O Amor que Perdi 198
Capítulo 12 — O Risco do Encontro e a Sedução da Distância
por Valentina Oliveira
Capítulo 12 — O Risco do Encontro e a Sedução da Distância
O ar na mansão Albuquerque pesava com uma tensão palpável. Helena, após a revelação chocante de Ricardo sobre os planos de casamento arranjado, sentia-se como um pássaro com as asas presas. A rosa vermelha que Ricardo havia enfiado em seus cabelos era um símbolo cruel de sua possessividade, um lembrete constante de que ele a via como uma propriedade. Ela caminhava pelos corredores luxuosos, a beleza fria das obras de arte e dos móveis antigos parecendo zombar de sua angústia.
Enquanto isso, a uma distância estratégica, o Dr. André Lins observava. Ele havia chegado com a intenção de oferecer conforto, de verificar se Helena estava segura, mas a visão de Ricardo a puxando para perto no jardim, a forma como ele sussurrava em seu ouvido, o fez recuar. O ciúme, uma emoção que ele tentava reprimir, ardia em seu peito. Ele não era apenas um médico preocupado; ele estava se apaixonando por Helena, e a ideia de perdê-la para um homem como Ricardo era insuportável.
Ele sabia que precisava agir, mas a cautela era sua aliada. Ricardo Albuquerque era um homem de poder e influência, e um confronto direto poderia ser desastroso para Helena. Ele precisava de uma maneira de se aproximar dela sem alertar Ricardo, de oferecer a ela um refúgio, um ponto de apoio.
No escritório, Ricardo se servia de um uísque de qualidade duvidosa, não pela bebida, mas pelo ritual. A possessividade em relação a Helena se intensificara com a presença sutil de André. Ele havia percebido o olhar do médico enquanto ele observava Helena no jardim, e uma raiva fria tomou conta dele. Ele não toleraria rivais, especialmente um que ousasse desafiar seu domínio.
Ele ligou para seu advogado. "Preciso de um plano para neutralizar completamente o Dr. André Lins. Quero que ele perca sua licença, que seja arruinado. Descubra tudo sobre ele, seus pontos fracos, suas dívidas. Não me importo como, apenas faça isso." A voz de Ricardo era cortante, sem piedade.
De volta ao quarto, Helena tentava organizar seus pensamentos. A mansão, que antes lhe parecia um palácio, agora parecia uma prisão dourada. Ela olhou para a janela, a paisagem exuberante do lado de fora parecendo um sonho distante. Ela precisava de ar, de um momento de paz para respirar longe do olhar vigilante de Ricardo.
Ela decidiu que iria dar uma volta no bosque que circundava a propriedade. Sabia que era arriscado, que Ricardo poderia descobri-la, mas a necessidade de escapar, mesmo que por um breve momento, era mais forte que o medo. Ela pegou um lenço, cobriu os cabelos e saiu sorrateiramente pela porta dos fundos.
André, que ainda observava a mansão, viu Helena se afastando em direção ao bosque. Ele sentiu uma mistura de alívio e apreensão. Alívio por ela estar buscando liberdade, apreensão pelo perigo que ela poderia encontrar. Ele decidiu segui-la, mantendo uma distância segura.
Ao entrar no bosque, Helena sentiu o ar fresco e o perfume das folhas molhadas invadirem seus pulmões. A luz do sol, filtrada pelas árvores frondosas, criava um jogo de sombras hipnotizante. Ela caminhou sem rumo, o som de seus passos na terra úmida o único ruído, além do canto dos pássaros. Era a primeira vez em muito tempo que se sentia sozinha, realmente sozinha, com seus pensamentos.
Ela pensou em André, em sua gentileza, em seu olhar preocupado. Ele representava tudo o que Ricardo não era: pureza, compaixão, um amor desinteressado. A distância entre eles, criada pela imposição de Ricardo, só aumentava o desejo de tê-lo por perto.
