Cap. 2 / 25

Alma Gêmea 194

Capítulo 2 — Ecos do Passado em um Jantar Inesperado

por Valentina Oliveira

Capítulo 2 — Ecos do Passado em um Jantar Inesperado

O aroma de café fresco e pão de queijo recém-assado impregnava o ar da casa de Dona Adelaide. Clara estava na cozinha, preparando o café da manhã com uma certa pressa, impulsionada pela energia renovada que sentia após o encontro na Fonte dos Amores. A conversa com Daniel havia sido breve, mas intensa. Ele era um historiador local, interessado em desvendar as histórias esquecidas de Poços de Caldas. Uma paixão que, de certa forma, espelhava a busca de Clara.

Ela se lembrava do olhar dele quando ela mencionou a carta de Cecília. Havia um interesse genuíno, uma curiosidade que ia além da mera polidez. Ele se oferecera para ajudar, para guiá-la pelos meandros da história da cidade, por seus recantos escondidos e por seus personagens esquecidos. E Clara, para sua própria surpresa, aceitara.

Enquanto espalhava manteiga em uma torrada, Clara reviveu o momento em que Daniel falou sobre saudade. "Saudade de um tempo que não volta mais, de um amor que talvez nunca tenha existido de verdade, mas que vive na memória." Aquelas palavras ressoaram profundamente nela. Será que ele também estava em Poços de Caldas em busca de algo? Um amor perdido, um passado que o assombrava?

A porta da sala se abriu, e Clara ouviu passos se aproximando. Era Daniel. Ele havia prometido passar para conversar melhor sobre a pesquisa, e aparentemente, era pontual.

"Bom dia, Clara", ele disse, entrando na cozinha com um sorriso caloroso. Ele usava uma camisa de linho clara, aberta no colarinho, e parecia ainda mais charmoso em seu ambiente natural. "Espero não estar incomodando."

"De jeito nenhum", Clara respondeu, sentindo um calor subir pelo pescoço. "O café está quase pronto. Sente-se."

Enquanto tomavam café, Daniel começou a falar sobre a história de Poços de Caldas, sua época de ouro como destino de saúde e lazer da elite brasileira e argentina. Ele mencionou as mansões imponentes, os bailes luxuosos nos cassinos (hoje desativados) e os amores que floresceram e se perderam nas paisagens bucólicas.

"Muitas histórias se perderam nas brumas do tempo", Daniel disse, com um toque de melancolia na voz. "Mas algumas, como a que você está buscando, teimam em ressurgir. A Fonte dos Amores, por exemplo, é um lugar místico. Dizem que os casais que bebem de suas águas juntos terão um amor eterno. Mas também é um local de despedidas."

"Despedidas?", Clara perguntou, intrigada.

"Sim. Muitas histórias de amores impossíveis começaram e terminaram ali. Amores proibidos pela sociedade, amores que foram interrompidos por guerras, por doenças, por convenções sociais...", ele explicou. "Às vezes, o amor não é suficiente para superar tudo."

Clara mostrou a ele a carta de Cecília. Daniel a pegou com cuidado, admirando a caligrafia. "Cecília... um nome de antigamente. Minha avó, Dona Adelaide, nunca falou muito sobre ela, apenas que ela partiu muito jovem, em busca de aventuras."

Daniel leu a carta em silêncio, seus olhos percorrendo cada palavra com atenção. Quando terminou, ele suspirou. "A Fonte dos Amores... a referência é clara. Mas o que ela buscava ali? Um amor? Uma confissão? Um segredo?"

"É exatamente isso que eu preciso descobrir", Clara disse, sentindo a adrenalina da investigação crescer. "Minha tia-avó desapareceu na Europa pouco tempo depois de ter escrito esta carta. Nunca mais se teve notícias dela. Acredito que Poços de Caldas tenha sido o último lugar onde ela esteve antes de partir. E talvez, o último lugar onde viveu um grande amor."

"Seu desejo de honrar a memória dela é admirável, Clara", Daniel disse, seus olhos fixos nos dela. "Estou disposto a ajudar no que for preciso. Conheço a cidade como a palma da minha mão. E suas histórias... ah, as suas histórias são o meu alimento."

Eles passaram a manhã mergulhados na pesquisa. Daniel a levou para a biblioteca municipal, um prédio antigo com cheiro de livros empoeirados e um silêncio quase sagrado. Ele a apresentou a funcionários antigos, que muitas vezes guardavam em suas memórias mais informações do que os próprios arquivos. Procuraram por jornais da época, por registros de hotel, por qualquer menção a uma jovem chamada Cecília.

"Naquela época, Poços era um destino internacional", Daniel explicou, folheando um álbum de fotografias antigas da biblioteca. "Muitas famílias ricas vinham para o tratamento nas águas termais, para o clima ameno. E com elas, vinham seus filhos, em busca de romances e diversão."

"Será que Cecília era de uma família rica?", Clara se perguntou em voz alta.

