Amor nas Alturas 192

Capítulo 13 — As Ruas da Saudade e o Sussurro do Passado Enclausurado

por Isabela Santos

Capítulo 13 — As Ruas da Saudade e o Sussurro do Passado Enclausurado

O Rio de Janeiro pulsava em um ritmo frenético, mas para Helena, o tempo parecia ter desacelerado, congelado no momento em que a verdade sobre Elias e sua mãe a atingiu. A mansão dele, com sua opulência fria, tornara-se um símbolo de sua desilusão. As ruas que antes a acolhiam com o calor familiar agora a envolviam em uma névoa de saudade e amargura. Ela precisava de um refúgio, de um lugar onde pudesse respirar longe da hipocrisia que a cercava. E esse lugar, ela sabia, estava em um canto esquecido de sua memória, um lugar que ela própria havia se proibido de revisitar por anos: o casarão em Santa Teresa, o lar de sua infância, onde as memórias de sua mãe, antes de todo o escândalo, ainda pairavam.

O táxi serpenteava pelas ladeiras de Santa Teresa, a paisagem urbana dando lugar a uma vegetação exuberante e a casas coloridas que pareciam espreitar por entre as árvores. Helena sentia uma mistura de apreensão e nostalgia a invadir o peito. Cada curva, cada vista panorâmica da cidade, trazia à tona lembranças adormecidas. Lembrava-se de correr pelos corredores daquele casarão, de subir nas árvores do jardim, de ouvir as histórias que sua mãe lhe contava à luz de velas.

Ao chegar, o portão de ferro forjado, outrora imponente, agora ostentava sinais de ferrugem, mas a beleza decadente do lugar ainda era palpável. O casarão, com suas janelas amplas e varandas de ferro, parecia um convite ao passado. Helena desceu do carro, sentindo o ar mais puro, mais leve, impregnado do perfume das flores do jardim.

Ela abriu o portão enferrujado, o ranger ecoando no silêncio da tarde. O jardim estava um pouco descuidado, mas ainda exalava um charme melancólico. Havia um balanço antigo preso a uma mangueira, um lugar onde ela e sua mãe passavam horas conversando. Helena se aproximou, sentando-se no balanço desgastado. O movimento suave para frente e para trás trouxe um turbilhão de lembranças.

Lembrou-se da risada de sua mãe, do seu perfume suave de jasmim, da forma como ela segurava sua mão enquanto caminhavam pela praia. Eram memórias tão vivas, tão puras, que contrastavam brutalmente com a imagem da mulher que Elias descrevera, uma mulher cúmplice de suas fraudes. A dor se misturava à confusão. Como a mesma mulher poderia ser ambas as coisas?

Com um suspiro, Helena se levantou e entrou na casa. A porta rangeu ao ser aberta, revelando um interior empoeirado e sombrio. O mobiliário clássico, coberto por lençóis brancos, parecia fantasmagórico. O cheiro de mofo e de madeira antiga pairava no ar. Era um cheiro diferente do jasmim, um cheiro de esquecimento, de tempo parado.

Ela caminhou pelos cômodos, cada passo levantando nuvens de poeira. Na sala de estar, o piano de cauda, outrora palco de melodias alegres, agora estava mudo e coberto. Na biblioteca, os livros empoeirados pareciam guardar segredos há muito esquecidos. Helena sentia uma estranha sensação de estar em um lugar que conhecia tão bem, mas que ao mesmo tempo lhe parecia completamente desconhecido.

Foi no quarto de sua mãe que ela sentiu a presença mais forte. A cama antiga, o espelho emoldurado em prata, o penteadeira com seus objetos pessoais. Helena se aproximou da penteadeira, onde encontrou uma caixa de madeira entalhada. Sua mãe sempre a guardava com carinho, dizendo que ali estavam suas lembranças mais preciosas.

Com as mãos trêmulas, Helena abriu a caixa. Dentro, encontrou cartas antigas, um pequeno álbum de fotografias desbotadas, e um diário de capa de couro, fechado com um pequeno cadeado. As cartas eram de seu pai, o Dr. Antônio, de quando eles eram jovens e apaixonados. As fotos mostravam um casal sorridente, cheio de vida, e ao lado deles, uma Helena criança, radiante.

Mas foi o diário que prendeu sua atenção. O cadeado parecia corroído pelo tempo. Com um pouco de esforço, Helena conseguiu abri-lo. As primeiras páginas contavam a história de amor de seus pais, a paixão avassaladora que os unira. Mas à medida que ela avançava na leitura, a narrativa mudava. Havia menções a dificuldades financeiras, a pressões externas, e a um certo “investidor” que prometia salvar a família.

“Eu confiei nele”, Helena leu em uma passagem, a letra de sua mãe ligeiramente tremida. “Ele parecia tão confiável, tão… encantador. Ele prometeu que tudo ficaria bem. Que a nossa família estaria segura. Mas agora… agora eu vejo o perigo. Vejo o que ele está fazendo.”

A “investidor” a que sua mãe se referia, Helena sabia, era Elias. Um frio percorreu sua espinha. Sua mãe sabia. Ela havia sido enganada, assim como ela. Mas por que ela permitiu que Elias continuasse? Por que não a alertou?

À medida que Helena mergulhava mais fundo no diário, ela descobriu a terrível verdade. Elias não apenas manipulou a situação financeira da família, mas também explorou as vulnerabilidades de sua mãe, prometendo protegê-la e a Helena caso ela se aliasse a ele. Havia menções a chantagens, a ameaças veladas. Sua mãe, em um ato de desespero e para proteger Helena de um escândalo ainda maior, acabou cedendo à pressão.

“Eu tenho medo, Helena. Medo do que ele pode fazer. Medo de perder tudo o que resta. Eu não queria que você soubesse. Queria te proteger. Mas agora… agora eu me sinto tão suja, tão impotente.”

As lágrimas de Helena caíam sobre as páginas empoeiradas. A imagem de sua mãe, a figura forte e virtuosa que ela tanto admirava, se transformava em uma mulher atormentada, presa em uma teia de enganos. O sussurro do passado, enclausurado naquele diário, revelava uma história de sacrifício e desespero, uma história que Helena jamais imaginou.

O sol começava a se pôr, pintando o céu de tons alaranjados e rosados, mas a luz que entrava pelas janelas do casarão não dissipava a escuridão que pairava sobre o coração de Helena. Ela fechou o diário, sentindo o peso de cada palavra. A saudade de sua mãe se misturava à raiva pela forma como Elias a utilizara.

Ela não estava mais sozinha em sua dor. A verdade, por mais cruel que fosse, a libertava de uma ilusão. Sua mãe, em sua fragilidade e desespero, havia tentado protegê-la da melhor forma que podia, mesmo que isso significasse se corromper. Helena sentiu um misto de compaixão e tristeza profunda pela mãe que ela nunca conheceu verdadeiramente, a mãe que lutou contra seus próprios demônios em silêncio.

Ao sair do casarão, o ar da noite já começava a esfriar. As ruas de Santa Teresa, antes familiares, agora pareciam carregar o peso das memórias e dos segredos. O sussurro do passado, antes enclausurado, agora ecoava em sua alma, impulsionando-a para a próxima etapa de sua jornada: a busca por justiça, não apenas para si mesma, mas também para a imagem de sua mãe, que Elias ousara manchar.

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