Entre o Amor e o Ódio 193
Capítulo 3 — A Sombra de Viana e a Fúria de Aurora
por Isabela Santos
Capítulo 3 — A Sombra de Viana e a Fúria de Aurora
O sol da manhã mal rompera o horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados e rosados, mas a serenidade matinal era um luxo que a fazenda Boa Vista não podia mais se permitir. O encontro com Matias Viana na véspera havia deixado um rastro de apreensão, e a chegada inesperada de Daniel Almeida durante a noite adicionava uma camada de mistério e desconfiança. Aurora sentia-se em um turbilhão, o coração dividido entre o ódio pelo credor implacável e a curiosidade pelo forasteiro enigmático.
Ela observou Daniel Almeida durante o café da manhã. Ele se movia com uma graciosidade discreta, respondendo às perguntas de Dona Clara e Arnaldo com a mesma calma e polidez que demonstrara na noite anterior. No entanto, Aurora não conseguia tirar de sua mente a sensação de que ele escondia algo. Seus olhos, em determinados momentos, pareciam carregar um peso de experiências que iam além de um simples viajante em busca de um lugar para recomeçar.
"Senhor Almeida, o senhor disse que tem amigos na cidade", disse Arnaldo, tentando sondar um pouco mais sobre o passado do recém-chegado. "Quem o indicou para vir até aqui?"
Daniel Almeida tomou um gole de café, seus olhos fixos na xícara. "Um comerciante. Ele me falou sobre a beleza desta região, antes da seca castigar tanto. E mencionou que o senhor, coronel, era um homem de palavra e que, talvez, pudesse estar aberto a novas parcerias."
Parcerias. Aurora sentiu uma pontada de esperança. Se Daniel Almeida pudesse oferecer algum tipo de parceria, talvez houvesse uma saída. Mas a desconfiança era mais forte. Ele parecia bem informado sobre a situação da fazenda, o que era incomum para um mero viajante.
"Parcerias?", Arnaldo soltou um suspiro cansado. "Neste momento, meu jovem, o que eu preciso é de dinheiro. E o senhor, desculpe a franqueza, parece mais um homem precisando de ajuda do que alguém para oferecê-la."
Daniel Almeida não se ofendeu. Ele apenas assentiu com a cabeça, um leve sorriso nos lábios. "Eu entendo sua posição, coronel. Mas às vezes, a ajuda vem de onde menos se espera. E parcerias nem sempre significam dinheiro. Podem significar trabalho, inteligência, novas ideias."
Aurora sentiu uma faísca de interesse. Novas ideias. Inteligência. Ela precisava de tudo isso. A sabedoria de seu pai estava obscurecida pela desesperança, e ela, embora cheia de vontade, sentia-se inexperiente diante de tantos problemas.
"Que tipo de trabalho o senhor oferece?", perguntou Aurora, a voz tingida de esperança cautelosa.
Daniel Almeida a olhou diretamente, seus olhos penetrantes encontrando os dela. "Eu sei trabalhar com a terra. Sei consertar máquinas, construir cercas, lidar com animais. E tenho… um olhar para o que pode ser melhorado."
"Melhorado?", repetiu Arnaldo, cético. "O que pode ser melhorado em uma terra que o sol está transformando em pó?"
"Talvez métodos de irrigação mais eficientes. Talvez o plantio de espécies mais resistentes à seca. Talvez a diversificação da criação. Há sempre algo que pode ser feito, coronel. Se houver vontade e conhecimento." Daniel Almeida fez uma pausa, e seu olhar se tornou mais sério. "O senhor mencionou Matias Viana. Sei quem ele é. Um homem que prospera na desgraça alheia."
A menção de Viana pelo nome, e com aquela conotação negativa, fez Aurora sentir uma pontada de apreço pelo forasteiro. Ele parecia ter uma visão clara da realidade, e isso era algo que faltava em muitos na região, cegos pela ganância ou pela ingenuidade.
"E o que o senhor faria a respeito de homens como ele?", perguntou Aurora, a voz carregada de um ódio que ela tentava controlar.
Daniel Almeida deu um sorriso irônico. "Contra homens como Viana, senhorita Aurora, a melhor arma é a resiliência e a inteligência. Não se pode vencê-lo na sua própria arena, com a mesma crueldade. É preciso ser mais astuto. Mais forte. Mais determinado." Ele olhou para Arnaldo. "Se me derem uma chance, posso mostrar que há outras formas de lidar com a adversidade, e com quem tenta nos explorar."