"Não tenho certeza", Daniel respondeu. "O nome dela não me soa familiar entre as famílias tradicionais de Poços. Pode ter sido alguém que veio de fora. E em Poços, muitas vezes, os romances aconteciam entre os visitantes e os locais. Ou entre os visitantes de diferentes origens."

A tarde chegou, e eles ainda não haviam encontrado nenhuma pista concreta. Clara sentia uma pontada de frustração, mas a companhia de Daniel a tornava a busca menos árdua. Ele tinha um jeito leve de lidar com os impasses, sempre encontrando um novo ângulo para explorar.

"Que tal um pequeno intervalo?", Daniel sugeriu, vendo o cansaço no rosto de Clara. "Tenho um lugar que preciso mostrar a você. Um lugar que tem uma vista incrível da cidade e onde podemos comer um bolinho de chuva delicioso. É um pouco escondido, fora do roteiro turístico."

Clara aceitou, curiosa. Daniel a guiou por uma trilha sinuosa que subia a serra. O caminho era estreito, ladeado por árvores altas e densas. O sol, agora mais baixo no céu, criava um jogo de luz e sombra nas folhas. O ar estava mais fresco, perfumado por pinheiros e flores silvestres.

Finalmente, chegaram a um pequeno platô. A vista era deslumbrante. Poços de Caldas se estendia aos seus pés, um mosaico de telhados coloridos e construções antigas, cercado pela imensidão verde das montanhas. No centro do platô, havia uma pequena construção de madeira, com uma varanda charmosa. Era um café simples, com mesas espalhadas ao ar livre.

"Este é o 'Mirante das Nuvens'", Daniel anunciou com um sorriso. "Um dos meus lugares favoritos. A dona, Dona Lurdes, faz os melhores bolinhos de chuva da região. E o café dela é feito na hora."

Sentaram-se a uma mesa com vista para o vale. Dona Lurdes, uma senhora simpática de cabelos brancos e sorriso acolhedor, logo apareceu para anotar o pedido. Eles pediram café e um prato de bolinhos de chuva quentinhos.

Enquanto saboreavam os bolinhos, Daniel retomou a conversa sobre Cecília. "O que mais você se lembra sobre ela, Clara? Alguma peculiaridade, algum objeto que ela sempre carregava, alguma história contada por sua avó?"

Clara franziu a testa, tentando puxar da memória qualquer detalhe. "Minha avó dizia que Cecília era muito corajosa, que tinha um espírito livre. E que ela adorava música. Tocava piano, acho. E... ela tinha um certo fascínio por joias antigas. Minha avó guardava um broche de pérolas que pertencia a Cecília."

"Um broche de pérolas...", Daniel repetiu, pensativo. "Isso pode ser uma pista importante. Joias antigas muitas vezes contavam histórias, eram passadas de geração em geração, ou tinham significados ocultos."

"Mas como um broche nos ajudaria a encontrar algo sobre ela aqui em Poços?", Clara perguntou.

"Às vezes, o objeto é apenas o gatilho. Talvez esse broche tenha sido um presente, ou algo que Cecília tenha deixado para trás. Ou, quem sabe, algo que ela tenha adquirido aqui em Poços", Daniel especulou. "As joalherias antigas da cidade, mesmo as que não existem mais, podem ter registros. Ou talvez, alguém ainda se lembre dela."

A conversa fluiu, leve e profunda, pontuada pelas risadas de Dona Lurdes que passava para recolher os pratos vazios. O sol começou a se pôr, pintando o céu com tons de laranja, rosa e roxo. A vista do Mirante das Nuvens era de tirar o fôlego.

"Sabe, Daniel", Clara disse, sua voz suave na brisa do entardecer. "Eu me sinto muito mais confiante agora. Sua ajuda está sendo inestimável."

Daniel olhou para ela, seus olhos azuis refletindo a luz dourada do sol poente. "É um prazer, Clara. Sinto que estou revivendo um pouco da história da minha própria família, já que minha família também está ligada a esta cidade há gerações. E há algo em sua busca que me toca profundamente. Talvez eu também esteja procurando por algo que se perdeu no tempo."

Um silêncio confortável se instalou entre eles, carregado de uma emoção sutil, um reconhecimento mútuo de solidão e de um anseio por conexão.

"Amanhã, podemos começar a investigar as joalherias antigas e os registros de pessoas que frequentavam Poços na década de 1950", Daniel sugeriu, quebrando o silêncio. "Talvez encontremos alguma menção a Cecília, ou a alguém que a conhecesse."

"Ótimo plano", Clara concordou, sentindo uma onda de gratidão e de algo mais, algo que ela não ousava nomear ainda.

Ao descerem a serra, de volta à cidade que ganhava vida com as luzes noturnas, Clara sentiu que a saudade que a trouxera a Poços de Caldas estava começando a ser preenchida. Preenchida não apenas pela esperança de desvendar o mistério de Cecília, mas também pela presença inesperada e reconfortante de Daniel. A cidade que parecia ser o cenário de uma busca solitária, agora, se tornava um palco para um reencontro, para a possibilidade de uma nova conexão, de um amor que, quem sabe, não seria mais apenas um eco do passado.

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