Promessas Quebradas 195

Promessas Quebradas 195

por Valentina Oliveira

Promessas Quebradas 195

Autor: Valentina Oliveira

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Capítulo 6 — O Desenho Que Revela a Alma

O ar da noite em Paraty parecia carregar o peso dos segredos que ali se desdobravam. A brisa salgada, que antes trazia um aroma acolhedor de maresia e história, agora parecia sussurrar advertências, envolvendo Clara em um véu de apreensão. A galeria estava silenciosa, a penumbra apenas quebrada pela luz fraca que escapava da lanterna do seu celular. Cada sombra parecia se contorcer, transformando os objetos familiares em figuras fantasmagóricas. A tela inacabada de Gabriel, pendurada ali, como um guardião mudo do passado, parecia observá-la, um convite tentador para mergulhar nas profundezas de sua arte, e, por consequência, em seus próprios abismos.

Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Não era apenas o frio da noite que a atingia, mas a inquietude que a corroía desde que encontrara o pequeno caderno de Gabriel. As páginas amareladas, repletas de esboços e anotações febris, eram uma janela para a mente perturbada do artista. Havia ali o rascunho da casa da praia, com detalhes que ela reconheceu imediatamente – a janela torta do quarto de hóspedes, o velho coqueiro curvado pelo vento. E, ao lado, esboços sombrios de rostos distorcidos, de figuras em agonia, de olhos que pareciam clamar por liberdade.

Ela virou mais algumas páginas, o coração batendo descompassado no peito. De repente, um desenho chamou sua atenção. Era um retrato. Um retrato incrivelmente detalhado de uma mulher. Os cabelos longos e escuros emolduravam um rosto de beleza singular, olhos grandes e profundos, um leve sorriso nos lábios que transmitia uma doçura quase melancólica. Clara prendeu a respiração. Por mais que a mulher fosse desconhecida, havia algo na linha do queixo, na curva das sobrancelhas, que a fez sentir um arrepio familiar. Não era ela, mas… era como um eco.

Enquanto a luz do celular dançava sobre o papel, Clara notou um detalhe que a fez engolir em seco. No canto inferior direito do retrato, havia uma assinatura discreta, quase escondida: "Amor Eterno". E abaixo, um nome: "Helena".

Helena. O nome soou em sua mente como uma nota dissonante, uma memória que se recusava a vir à tona. Quem era Helena? Era a mulher da foto que vira na casa de Gabriel? A mesma que ele mencionara com tanta dor em algumas anotações?

Clara sentou-se em um dos bancos rústicos da galeria, o caderno ainda em suas mãos trêmulas. A imagem de Helena, capturada pela mão talentosa e atormentada de Gabriel, parecia se fundir com a própria atmosfera daquele lugar. Ela podia sentir a presença da mulher ali, como se suas emoções tivessem impregnado o papel. Gabriel havia amado essa mulher profundamente. E a dor de sua perda, Clara percebeu com uma clareza avassaladora, era a mesma dor que ele tentara expressar em suas pinturas mais sombrias.

De repente, um barulho na rua a fez sobressaltar. A porta da galeria rangeu suavemente, e uma figura alta e esguia surgiu na escuridão. Era Rafael.

"Clara? O que você está fazendo aqui a essa hora?", ele perguntou, a voz carregada de preocupação. A luz fraca iluminou seu rosto, revelando a surpresa em seus olhos.

Clara fechou o caderno rapidamente, tentando disfarçar o nervosismo. "Eu… eu não conseguia dormir. Só queria dar uma olhada. O trabalho dele… é tão… intenso."

Rafael aproximou-se, o olhar fixo nela. Ele percebeu a tensão em seus ombros, o modo como ela segurava o caderno com tanta força. "Você encontrou algo?", ele perguntou, a voz mais baixa agora, quase um sussurro.

Clara hesitou. Aquele caderno era a chave para desvendar os mistérios de Gabriel. Mas também era um vislumbre de sua alma mais íntima, um segredo que talvez ele não quisesse compartilhar com ninguém. Contudo, a presença de Rafael, sua conexão com Gabriel, a fez sentir que deveria confiar nele.

"Eu encontrei isso", ela disse, oferecendo o caderno a ele. "São… desenhos dele. E anotações."

Rafael pegou o caderno, os dedos percorrendo as páginas com uma familiaridade dolorosa. Ele parou no retrato de Helena. Um suspiro profundo escapou de seus lábios. Seus olhos se encheram de uma tristeza antiga, uma dor que Clara agora compreendia com mais profundidade.

"Helena", Rafael murmurou, a voz embargada. "A musa dele. A mulher que ele amou mais do que a própria vida." Ele olhou para Clara, seus olhos buscando uma resposta que ela ainda não tinha. "Por que Gabriel guardaria isso com tanto cuidado? Por que você o encontrou?"

Clara contou sobre a caixa escondida, sobre o mistério que a envolvia. Rafael ouviu atentamente, o rosto cada vez mais sombrio.

"Helena… ela se foi há muito tempo", Rafael disse, a voz embargada. "Uma tragédia. Gabriel nunca se recuperou. A arte dele, Clara, era uma forma de lidar com a dor. Uma forma de mantê-la viva."

Ele folheou mais algumas páginas, parando em um esboço de um farol, solitário em meio a uma tempestade. Ao lado, a inscrição: "Onde a luz se encontra com a escuridão, a alma encontra seu refúgio."

"Ele sempre procurou por algo", Rafael disse, olhando para a pintura inacabada de Gabriel. "Um sentido. Uma forma de entender a perda. E eu acho que ele achou em você."

As palavras de Rafael ecoaram na mente de Clara. Ele achava que ela era a chave para a cura de Gabriel. Mas e ela mesma? Estava ela se perdendo naquele labirinto de emoções, naquele mar de promessas quebradas?

"Eu não sei o que pensar, Rafael", Clara confessou, a voz fraca. "A arte dele me atrai, mas também me assusta. Me sinto conectada a ele de uma forma que não consigo explicar. E agora… Helena…"

Rafael colocou uma mão em seu ombro. "Eu entendo. Gabriel era um enigma. E você está desvendando os pedaços dele. Mas lembre-se, Clara, você também tem sua própria história. E sua própria luz." Ele deu um sorriso fraco. "Talvez, assim como Gabriel, você precise encontrar seu refúgio. E talvez, apenas talvez, esse refúgio possa ser encontrado juntos."

A sugestão de Rafael pairou no ar, carregada de uma promessa silenciosa. Clara olhou para ele, para a sinceridade em seus olhos, e sentiu uma pontada de esperança em meio à escuridão. Talvez, apenas talvez, ela não estivesse sozinha naquela jornada. Talvez, assim como Gabriel, ela pudesse encontrar a cura. E talvez, apenas talvez, essa cura viesse em uma forma inesperada, nos braços de alguém que entendia a profundidade de suas próprias promessas quebradas. A noite em Paraty, antes sombria e ameaçadora, agora parecia envolta em uma nova possibilidade, uma luz tênue que despontava no horizonte.

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