Entre o Amor e o Ódio 193
Capítulo 13 — O Fantasma do Passado e a Nova Coleção
por Isabela Santos
Capítulo 13 — O Fantasma do Passado e a Nova Coleção
A tranquilidade relativa que Clara encontrou no apartamento de Mariana não durou muito. Os ecos da traição de Viana ainda ressoavam em sua mente, mas agora, mesclados a uma nova energia criativa, eles se transformavam em combustível para sua nova jornada. A ideia de criar sua própria marca de moda, de dar vida a seus desenhos adormecidos, era um farol em meio à tempestade que havia vivido.
“Eu preciso de um ateliê, Mari. Um lugar onde eu possa trabalhar em paz, onde eu possa dar asas à minha imaginação sem me preocupar com nada.” Clara disse, enquanto folheava uma revista de moda antiga, com os olhos fixos nos detalhes de um vestido de alta costura. A inspiração parecia brotar de todos os lugares.
Mariana assentiu, pensativa. “Eu tenho um espaço que seria perfeito. É um antigo armazém meu, no centro, que eu nunca cheguei a usar. É grande, bem iluminado, com espaço suficiente para máquinas de costura, manequins, tudo o que você precisar. Posso arrumar tudo pra você, deixar pronto para começar.”
A generosidade de Mariana deixava Clara sem palavras. Era mais do que uma amiga, era um anjo da guarda. “Mari, eu não sei como agradecer. Você está me dando uma nova chance de vida.”
“Não agradeça, Clara. Apenas faça o seu melhor. Mostre a todos, e principalmente a você mesma, do que você é capaz.” Mariana sorriu, um sorriso que transmitia confiança e fé. “E sobre o Viana… eu não tenho boas notícias. Sabe aquele evento beneficente que a família dele organiza todo ano? Parece que ele vai usar a ocasião para lançar alguma coisa nova no mercado. Algo que ele diz ser uma ‘inovação’ na área imobiliária, mas… conhecendo o Viana, deve ser mais uma jogada para encobrir alguma coisa.”
A menção de Viana sempre trazia uma nuvem escura para Clara, mas agora, com o projeto da sua coleção em mente, a raiva se transformava em determinação. “Ele não vai me impedir de seguir em frente. Eu vou criar a minha coleção, e ela vai ser a minha resposta para ele.”
Os dias seguintes foram um turbilhão de atividades. Mariana providenciou o ateliê, um espaço amplo e arejado, com grandes janelas que permitiam a entrada abundante de luz natural. Clara, com a ajuda de Mariana e de alguns costureiros de confiança que ela indicou, começou a dar vida aos seus desenhos. O esboço do vestido de noiva foi o ponto de partida. Ela o reinventou, transformando-o em uma peça de alta costura, elegante e moderna, com detalhes que remetiam à sua força recém-descoberta.
Enquanto trabalhava, Clara se sentia mais viva do que nunca. A cada ponto, a cada corte de tecido, ela sentia que estava reconstruindo a si mesma. As memórias de Viana, antes dolorosas, agora se tornavam cicatrizes de uma batalha vencida. Ela trabalhava incansavelmente, mergulhada em seu mundo de tecidos, cores e formas.
Certa tarde, enquanto escolhia tecidos em uma loja renomada no centro da cidade, Clara se deparou com um rosto familiar. Era a Sra. Helena Andrade, uma antiga conhecida de sua mãe, uma mulher elegante e discreta, mas com um olhar perspicaz.
“Clara? Meu Deus, é você mesma? Como você está, minha querida?” A Sra. Andrade se aproximou, um sorriso genuíno em seu rosto. “Faz tanto tempo que não a vejo. Soube que você estava passando por momentos difíceis com aquele Viana…”
Clara sentiu um nó na garganta ao ouvir o nome dele, mas forçou um sorriso. “Sra. Andrade, que bom vê-la. Sim, tem sido… um período de aprendizado.”
A Sra. Andrade a olhou com compaixão. “Aprendizado que nos torna mais fortes, não é? Mas eu sempre soube que você tinha um grande potencial, Clara. Sua mãe falava muito do seu talento para o design.”
O coração de Clara deu um salto. Sua mãe. Ela sentiu uma pontada de saudade misturada à determinação. “Eu estou voltando a desenhar, Sra. Andrade. Estou começando uma nova coleção.”
Os olhos da Sra. Andrade brilharam de interesse. “Que maravilha! Eu adoraria ver seus trabalhos quando estiverem prontos. E, quem sabe, te ajudar de alguma forma. Tenho alguns contatos no mundo da moda que podem ser úteis.”
A conversa com a Sra. Andrade foi um bálsamo para Clara. Era a validação que ela precisava, a confirmação de que seu talento não havia desaparecido. Ela saiu da loja com um novo ânimo, levando consigo não apenas os tecidos, mas também a promessa de apoio e a esperança de que seu trabalho pudesse alcançar um público maior.
No entanto, o fantasma do passado não tardou a se manifestar novamente. Uma semana depois, enquanto finalizava um dos vestidos mais importantes de sua coleção, Clara recebeu uma ligação inesperada. Era o escritório de Viana.
“Senhorita Clara Mendonça? Aqui é do escritório do Sr. Viana. Ele gostaria de convidá-la para uma conversa. É sobre um assunto importante relacionado a uma antiga parceria.” A voz do interlocutor era fria e profissional.
Clara sentiu o sangue gelar. Uma “antiga parceria”? Sabia que Viana não desistiria tão facilmente. Ele estava tentando manipulá-la de novo, talvez para descobrir sobre sua nova coleção, talvez para envolvê-la em algum novo esquema.
“Agradeço o convite, mas não me interesso,” Clara respondeu, a voz firme, mas com uma pontada de apreensão.
“Senhorita Mendonça, o Sr. Viana insiste. Ele acredita que vocês têm assuntos pendentes que precisam ser resolvidos para o bem de ambos.”
Clara respirou fundo, lembrando-se das palavras de Mariana sobre estar atenta. “Por favor, diga ao Sr. Viana que eu estou muito ocupada com a minha nova coleção. Ele pode nos encontrar no evento beneficente da família dele. É lá que ele parece gostar de anunciar suas ‘inovações’.” Clara desligou o telefone, o coração batendo forte.
Ela sabia que Viana não iria desistir. Ele era como um predador, sempre espreitando, sempre buscando uma brecha. Mas Clara não era mais a mesma mulher. A dor da desilusão a havia tornado mais forte, e a criação de sua nova coleção lhe dera um propósito. Ela não iria ceder às manipulações dele. Ela iria provar a Viana, e a si mesma, que ela era capaz de criar sua própria história, um capítulo de cada vez, com a força de sua arte e a determinação de quem escolheu não ser mais vítima. O evento beneficente se aproximava, e Clara sabia que seria o palco para o próximo ato de sua luta contra as sombras do passado.