Amar foi meu Erro 196
Amar Foi Meu Erro 196
por Ana Clara Ferreira
Amar Foi Meu Erro 196
Capítulo 21 — O Voo da Liberdade Roubada
O sol tímido de segunda-feira lutava para perfurar a névoa espessa que pairava sobre a cidade, um reflexo perfeito do estado de espírito de Isabella. A noite anterior havia sido um turbilhão de emoções, uma dança frenética entre a esperança recém-descoberta e o medo ancestral que a assombrava. A revelação de que Tiago não era seu pai biológico, mas sim o homem que a amou desde o primeiro instante, a havia desestabilizado de uma forma que ela jamais imaginou. O amor que sentia por ele, agora tingido pela complexidade de uma paternidade escolhida e não sanguínea, parecia ganhar contornos ainda mais profundos, quase sagrados.
Ela observava o reflexo no espelho, a mesma face de sempre, mas a percepção de si mesma havia mudado drasticamente. A luta interna entre a gratidão e a culpa, por ter duvidado dele por tantos anos, a consumia. A carta de sua mãe, rasgada em pedaços no cesto de lixo ao lado da cama, era um lembrete pungente de um segredo que pesara sobre a família por décadas. Um segredo que, agora que vinha à tona, parecia mais um grilhão do que uma proteção.
O telefone tocou, estridente, tirando-a de seus devaneios. Era Lucas. Seu tom era urgente, mas carregado de uma falsidade que ela já aprendera a detectar.
"Isa, meu amor, como você está? Soube do que aconteceu com o senhor Almeida. Que horror!" A voz dele transbordava uma preocupação calculada, um teatro bem ensaiado.
Isabella suspirou, apertando o aparelho contra o ouvido. "Estou bem, Lucas. Apenas... processando tudo."
"Eu imaginei. Mas, por favor, não se culpe. Você é uma mulher forte, sabe disso. E eu estou aqui para você, sempre." A promessa ecoou no ar, soando oca.
Ela tentou discernir a verdade por trás daquelas palavras doces e manipuladoras. A verdade é que Lucas sabia mais do que deixava transparecer. A verdade é que ele, de alguma forma, estava ligado a esse segredo, a essa dor que agora a envolvia. O que ele queria? Que papel ele desempenhava nesse intrincado drama familiar?
"Lucas, eu preciso te perguntar algo." A voz dela soou mais firme do que pretendia. "Você sabia sobre o meu pai?"
Um silêncio tenso se instalou do outro lado da linha. Por um instante, Isabella temeu ter ido longe demais. Mas a resposta que veio, carregada de uma hesitação quase imperceptível, confirmou suas suspeitas.
"Isabella, eu... eu sabia que havia algo. Sua mãe nunca me contou os detalhes, mas ela sempre foi muito reservada sobre o seu pai biológico. Eu sempre quis te proteger, te afastar de qualquer coisa que pudesse te machucar."
"Proteger? Ou controlar, Lucas?" A pergunta saiu como um sopro, carregada de ressentimento. Ela se lembrou das vezes em que ele a afastou de Tiago, das insinuações veladas, das mentiras que contara sobre o homem que agora se revelava seu verdadeiro pai.
"Eu te amo, Isabella. Sempre amei. Eu só queria o seu bem." A declaração, que antes a faria desmoronar, agora soava como uma confissão vazia.
"O meu bem? Ou o seu ego, Lucas? O seu desejo de me manter presa a você, longe de qualquer um que pudesse me tirar do seu alcance?" A raiva borbulhava em seu peito, uma tempestade contida. A carta de sua mãe, as palavras de Tiago, tudo confluía para uma única verdade: ela estava sendo manipulada há anos.
"Isso não é justo, Isabella. Eu sacrifiquei muito por você." As palavras dele eram um misto de mágoa e autopiedade.
"Sacrificou? Ou usou meu amor como escudo para seus próprios interesses?" Isabella sentiu um nó na garganta, uma mistura de tristeza e indignação. "Eu não sou mais a mesma garota ingênua que você conheceu, Lucas. Eu sei a verdade agora. E a verdade é libertadora."
Ela encerrou a ligação, o som seco do telefone sendo desligado ecoando no silêncio do quarto. A cada palavra trocada, uma camada de ilusão caía, revelando a teia de enganos em que ela estava imersa. Lucas, o homem que ela acreditara amar, era um predador disfarçado de salvador.
Enquanto o sol começava a despontar, iluminando o quarto com uma luz fria e implacável, Isabella tomou uma decisão. O medo ainda estava lá, um fantasma persistente, mas a necessidade de ser livre, de conhecer a si mesma sem as amarras do passado, era mais forte. Ela pegou a mala que a acompanhava em todas as viagens de trabalho e começou a arrumar suas coisas. Não havia mais espaço para o passado que a sufocava. Era hora de voar, mesmo que o voo fosse rumo ao desconhecido, rumo à incerteza. A liberdade, mesmo que roubada por tanto tempo, agora era um chamado irresistível.
"Aonde você pensa que vai?" A voz de Lucas, fria e autoritária, a fez congelar. Ele estava parado na porta do quarto, os olhos escuros fixos nela, uma fúria contida emanando de seu corpo.
Isabella virou-se lentamente, o coração acelerado. A máscara de preocupação havia caído, revelando a face sombria do homem que ela pensava conhecer.
"Eu vou embora, Lucas." A voz dela tremia, mas a determinação estava lá.
"Você não vai a lugar nenhum." Ele deu um passo à frente, bloqueando a saída. "Você é minha, Isabella. Sempre foi e sempre será."
"Eu nunca fui sua, Lucas. Você apenas me convenceu disso." Ela reuniu toda a coragem que lhe restava, o olhar firme no dele. "E eu não sou mais uma marionete nas suas mãos."
Um sorriso cruel brincou nos lábios de Lucas. "Veremos." Ele estendeu a mão para pegar a mala.
No mesmo instante, a porta se abriu com estrondo. Tiago estava ali, o corpo tenso, os olhos fixos em Lucas com uma fúria que espelhava a dele. A sombra de um passado que Isabella não conhecia, mas que sentia ser crucial, pairava entre os dois homens. A batalha pela liberdade de Isabella estava apenas começando.