Amor nas Alturas 200
Amor nas Alturas 200
por Camila Costa
Amor nas Alturas 200
Capítulo 1 — O Encontro Inesperado no Aeroporto
O burburinho do Aeroporto Internacional de Guarulhos era um som familiar para Clara. Mais um embarque, mais uma viagem a trabalho. A vida de Clara era feita de ponteiros de relógio, salões de aeroporto e a constante sensação de que algo importante a esperava em algum lugar, sempre um pouco mais adiante. Aos trinta e dois anos, era uma das melhores advogadas de direito internacional do país, com uma carreira meteórica que a levava de um continente a outro com a mesma naturalidade com que respirava. Mas, por dentro, um vazio persistente ecoava, um anseio por algo que o sucesso profissional não conseguia preencher.
Naquele dia, o céu estava um azul límpido, um convite à liberdade que ela, presa em seus pensamentos e nos protocolos da viagem, mal conseguia apreciar. Vestia um tailleur de linho cinza-claro impecável, cabelo preso em um coque elegante e um semblante de quem está acostumado a tomar decisões cruciais. Trazia na mão uma bolsa de grife, tão discreta quanto cara, e nos olhos a intensidade que a caracterizava.
"Senhorita Andrade, seu voo para Nova York está com um pequeno atraso. Cinco minutos, no máximo", anunciou a agente da companhia aérea, com um sorriso polido.
"Obrigada", respondeu Clara, a voz firme e um pouco cansada. Quinze minutos em Nova York para fechar um contrato milionário, depois uma conexão para Zurique. Uma semana intensa, como tantas outras. Ela se afastou do balcão, procurando um canto mais tranquilo para esperar. A sala de embarque estava lotada, um mar de rostos ansiosos e preocupados, cada um com sua própria história, seu próprio destino.
Enquanto esperava, seus olhos vagaram pelo saguão, observando os detalhes. A arquitetura moderna, a iluminação fria, o eco das vozes se misturando. De repente, seu olhar foi capturado por uma figura que se destacava em meio à multidão. Um homem alto, com ombros largos e um porte que emanava confiança. Ele usava jeans escuros, uma camisa de algodão azul desabotoada no colarinho, e o cabelo escuro, levemente desgrenhado, parecia desafiar a gravidade em um topete charmoso. Seus olhos, de um castanho profundo, pareciam carregar um universo de histórias, e um leve sorriso brincava em seus lábios. Havia algo nele que a atraiu, uma energia magnética que a fez prender a respiração por um instante.
Ele também a viu. Por um segundo, seus olhares se cruzaram. Um lampejo, um reconhecimento mútuo que parecia transcender a superficialidade do ambiente. Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era como se o tempo tivesse parado, e o barulho do aeroporto se dissolvesse em um silêncio carregado de expectativa. Ela desviou o olhar, desconcertada, e se concentrou em seu celular, fingindo estar ocupada. Mas a imagem dele persistiu em sua mente, um retrato vívido que se recusava a desaparecer.
Minutos depois, enquanto se dirigia para a porta de embarque, esbarrou em alguém. Sua bolsa de grife caiu no chão, espalhando alguns papéis importantes.
"Oh, meu Deus! Me desculpe!", exclamou a voz grave que ela reconheceu imediatamente.
Era ele. O homem do olhar intenso.
Clara se abaixou para recolher seus pertences, o coração disparado.
"Não, a culpa foi minha. Eu estava distraída", disse ela, a voz um pouco trêmula.
Ele se abaixou também, ajudando-a a recolher os papéis. Suas mãos se encontraram brevemente ao pegar um mesmo documento. A eletricidade que emanava dele era quase palpável.
"Leonardo Albuquerque", ele disse, estendendo a mão para ela, um sorriso genuíno iluminando seu rosto. O sorriso que ela vira de longe agora a atingia em cheio, como um raio de sol.
Clara hesitou por um instante, antes de aceitar o cumprimento. "Clara Andrade."
"Prazer, Clara. Fico feliz em saber que não te machuquei com meu desastre."
Ela riu, um som leve e inesperado. "Nenhum machucado. Apenas um susto."
"Vejo que você também está indo para o 200", ele disse, acenando com a cabeça na direção do portão de embarque. "Ou para um lugar parecido."
"Nova York", respondeu Clara, sentindo-se estranhamente à vontade, apesar da situação inusitada.
"Eu também! Que coincidência. Tenho uma reunião importante lá amanhã."
"Eu também. Um fechamento de contrato."
"Parece que somos colegas de destino, então." Leonardo a olhou com curiosidade, seus olhos fixos nos dela. Havia algo de diferente em seu olhar, uma profundidade que a desarmava.
"Talvez", respondeu Clara, sentindo um leve rubor subir em suas bochechas. Era raro se sentir assim, tão exposta e, ao mesmo tempo, tão fascinada.
O anúncio do embarque para o voo de Clara soou.
"Parece que nosso tempo é curto", disse Leonardo, com um tom de leve decepção que não passou despercebido por ela.
"Sim. Foi um prazer te conhecer, Leonardo."
"O prazer foi meu, Clara. Quem sabe nossos caminhos se cruzem novamente em Nova York." Ele deu um sorriso que prometia mais do que apenas uma possibilidade.
Clara sorriu de volta, um sorriso que ela não dava há muito tempo, genuíno e um pouco envergonhado. "Quem sabe."
Ela se virou e caminhou em direção ao portão de embarque, sentindo o olhar dele em suas costas. O encontro fora breve, um acaso no meio da rotina, mas algo nele a marcou. Uma faísca, um prenúncio. Ela olhou para o céu azul através das janelas panorâmicas, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu que o destino, talvez, estivesse prestes a lhe reservar uma surpresa, algo muito mais interessante do que qualquer contrato milionário. O que ela não sabia era que aquele encontro inesperado em um aeroporto movimentado seria apenas o início de uma história que mudaria sua vida para sempre, uma história escrita nas alturas.