afastar, fazer parecer que o acordo nunca existiria. Mas agora… agora a situação mudou. E este acordo precisa ser honrado. Pelo bem de todos."
"Ameaças? Que ameaças? E por que agora você acha que está seguro para voltar e me apresentar este… documento?", Isabella questionou, o ceticismo em sua voz palpável.
"As ameaças foram neutralizadas. O inimigo foi vencido. E eu voltei para honrar o compromisso que meu pai e o seu fizeram. Um compromisso que, mesmo sem você saber, moldou nossas vidas." André olhou para ela com uma intensidade que a fez sentir-se exposta. "Eu voltei para você, Isabella. E para cumprir o que foi prometido."
A declaração pairou no ar como uma promessa perigosa. Isabella sentiu uma mistura de medo, raiva e uma pontada de algo que ela não conseguia nomear. O Príncipe das Sombras havia retornado, não apenas para propor um acordo empresarial, mas para reabrir feridas antigas e, talvez, para reclamar algo que acreditava ser seu por direito. A tranquilidade de Paraty fora irrevogavelmente quebrada.