Promessas Quebradas 195

Capítulo 3 — O Sussurro das Ondas e os Segredos Revelados

por Valentina Oliveira

Capítulo 3 — O Sussurro das Ondas e os Segredos Revelados

O ateliê de Helena, um pequeno refúgio pintado em tons de azul e branco, era o seu santuário. Localizado em uma rua charmosa e tranquila de Paraty, com vista para um dos canais, era ali que ela encontrava paz e se dedicava à sua arte. As paredes eram adornadas com seus trabalhos: cerâmicas delicadas, esculturas em madeira que pareciam dançar com o vento, e quadros pintados com as cores vibrantes da costa brasileira. Cada peça era um pedaço de sua alma, um escape para um mundo onde a beleza e a harmonia reinavam.

Naquela manhã, o sol entrava pelas janelas amplas, iluminando a poeira fina que pairava no ar, quase como um véu prateado sobre a vida. Helena moldava uma peça de argila em seu torno, concentrada, seus dedos ágeis e habilidosos dando forma a um novo sonho. O som suave do torno girando e o murmúrio das ondas lá fora compunham a melodia que a embalava em seu trabalho.

Desde o reencontro com Miguel, ela sentia uma inquietação constante. A aparição dele em Paraty desenterrou feridas que ela acreditava estarem cicatrizadas. Cada vez que seus olhares se cruzavam, cada vez que ele estava por perto, um turbilhão de emoções a assaltava: raiva, dor, mas também, para seu próprio desespero, uma chama de algo que ela achava ter extinguido para sempre.

Um toque suave na porta a tirou de seu devaneio. Era Ana, sua única e fiel amiga em Paraty. Ana, com seus cabelos revoltos e um sorriso sempre presente, era o contraponto perfeito para a melancolia que às vezes se abatia sobre Helena.

“Bom dia, artista!”, cumprimentou Ana, entrando e espalhando um aroma fresco de maresia e café. “Veio cuidar das suas criações ou só admirar o sol?”

Helena sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto. “Um pouco dos dois, amiga. E você, o que traz a essa oficina de sonhos?”

Ana se aproximou, pegando uma pequena escultura de pássaro que repousava em uma prateleira. “O cheiro de café fresco e uma novidade que vai agitar essa sua paz de monge.”

Helena arqueou uma sobrancelha. “O que seria tão bombástico?”

Ana deu um gole em seu café, os olhos brilhando com expectativa. “Miguel. Ele comprou a antiga pousada dos Vasconcelos, ali na beira da praia. Ouvi dizer que ele pretende reabrir em breve, com uma reforma completa. E, pelo que me contaram, ele trouxe um projeto ambicioso de restaurante e galeria de arte.”

A notícia atingiu Helena como um raio. Miguel, em Paraty, com projetos que a envolviam diretamente. Era como se o destino estivesse brincando cruelmente com ela. A pousada dos Vasconcelos era um lugar emblemático, um ponto turístico famoso, e agora seria dele.

“Uma galeria de arte?”, Helena repetiu, a voz quase um sussurro.

“Sim! Parece que ele quer dar um espaço para artistas locais. E ele quer que você seja a curadora, Helena. Dizem que ele fez essa pergunta diretamente para o prefeito, que te indicou na hora. Ele quer você envolvida.”

Helena ficou boquiaberta. Miguel, querendo seu envolvimento em um projeto tão importante? Depois de tudo que aconteceu? O que ele queria? Testá-la? Desafiar seu orgulho? Ou… ou havia algo mais?

“Ele… ele falou comigo?”

“Não diretamente. Mas a prefeitura recebeu o contato dele. E o prefeito já me ligou, me pedindo para te convencer a aceitar. Ele acha que é uma oportunidade incrível para você, Helena. E para a cidade.”

Helena sentiu um nó na garganta. Por um lado, a ideia de trabalhar com Miguel era inimaginável. A dor e a humilhação do passado eram barreiras quase intransponíveis. Por outro lado, a proposta de curadoria de uma galeria de arte em um local tão renomado era o sonho de uma vida para ela. Era a chance de mostrar seu talento, de dar um novo rumo à sua carreira, de se provar para si mesma e para o mundo.

“Eu não sei, Ana. É… complicado.”

“Eu sei que é complicado. Mas Helena, pense nisso. É a chance de você brilhar. E talvez… talvez seja uma oportunidade para vocês conversarem, para entenderem o que aconteceu.”

“Entender o quê, Ana? Ele me abandonou! Sem explicações! E agora volta com um projeto que me inclui? Que tipo de jogo ele está jogando?” A voz de Helena subiu, tingida de amargura e frustração.

Ana se aproximou, colocando a mão em seu ombro. “Eu não sei que jogo ele está jogando. Mas eu sei que você é forte. E você merece essa oportunidade. E se ele está te procurando, talvez ele queira se redimir. Ou talvez ele queira algo mais. O que você acha que ele quer, Helena? Pense com o coração, não só com a mágoa.”