Enquanto isso, André a seguia com cautela. Ele via a angústia em seu rosto, a forma como ela se permitia desabafar em meio à solidão da natureza. Ele queria correr até ela, abraçá-la, mas sabia que isso poderia assustá-la, que ela precisava de espaço.
De repente, Helena tropeçou em uma raiz de árvore e caiu. Um grito abafado escapou de seus lábios, e ela sentiu uma dor aguda no tornozelo. Ela tentou se levantar, mas a dor era insuportável. O pânico começou a tomar conta dela. Estava sozinha, ferida, no meio de um bosque desconhecido.
André, ouvindo o grito, correu em sua direção. Ele a encontrou caída no chão, o rosto pálido de dor. Sem hesitar, ele se ajoelhou ao lado dela, o coração disparado.
"Helena! O que aconteceu?" perguntou ele, a voz cheia de preocupação.
Helena o olhou, os olhos marejados de dor e alívio. "André! Eu... eu tropecei. Meu tornozelo..."
André examinou o tornozelo dela com cuidado. "Parece torcido, mas não é nada que não possamos resolver." Ele a ajudou a se sentar em um tronco próximo e tirou do bolso um pequeno kit de primeiros socorros. "Vou imobilizá-lo. Precisamos te levar para um lugar seguro."
Enquanto ele cuidava dela, Helena sentiu uma onda de gratidão. Ele havia arriscado vir até aqui, desafiando Ricardo, apenas para garantir que ela estava bem. A conexão entre eles parecia se aprofundar a cada segundo.
"Por que você veio, André? É perigoso", sussurrou Helena, a voz embargada.
André a olhou nos olhos, um brilho de determinação neles. "Eu não podia ficar parado, Helena. Eu me preocupo com você. Mais do que deveria, talvez."
A confissão pairou no ar entre eles, carregada de significado. Helena sentiu seu coração acelerar. A distância entre eles, a imposição de Ricardo, tudo parecia insignificante naquele momento. O desejo de estar com André, de fugir para longe daquela prisão dourada, tornou-se avassalador.
"Eu também me preocupo com você, André", respondeu Helena, a voz baixa e sincera. "E eu... eu sinto algo por você."
André sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto. Ele sabia que aquele momento era perigoso, que Ricardo poderia descobrir tudo, mas a promessa de um futuro com Helena, um futuro longe de Ricardo, era um risco que ele estava disposto a correr.
Com o tornozelo imobilizado, André a ajudou a se levantar. Eles caminharam lentamente de volta para a mansão, lado a lado, em um silêncio cúmplice. A dor em seu tornozelo era real, mas a esperança em seu coração era ainda maior.
Ao chegarem à entrada dos fundos, eles se depararam com Ricardo, que parecia furioso. Seu olhar caiu sobre Helena, depois sobre André, e a raiva explodiu em seus olhos.
"O que diabos está acontecendo aqui?", rosnou Ricardo, o corpo tenso. "Você se atreve a vir aqui, Lins?"
Helena sentiu um arrepio. Ela havia arriscado tudo, e agora o perigo estava mais perto do que nunca. Mas, pela primeira vez, ela não sentiu medo. Sentiu raiva. Raiva da manipulação de Ricardo, raiva da forma como ele tentava controlar sua vida.
"Eu estava dando um passeio, Ricardo", respondeu Helena, a voz surpreendentemente firme. "E o Dr. Lins me ajudou quando me machuquei."
Ricardo riu, um som frio e cortante. "Machucou, é? Que conveniente." Ele se aproximou de André, o olhar ameaçador. "Você sabe que não é bem-vindo aqui, Lins. Saia agora, antes que eu chame a polícia."
André não se moveu. Ele segurou a mão de Helena, um gesto de desafio. "Eu não vou a lugar nenhum enquanto a senhorita Helena precisar de mim."
A ousadia de André, o toque em sua mão, acendeu uma chama em Helena. Ela olhou para Ricardo, a determinação em seus olhos. O jogo de poder havia mudado de rumo. A sedução da distância havia se transformado em um confronto aberto. O amor que ela sentia por André, puro e forte, era sua arma contra a escuridão de Ricardo.