As palavras de Daniel Almeida ecoaram na mente de Aurora. Ele falava com uma convicção que a impressionava. Era como se ele entendesse a luta dela, a ânsia de não se render. Mas a desconfiança ainda pairava. Seria ele um salvador inesperado, ou apenas mais um lobo em pele de cordeiro?
Pouco depois do café, enquanto Aurora se preparava para ir verificar a horta, ouviu um barulho na estrada de terra. Um carro, algo raro por ali, se aproximava da fazenda. E não era um carro qualquer. Era uma camionete preta, imponente e nova, que parecia deslocada naquele cenário rústico. Ao volante, um homem que Aurora reconheceu com um aperto no coração: Matias Viana. Ele estava acompanhado de outro homem, mais jovem, de terno, que ela supôs ser um advogado.
O sangue de Aurora ferveu. Ele havia voltado antes do prazo que ele mesmo estabeleceu. A audácia dele era inacreditável. Ela correu para avisar o pai.
"Pai! O Viana voltou! Ele está vindo para cá!"
Arnaldo levantou-se abruptamente da cadeira na varanda, o semblante contraído pela raiva e pela preocupação. "Ele não tem o direito de vir aqui antes do prazo!", exclamou, a voz embargada.
Daniel Almeida, que estava do lado de fora, perto do curral, observando a terra, aproximou-se rapidamente. Seus olhos fixaram-se na camionete que parava em frente à casa grande.
"Parece que o senhor Viana não gosta de esperar", comentou Daniel, a voz neutra, mas com um tom de observação atenta.
Aurora não respondeu. Ela sentia o peso da situação caindo sobre ela. O confronto era inevitável. Ela se posicionou ao lado do pai, a postura firme, os olhos fixos na figura de Matias Viana que descia da camionete com um ar de superioridade.
"Coronel Arnaldo!", gritou Viana, a voz ecoando pelo silêncio tenso. "Vejo que o senhor ainda não tomou a decisão certa."
"Eu disse que não vendo, Viana!", Arnaldo rebateu, a voz embargada pela raiva. "E não tenho que lhe dar satisfações antes do prazo que o senhor mesmo estipulou."
Matias Viana deu uma risada debochada. "Prazos são meras formalidades para homens de negócios, coronel. Eu vim para resolver isso de uma vez por todas. Trouxe meu advogado para formalizar a aquisição da propriedade, que já está praticamente em meus domínios devido às dívidas acumuladas." Ele olhou para Aurora, um sorriso malicioso nos lábios. "E você, senhorita Aurora? Ainda insiste em defender o indefensável?"
Aurora deu um passo à frente, sua determinação inabalável. "Eu insisto em defender o que é meu, o que é da minha família, o que é desta terra. O senhor não vai nos tirar nada!"
Viana a encarou, surpreso com a ousadia dela. "Você é corajosa, menina. Uma pena que sua coragem não seja suficiente para pagar suas contas." Ele se virou para o advogado. "Sr. Almeida, prossiga com a leitura do acordo."
"Um momento!", uma voz firme e calma se fez ouvir. Era Daniel Almeida. Ele se aproximou, posicionando-se entre Aurora e Matias Viana.
Matias Viana virou-se para ele, confuso. "Quem é você? E o que pensa que está fazendo?"
"Eu sou Daniel Almeida", respondeu ele, a voz firme, mas sem demonstrar agressividade. "E estou aqui para garantir que a justiça seja feita."
"Justiça?", Viana soltou uma gargalhada. "Eu sou a justiça! Eu tenho os documentos, as dívidas… Esta terra é minha por direito!"
Daniel Almeida deu um passo à frente, os olhos fixos em Viana. "O senhor pode ter os papéis, Sr. Viana. Mas a posse de uma terra não se resume a tinta em papel. Envolve trabalho, suor, história. E, mais importante, envolve a vontade daqueles que a cultivam."
"E quem é você para falar em nome deles?", Viana retrucou, a raiva começando a surgir em sua voz.
