Promessas Quebradas 195

Capítulo 2 — A Sombra do Passado em Pedra e Cal

por Valentina Oliveira

Capítulo 2 — A Sombra do Passado em Pedra e Cal

O casarão colonial, outrora um símbolo de prosperidade e lar de memórias afetivas, agora se erguia como um guardião silencioso de segredos e de uma atmosfera carregada. Helena, ao atravessar o portão de ferro forjado, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era ali, naquele lugar, que a vida dela e de Miguel se entrelaçaram de forma tão intensa, e onde a dor do abandono a havia forçado a partir.

Ela tinha voltado para Paraty após anos longe, para tomar conta de um pequeno ateliê de artesanato herdado de sua tia-avó. A cidade, que um dia fora palco de sua felicidade mais pura, agora parecia um labirinto de fantasmas. A cada esquina, uma lembrança; a cada aroma, um flashback. Mas era ali, naquele casarão, que as memórias mais vívidas a assombravam.

Miguel. O nome dele pairava no ar como um perfume inebriante e venenoso. Ela o amou com a intensidade de quem não conhece limites, com a fé cega da juventude. E ele a amou de volta, ou assim ela acreditava. Até o dia em que tudo desmoronou, sem aviso, sem explicação. Ele simplesmente desapareceu, deixando-a sozinha, com um coração partido e um futuro incerto.

Entrou na casa. O cheiro de mofo e de poeira se misturava ao perfume adocicado de flores secas, um contraste que ela reconhecia. Dona Clara sempre gostava de ter flores em casa, mesmo quando já não tinham o mesmo viço. A mobília antiga, pesada e imponente, estava coberta por lençóis brancos, como se estivesse em um luto permanente.

Helena caminhou pela sala de estar, os passos ecoando no silêncio sepulcral. A luz que entrava pelas janelas altas e em arco criava feixes dourados na poeira suspensa, iluminando efêmeras partículas de vida em meio à quietude da morte. Seus olhos pousaram em um piano de cauda, coberto por um lençol empoeirado. Quantas vezes ela se sentou naquele banco, ouvindo Dona Clara tocar melodias suaves que a embalavam em sonhos? E quantas vezes Miguel se juntou a elas, com um sorriso nos lábios, prometendo que aquele seria o cenário de muitas tardes futuras.

Ela se aproximou do piano, hesitando antes de puxar um canto do lençol. As teclas amareladas e empoeiradas revelaram-se. Um suspiro escapou de seus lábios. Naquele piano, Miguel tocara para ela, compondo melodias improvisadas que pareciam falar diretamente à alma dela. E foi ali, em uma tarde chuvosa, que ele lhe fez a promessa mais importante de todas, um juramento selado com um beijo apaixonado.

“Prometo que nunca vou te deixar, meu amor. Sempre estarei aqui, ao seu lado, aconteça o que acontecer.”

A promessa. Quebrada. Desfeita em mil pedaços, como um vaso de porcelana que cai no chão.

Helena sentiu as lágrimas quentes molharem seu rosto. Ela tentava não chorar, tentava ser forte, mas a casa parecia conspirar contra ela, exalando as memórias que ela tanto tentava reprimir. A sala de jantar, com a mesa posta para um jantar que nunca aconteceu; o escritório de Miguel, com livros ainda empilhados nas estantes, como se ele pudesse voltar a qualquer momento para terminar sua leitura.

Ela subiu a escada de madeira maciça, cada degrau rangendo sob seus pés como um lamento. No andar de cima, o corredor era escuro e silencioso. As portas dos quartos estavam fechadas, guardando seus próprios mistérios e lembranças. Ela parou diante da porta do quarto de Miguel. O coração martelava no peito. Tinha coragem de entrar? Tinha forças para encarar o que quer que estivesse ali dentro?

Hesitante, ela girou a maçaneta. A porta se abriu com um rangido suave. O quarto estava impecável, como se Miguel o tivesse deixado há poucas horas. A cama, arrumada, ostentava um edredom escuro. Uma escrivaninha de mogno, com um abajur antigo, estava impecavelmente organizada. Havia livros, papéis, objetos que contavam a história de um homem que ela conheceu tão bem e que, de repente, se tornou um estranho.

Em uma prateleira acima da escrivaninha, ela viu um objeto. Um porta-retrato. Com as mãos trêmulas, ela o pegou. A foto era antiga, um pouco desbotada, mas ainda nítida. Ela e Miguel, jovens, sorrindo, abraçados em uma praia. Era o dia em que ele a pediu em namoro. Seus olhos brilhavam com uma felicidade que ela mal reconhecia em si mesma.

“Eu te amo, Helena”, ele havia dito, a voz embargada pela emoção. “Mais do que as estrelas no céu, mais do que as ondas no mar.”

Ela se sentou na beira da cama, o porta-retrato apertado contra o peito. As lágrimas agora corriam livremente, sem controle. A dor era avassaladora, um peso insuportável que a sufocava. Por que ele a deixou? Por que ele quebrou a promessa mais sagrada?

Ela lembrou da última conversa que tiveram antes dele partir. A noite anterior ao seu desaparecimento. Ele estava estranho, distante. Ela tentou conversar, mas ele a afastou.

“Miguel, o que está acontecendo?”, ela havia perguntado, a voz cheia de apreensão.

Ele a olhou, os olhos turvos, um misto de tristeza e algo que ela não soube identificar. “Nada, meu amor. Só estou um pouco cansado. Amanhã precisamos conversar sobre algumas coisas importantes.”

“Importantes? Sobre o quê?”

Ele a beijou, um beijo longo e intenso, que deveria ter sido reconfortante, mas que soou como uma despedida. “Sobre o nosso futuro, Helena. Sobre tudo.”

E na manhã seguinte, ele não estava mais lá. Apenas uma carta, curta e fria, pedindo desculpas por não poder cumprir suas promessas e desejando-lhe felicidades. Uma carta sem alma, sem o Miguel que ela conhecia.

Helena fechou os olhos, tentando apagar a imagem daquela carta. Ela não queria acreditar. Não queria aceitar que aquele homem, que um dia lhe dedicou poemas e canções, que sonhou acordado com um futuro a dois, pudesse ser tão cruel.

Levantou-se abruptamente, colocando o porta-retrato de volta no lugar. Ela não podia mais se entregar à dor. Precisava encontrar uma saída. Precisava se libertar da sombra do passado que pairava sobre aquele casarão e sobre sua própria vida.

Ela saiu do quarto de Miguel, fechando a porta suavemente. No corredor, parou por um instante, ouvindo o silêncio. O silêncio que um dia foi preenchido pelas risadas e pelas promessas. Agora, era um silêncio que gritava a ausência.

Desceu as escadas, sentindo o peso de cada passo. No hall de entrada, olhou para a porta, para o mundo exterior. O sol já se punha, pintando o céu com tons alaranjados e rosados. Um espetáculo de beleza que contrastava com a escuridão que ela sentia dentro de si.

“Eu voltei para recomeçar”, ela murmurou para si mesma, a voz firme, determinada. “E nada nem ninguém, nem mesmo as sombras do passado, vão me impedir de seguir em frente.”

Mas enquanto saía do casarão, sentiu um olhar sobre si. Virou-se para a janela mais próxima. Miguel estava ali, parado do outro lado da rua, observando-a. A expressão em seu rosto era indecifrável, uma mistura de dor, saudade e algo que ela não conseguiu compreender. E naquele instante, Helena soube que, mesmo que ela quisesse fugir, o passado, na figura de Miguel, parecia decidido a não deixá-la em paz.

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