As palavras de Ana ecoaram na mente de Helena. Ela se sentou em seu banco de trabalho, o barro em suas mãos agora parecia frio e sem vida. Miguel. Aquele nome. Aquele homem. Aquele amor que a destruiu e que, de alguma forma, ainda a atraía.

Ela olhou para as ondas que quebravam na praia, para o azul infinito do mar. As ondas traziam e levavam, em um ciclo eterno. Talvez fosse hora dela também deixar levar a mágoa, e dar uma chance para que algo novo viesse.

“Eu preciso pensar, Ana”, Helena disse, a voz baixa e ponderada. “É muita coisa para assimilar.”

“Tome seu tempo. Mas não deixe essa oportunidade escapar por causa de um fantasma do passado.” Ana sorriu, um sorriso compreensivo. “Eu vou te deixar em paz com seus pensamentos. Me ligue se precisar de algo.”

Após Ana sair, Helena permaneceu sentada, olhando para o mar. A pousada dos Vasconcelos. Ela se lembrava bem dela. Um lugar charmoso, com uma arquitetura antiga e uma vista deslumbrante. Miguel, o empresário de sucesso, de volta a Paraty, com planos que a incluíam.

Ela pegou um pedaço de argila e começou a moldá-lo sem rumo. Em sua mente, imagens se sobrepunham: o sorriso de Miguel na foto antiga, o olhar melancólico que ele lhe lançou na praça, a carta fria que ele lhe deixou. E agora, essa proposta.

Será que ele realmente se importava? Será que ele queria se desculpar? Ou era apenas um jogo de poder, uma forma de mostrar que ele era quem mandava, que ele podia ter tudo o que quisesse, inclusive ela, de volta em sua vida, mas sob seus termos?

A água do mar, que ela tanto amava, agora parecia carregar consigo não apenas a brisa refrescante, mas também os segredos que Miguel parecia ter guardado por tantos anos. E ela, presa entre a dor do passado e a esperança de um futuro, sentia-se como uma maré indecisa, sem saber para onde ir.

Mais tarde naquele dia, quando o sol começou a se pôr, pintando o céu com cores vibrantes, Helena decidiu ir até a praia. O ar estava fresco, e o som das ondas era reconfortante. Ela caminhou pela areia, sentindo a água fria lamber seus pés.

E então, ela a viu. A pousada dos Vasconcelos. Cercada por andaimes, com trabalhadores em atividade, a reforma já estava em pleno vapor. Uma placa nova e reluzente anunciava: “Pousada Maré Alta – Em Breve”.

De repente, uma voz a fez sobressaltar.

“Helena?”

Ela virou-se. Era Miguel. Parado a poucos metros dela, com o pôr do sol atrás, sua figura parecia desenhada em cores vibrantes. Ele a observava com uma expressão que ela não conseguia decifrar. Era surpresa? Alívio?

“Miguel”, ela respondeu, a voz firme, mas com um tremor imperceptível.

Ele se aproximou lentamente, os olhos fixos nos dela. “Eu não esperava te encontrar aqui. Mas fico feliz que tenha vindo.”

“Eu precisava ver. Pela curiosidade.” Ela tentou soar indiferente, mas sabia que a verdade era mais complexa.

“Curiosidade sobre o que eu estou fazendo?”

“Sobre tudo”, ela admitiu, incapaz de mentir.

Um silêncio se instalou entre eles, quebrado apenas pelo som das ondas. Miguel parecia querer dizer algo, mas hesitava.

“Você… você comprou a pousada”, Helena observou, para quebrar o gelo.

“Sim. É um projeto antigo que eu tinha. Queria dar uma nova vida a este lugar. E a Paraty.” Ele fez uma pausa, seu olhar se tornando mais intenso. “E eu queria te convidar para fazer parte dele.”

Helena suspirou, uma mistura de alívio e apreensão. “Ana me contou. A curadoria da galeria de arte.”

Ele assentiu. “Sim. Eu sei que é uma proposta ousada. Mas eu acredito no seu talento, Helena. Mais do que ninguém. E eu sei que você traria para este lugar a alma que ele precisa.”

Ela o encarou, tentando ler em seus olhos a verdade por trás de suas palavras. Havia sinceridade? Ou era apenas mais uma forma de manipulá-la?

“Por que agora, Miguel?”, ela perguntou, a voz baixa e carregada de emoção. “Por que depois de tantos anos? Por que me envolver agora?”

Miguel desviou o olhar por um instante, observando as ondas que beijavam a areia. Quando voltou a olhá-la, seus olhos estavam marejados.

“Porque eu nunca te esqueci, Helena. Nunca. E porque eu cometi o maior erro da minha vida ao te deixar. E eu preciso tentar consertar. Ou, pelo menos, tentar entender.”

As palavras dele, tão honestas e carregadas de dor, desarmaram Helena. A mágoa ainda estava ali, forte, mas o desejo de entender, de saber a verdade, era ainda maior. Talvez, apenas talvez, as ondas trouxessem não apenas segredos, mas também a cura.

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