Amor nas Alturas 192
Capítulo 12 — O Eco das Palavras Cruéis e a Súplica do Coração Ferido
por Isabela Santos
Capítulo 12 — O Eco das Palavras Cruéis e a Súplica do Coração Ferido
O carro de Helena deslizou pelas ruas do Rio de Janeiro, cada quilômetro percorrido a aproximando do epicentro de sua dor: a residência de Elias. O sol, agora um pouco mais forte, tentava dissipar as nuvens, mas a escuridão que se instalara na alma de Helena era mais densa que qualquer nebulosidade. A cada semáforo fechado, a cada buzina impaciente, ela se sentia mais aprisionada em seus próprios pensamentos, em um labirinto de perguntas sem respostas e de sentimentos dilacerados.
Ela lembrava-se das palavras de Sofia, das provas que o Dr. Antônio guardava. A revelação de que Elias estava dilapidando o patrimônio de sua família atingiu-a com a força de um soco no estômago. Aquele homem, que jurara amor eterno, que construíra com ela sonhos de um futuro próspero, estava, na verdade, pilhando tudo o que fora construído com suor e dedicação. A raiva se misturava à tristeza, criando uma mistura explosiva que a impelia para frente.
Ao chegar à mansão de Elias, um lugar que antes lhe parecia um palácio de contos de fadas, agora se apresentava como um monumento à sua própria ingenuidade. As portas imponentes, a arquitetura luxuosa, tudo parecia zombar de sua fragilidade. Ela desceu do carro, sentindo o peso de cada olhar dos funcionários que a observavam com curiosidade e, talvez, com pena.
Ao entrar, foi recebida por uma criada que, com um sorriso forçado, a guiou até a sala de estar. O ambiente, decorado com um luxo ostensivo, parecia frio e impessoal. Helena sentou-se no sofá de veludo, as mãos entrelaçadas com força, tentando controlar a trepidação. O silêncio era quebrado apenas pelo tique-taque de um relógio antigo, marcando cada segundo que a aproximava do confronto.
Minutos que pareceram horas se passaram. Então, a porta se abriu e Elias entrou. Ele estava impecável, como sempre, com um terno sob medida e um sorriso que Helena agora reconhecia como uma máscara. Seus olhos, antes tão cativantes, agora pareciam frios e calculistas.
“Helena, querida. Que surpresa agradável”, disse ele, aproximando-se com um abraço que ela evitou.
Ela se levantou, a voz embargada pela emoção, mas firme na determinação. “Elias, precisamos conversar. E quero que seja sincero comigo pela primeira vez em muito tempo.”
O sorriso dele vacilou por um instante, mas se recompôs rapidamente. “Sincero? Sempre fui sincero com você, meu amor.”
Helena deu um passo para trás, o coração apertado. “Não, Elias. Você mentiu. Você me enganou em tudo. Em quem você é, em nossos sentimentos… e agora, pelo que soube, na própria empresa do meu pai.”
O semblante de Elias mudou. A máscara caiu, revelando uma frieza calculista. “Dr. Antônio lhe contou alguma coisa, não foi? Aquele velho rabugento, sempre querendo desconfiar de mim.”
“Dr. Antônio me mostrou provas, Elias. Provas de que você está dilapidando o patrimônio da minha família. Provas de que você apostou e perdeu o dinheiro que era o futuro de todos nós.” A voz de Helena falhava, mas a acusação era clara e direta.
Elias riu, um som seco e desprovido de alegria. “Provas? Ah, Helena, você acredita mesmo nas palavras daquele homem? Ele é apenas um velho frustrado, incapaz de acompanhar os novos tempos. Eu estou apenas… inovando. Fazendo o dinheiro render.”
“Inovando?”, Helena repetiu, o tom de sua voz carregado de incredulidade e dor. “Você está destruindo tudo! O legado do meu pai, a segurança de todos nós! Você é um ladrão, Elias!”
A acusação atingiu Elias como um golpe. Seus olhos escureceram. “Ladrão? Como você ousa? Eu fiz tudo isso por nós, Helena! Para te dar a vida que você merece, uma vida de rainha!”
“Não, Elias. Você fez isso por você! Pela sua ganância, pela sua ambição desmedida. Você nunca amou a mim, nem aos meus irmãos. Você só se importava com o que podia tirar de nós.” As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Helena, mas elas não eram mais de tristeza, e sim de revolta.
“Amor? Amor é para os fracos, Helena! O que importa é o poder, o dinheiro! E eu estava construindo isso para nós. Para que ninguém nunca mais pudesse nos diminuir.” A voz de Elias estava cada vez mais alta, carregada de uma fúria contida.
“Você está diminuindo a nós mesmos, Elias! Você está nos afundando! E a minha mãe… ela sabia de tudo, não sabia? Ela permitiu que você fizesse isso?” A pergunta saiu num sussurro, a dor da possível cumplicidade materna dilacerando ainda mais seu coração.
Elias hesitou por um breve momento, um lampejo de algo que poderia ser remorso em seus olhos, mas logo se recompôs. “Sua mãe… ela entende o mundo como ele é. Ela sabe que para ter, é preciso arriscar. E ela sempre soube que eu era o homem certo para te dar tudo.”
As palavras de Elias foram como um punhal em seu peito. A verdade era ainda mais cruel do que ela imaginara. Sua mãe, cúmplice. Sua mãe, que a criara sob a égide da moralidade, agora era parte desse esquema vil.
“Você é um monstro, Elias. Um monstro disfarçado de príncipe encantado.” Helena deu um passo para trás, sentindo um nó na garganta. “Eu não te odeio, Elias. Porque o ódio é uma emoção forte demais para alguém que me causou tanta decepção. Eu apenas… sinto pena de você. De ver o quão vazio seu coração deve ser.”
Ela se virou, decidida a sair, a fugir daquele ambiente tóxico. Mas Elias a agarrou pelo braço, a força em seu aperto demonstrando seu desespero.
“Helena, espere! Não vá! Eu te amo! Eu preciso de você!”, ele implorou, a voz rouca de desespero.
Helena o olhou nos olhos, a compaixão substituindo a raiva. Havia uma tristeza profunda em seu olhar. “Elias, o que você chama de amor é possessão. É controle. Eu preciso de liberdade. Preciso de verdade. E você não pode me dar nada disso.”
Ela puxou o braço com força, libertando-se dele. “Eu não posso mais viver nessa mentira. Eu vou recuperar o que é meu. E você vai pagar por tudo o que fez.”
Ao sair da mansão, o eco das palavras cruéis de Elias e a súplica de seu coração ferido a acompanhavam. O sol brilhava intensamente agora, mas para Helena, a tempestade interior continuava. A batalha pela verdade, pela justiça e pela recuperação de seu legado estava apenas começando. E ela sabia que teria que ser forte, mais forte do que jamais imaginara ser.