Alma Gêmea 194
Claro, com a alma cheia de paixão e a caneta a bailar sobre o papel, dou vida a mais estes capítulos da saga de "Alma Gêmea 194".
por Valentina Oliveira
Claro, com a alma cheia de paixão e a caneta a bailar sobre o papel, dou vida a mais estes capítulos da saga de "Alma Gêmea 194".
Capítulo 16 — O Encontro Sob a Lua Rubra
O ar na varanda do casarão pairava denso, carregado com o perfume inebriante das jasmins que desciam em cascata pela treliça. A lua, de um tom rubro incomum, banhava a paisagem com uma luz fantasmagórica, tingindo de vermelho as folhagens e os contornos das figuras que ali se encontravam. Sofia, com o vestido de seda esvoaçando suavemente ao vento, sentia o coração martelar no peito como um tambor desgovernado. Do outro lado, mais perto da balaustrada de ferro forjado que se debruçava sobre o abismo da praia deserta, estava ele. Miguel.
Os olhos dele, escuros como a noite mais profunda, fixaram-se nos dela. Havia neles uma tempestade contida, uma mistura de urgência e desespero que a fazia prender a respiração. Ele não a chamara para aquele encontro, mas a mensagem codificada, entregue por um corvo de plumagem negra a quem ele só se referia como "o arauto", fora clara: "Amanhã, ao primeiro raio de lua rubra, a verdade se revela. O futuro, ambos os futuros, dependem deste momento."
O silêncio entre eles era um oceano onde se afogavam anos de saudade, de desencontros, de escolhas dolorosas. Sofia viu as mãos dele se fecharem em punhos, a mandíbula tensa. Ele parecia um lobo encurralado, forte e perigoso, mas com uma vulnerabilidade que apenas ela, em seu íntimo, conseguia enxergar.
"Sofia", a voz dele soou rouca, um sussurro que o vento quase engoliu. "Eu… eu preciso te dizer tudo."
Ela deu um passo hesitante em sua direção, o som das suas sandálias de couro fazendo um leve ruído no assoalho de madeira. Cada passo era um duelo contra o receio, contra a memória viva da traição, da dor que ele lhe causara. Mas a lua, a lua rubra, parecia tecer um feitiço sobre eles, um convite irresistível para a confrontação, para a redenção, para a catarse.
"Eu estou ouvindo, Miguel", disse ela, a voz firme, disfarçando o tremor que lhe percorria a espinha. Ela o observou de perto agora. A barba rala, os cabelos um pouco mais compridos do que ela se lembrava, a pele bronzeada pelo sol implacável do litoral. Ele parecia mais velho, mais marcado pelas batalhas que travava, fossem elas externas ou internas. E os olhos… os olhos ainda carregavam aquele brilho que, em tempos idos, fizera o coração dela derreter.
"O que você quer que eu ouça, Miguel?", ela acrescentou, a voz adquirindo um tom mais afiado, a defensiva que construíra muro a muro se erguendo mais uma vez. "Que você sentiu saudades? Que se arrepende de ter jogado tudo fora? Que a amante que te sustentou financeiramente durante todo este tempo era apenas um 'mal necessário'?" A ironia em suas palavras era cortante como vidro quebrado.
Miguel ergueu a cabeça, o olhar de confronto direto. "Não é isso, Sofia. E você sabe que não é. Você sabe que a minha busca foi por algo maior, por um legado que me foi roubado, por uma verdade que me foi ocultada."
"E eu fui… o quê? Um sacrifício no altar dessa sua busca, Miguel? Um peão descartável no seu jogo perigoso?" Ela não conseguia conter a amargura que transbordava. Cada palavra era um golpe, um eco dos anos de sofrimento.
Ele deu um passo em direção a ela, mas parou a uma distância respeitosa. O semblante dele era de profunda tristeza. "Você nunca foi um sacrifício, Sofia. Você sempre foi… a minha estrela guia. A única luz que me impedia de me perder completamente na escuridão." Ele respirou fundo, como se as palavras estivessem presas em sua garganta. "A mulher que entregou a sua carta, aquela que você achou que era o fim de tudo… ela era a irmã de um homem que meu pai traiu. Um homem que jurou vingança não contra mim, mas contra toda a minha família. Ela me usou, Sofia. Usou o nosso amor para me desestabilizar, para chegar mais perto do que eu protegia. E eu permiti. Eu fui tolo. Fui cego pela raiva, pela necessidade de provar a minha força. E perdi você no processo."