"Eu sou alguém que conhece a lei", disse Daniel, com um tom que fez Viana hesitar. "E conheço os direitos dos fazendeiros em tempos de crise. O senhor não pode simplesmente tomar esta terra, Sr. Viana. Há procedimentos a serem seguidos. E, para sua surpresa, alguns deles protegem o devedor quando há má-fé por parte do credor."
Matias Viana franziu a testa, desconfiado. "Má-fé? Que bobagem é essa?"
"Bobagem?", Daniel Almeida sorriu levemente, um sorriso que não chegava aos olhos. "O senhor, com toda a sua riqueza, tem explorado a seca para adquirir propriedades a preços irrisórios. Tem pressionado fazendeiros desesperados, coagindo-os a vender. Isso, Sr. Viana, é considerado má-fé perante a lei. E, em certas circunstâncias, pode invalidar os acordos."
Aurora observou a cena, maravilhada. Daniel Almeida parecia conhecer o terreno legal, e estava usando isso contra Viana. Era a astúcia que ele havia prometido.
Matias Viana estava visivelmente perturbado. Ele lançou um olhar furioso para Daniel Almeida, depois para o seu advogado. "Isso é um absurdo! Ele está mentindo!"
"Estou mentindo?", Daniel Almeida questionou, com uma calma desconcertante. "Podemos verificar isso nos tribunais, Sr. Viana. E, acredite, tenho meios para provar minha alegação. Talvez seja mais vantajoso para o senhor negociar de outra forma, de forma justa, sem pressões ou ameaças. Sem invadir a propriedade antes do tempo."
A menção de tribunais e a sugestão de má-fé pareceram atingir Viana em seu ponto mais fraco: seu bolso e sua reputação. Ele sabia que uma batalha legal prolongada, especialmente se houvesse indícios de irregularidades, poderia ser prejudicial.
"Você… você é um advogado?", perguntou Viana, a voz tensa.
"Eu sou alguém que sabe quando alguém está tentando jogar sujo", respondeu Daniel, sem responder diretamente. "E que sabe como usar as regras do jogo a favor de quem precisa."
Matias Viana olhou para a fazenda, para Aurora, para o pai dela, e finalmente para Daniel Almeida. Ele percebeu que a situação havia mudado. Sua arrogância inicial se transformou em cautela.
"Muito bem", disse Viana, relutantemente. "Vocês venceram esta rodada. Mas isso não significa que acabamos. O prazo ainda existe. E eu não sou um homem paciente." Ele se virou para o advogado. "Vamos embora. Temos outros assuntos para resolver."
Matias Viana entrou na camionete, seu rosto uma máscara de fúria contida. O advogado o seguiu, lançando um olhar de desconfiança para Daniel Almeida. A camionete partiu, levantando uma nuvem de poeira vermelha que, pela primeira vez, não pareceu o símbolo da derrota, mas sim de uma batalha vencida.
Aurora olhou para Daniel Almeida, o coração batendo descompassado. Ela não sabia se deveria se sentir aliviada, grata, ou ainda desconfiada. Ele havia defendido a fazenda, sim. Mas, por quê? O que o motivava?
"Obrigada, Senhor Almeida", disse Aurora, a voz embargada pela emoção. "O senhor nos salvou."
Daniel Almeida a olhou, um leve sorriso no rosto. "Ainda não acabou, senhorita Aurora. Mas demos um passo importante. Viana é astuto, mas não é invencível."
"Por que o senhor fez isso?", perguntou Aurora, a curiosidade transbordando. "O senhor disse que não conhecia meu pai."
Daniel Almeida olhou para a terra, para o sol que agora brilhava mais forte. "Eu disse que sei o que é perder tudo. E não gosto de ver outros passando pela mesma dor, especialmente quando há homens como Viana se aproveitando dela." Ele a encarou. "E porque eu acredito que esta terra, e as pessoas que a amam, merecem uma chance."
Aurora o observou, sentindo um misto de admiração e perplexidade. Havia algo genuíno em suas palavras, mas a dúvida permanecia. Quem era realmente Daniel Almeida? E qual era o seu verdadeiro interesse na fazenda Boa Vista? O enigma continuava, mas, pela primeira vez em muito tempo, Aurora sentiu uma pequena fagulha de esperança. A sombra de Viana havia sido momentaneamente afastada, e o mistério do homem misterioso se aprofundava.