Sofia sentiu um arrepio percorrer o seu corpo, mas não de medo. Era algo mais profundo, uma corrente elétrica de choque e compreensão. Ela se lembrou da carta, das palavras cruéis, do vazio que ela deixara. Agora, tudo começava a fazer um sentido terrível e sombrio. A "amante" que ele mencionou… era a vingança em pessoa?
"Você está dizendo que tudo… que tudo o que você fez, o afastamento, a frieza… tudo foi para me proteger?", ela perguntou, a voz embargada pela emoção. A lua rubra parecia pulsar, intensificando a atmosfera de revelação.
"Sim", Miguel respondeu, os olhos fixos nos dela. "E mais. O legado que meu pai deixou não é apenas dinheiro, Sofia. É uma responsabilidade. Algo que me foi ocultado por anos, algo que ameaça a todos nós. E aquela mulher, a irmã daquele homem traído, ela sabia. Ela queria usar o meu nome, a minha influência, para recuperar o que acreditava ser seu. E para isso, ela precisava me ver desesperado, precisava me despojar de tudo o que eu tinha de mais valioso. Inclusive você."
Ele se aproximou um pouco mais, a intensidade em seu olhar se intensificando. "Quando ela me entregou a sua carta, eu soube. Soube que era uma armadilha. Se eu viesse atrás de você, ela ganharia mais controle sobre mim. Se eu a rejeitasse publicamente, como fiz, ela esperava me ver quebrar. Mas ela não contava com a minha… a minha estratégia."
Sofia se aproximou também, o medo dando lugar a uma curiosidade ardente e um sentimento de esperança que ela se recusava a admitir, mas que lutava para emergir. "E qual era a sua estratégia, Miguel?"
Ele estendeu a mão, hesitante, como se temesse que ela a repelisse. "Fazer você odiar-me o suficiente para se afastar de mim por conta própria. Para que você ficasse segura. Para que ela não tivesse mais um ponto de alavancagem contra mim. Eu escolhi a dor que eu causaria a nós dois em vez da destruição certa que ela traria." Ele finalmente tocou o rosto dela, o polegar acariciando a sua bochecha, um gesto que ela esperara por tanto tempo. "Cada palavra cruel, cada olhar de desprezo, era um escudo para você. Eu me tornei o monstro que você acreditou que eu era para que você pudesse viver. Mas a verdade é que eu nunca deixei de te amar, Sofia. Nunca, em nenhum momento."
As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Sofia, mas eram lágrimas de alívio, de perdão, de um amor que, mesmo ferido, sobrevivera. Ela fechou os olhos por um instante, sentindo o calor da mão dele em sua pele, a realidade daquele momento dissipando as sombras do passado.
"Por que agora, Miguel?", ela sussurrou, abrindo os olhos para encarar a verdade que se revelava sob a lua rubra. "Por que me contar tudo isso só agora?"
"Porque a ameaça não passou, Sofia. Na verdade, ela está mais forte do que nunca. E eu não posso mais te manter distante. Eu preciso de você. Precisamos enfrentar isso juntos." Ele a puxou suavemente para si, o abraço envolvendo-a como um refúgio. O cheiro dele, uma mistura de mar e aventura, a envolvia, dissipando qualquer vestígio de dúvida.
"Juntos?", ela repetiu, a voz um fio de esperança.
"Sim, Sofia. Juntos. Com você ao meu lado, eu sou invencível. E com você, podemos proteger o que é nosso. Podemos reconstruir tudo o que foi ameaçado." Ele a afastou um pouco, os olhos fixos nos dela, a promessa de um futuro incerto, mas cheio de possibilidades, pairando entre eles. "Mas há mais. Algo que o seu irmão, o seu protetor, me confiou antes de… antes de tudo vir à tona."
Sofia sentiu um arrepio de apreensão. "O que ele confiou a você?"
Miguel hesitou por um momento, a expressão séria. "Ele me entregou algo. Um objeto. Um segredo. Algo que só pode ser revelado a você. E ele me fez jurar, pela nossa antiga amizade, que eu o faria. Mas as circunstâncias… elas me impediram. Até agora."
A lua rubra parecia atingir o seu ápice, o mundo em volta deles silenciado, apenas o som das ondas quebrando na praia e o bater acelerado dos seus corações ecoando na noite. A teia se desfazia, mas uma nova, muito mais complexa e perigosa, começava a ser tecida. E nela, Sofia e Miguel estavam, finalmente, juntos.